Reinaldo Azevedo - Colunista

Zema, STF e a Inconfidência Mineira: Gaspari manda fatos para a forca

Colunista afirma que, ao se opor ao STF, pré-candidato vai para o lado certo da Inconfidência. Então vamos ver

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É de tal sorte o ódio ao STF que toma parte importante do colunismo que a gente é tentado a duvidar da sua espontaneidade. Teria tudo para ser coisa industriada se a tradição do reacionarismo não fosse, quando menos, equiparável à da conspiração.

Nunca treto com opiniões alheias até porque não as leio. As colunas que me interessam são as que trazem informações em “on”. E isso quer dizer que ignoro as dos “offs” e as que registram, como é mesmo?, “conversas com interlocutores”… Afinal, quem tem o que dizer dá seu nome. Se não, planta um interesse. Por que preciso ser freguês desse troço? Adiante.

As coisas aconteceram exatamente assim. “Você leu o que escreveu o [Elio] Gaspari?”, perguntou-me um amigo. E me mandou o trecho, a saber:
“O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema fez as pazes com a Inconfidência Mineira. Açoitando os ‘intocáveis’ do Supremo Tribunal Federal, valeu-se do aniversário da execução de Tiradentes e disparou: ‘Brasília explora o Brasil como os portugueses fizeram. (…) A luta dos inconfidentes não acabou’.
Num evento semelhante, em 2023, Zema via a Conjuração com outros olhos: ‘Temendo as consequências do golpe à Coroa portuguesa, os inconfidentes não confessaram seus crimes. O único a fazê-lo foi Joaquim José da Silva Xavier, que se tornou o Mártir Tiradentes, ao receber a pena mais dura, em 21 de abril de 1792’.
Tudo errado. Os inconfidentes contaram o que planejavam, a começar pelo advogado Cláudio Manuel da Costa, patrono dos brasileiros que se ‘suicidam’ na prisão (imagem). As confissões e denúncias passam de uma dezena. Zema tomou o partido da Coroa portuguesa. Felizmente, mudou de lado.”

OS FATOS
Vamos lá. O advogado e poeta Cláudio Manuel da Costa foi preso a 25 de maio de 1789, interrogado a 2 de julho e apareceu morto na cela no dia 4 por suposto enforcamento. Especula-se que tenha delatado companheiros de conspiração. O que me interessa, agora, é outra coisa.

Gaspari diz que Zema, desta feita, está do lado certo da Conjuração, à diferença do que sugeriu fala sua em 2023. É mesmo? Nessa metáfora, então, o Supremo passou a ser a Coroa portuguesa, e o ex-governador de Minas, finalmente, teria se aliado a uma forma, vá lá, de “progressismo”?

O melhor livro sobre Inconfidência segue sendo “A Devassa da Devassa” (imagem_, de Kenneth Maxwell, publicado no Brasil em 1977, pela editora Paz e Terra. Libertou o tema do aprisionamento escolar do suposto idílio entre o patriotismo nativista e as supostas ideias do bem, do belo e do juto.

A Conjuração Mineira era um movimento sem povo de proprietários muito ricos, quase todos senhores de escravos. A quase coincidência com os eventos que simbolizaram a Revolução Francesa — Costa foi “suicidado” a  10 dias da “Queda da Bastilha — e a proximidade intelectual de alguns de seus próceres, a começar do próprio, com teses iluministas não faziam dos inconfidentes exatamente líderes revolucionários.

Há indícios de que o “enforcamento“ tenha sido uma tramoia do Visconde de Barbacena, governador da província de Minas e homem da Coroa — a quem a vítima havia servido —, mas provavelmente envolvido com os ditos conspiradores. Como o preso estaria disposto a “falar tudo”, deu no que deu.

ZEMA LIBERTADOR?
Refaço minha pergunta: esse Zema que aí está, que transformou o Supremo no alvo principal dos seus ataques, estaria agora do lado certo por quê? O tribunal que garantiu o triunfo da democracia sobre o golpe e que mandou os criminosos para a cadeia deve ser visto como uma força que aprisiona a nação, de sorte que o pré-candidato do Partido Novo deveria ser visto como um libertador?

O político que vê os Estados do Nordeste como uma espécie de força organizada do atraso merece essa deferência? Esse gestor revolucionário conseguiu a proeza de pegar um Estado com uma dívida de R$ 104 bilhões para elevá-la, depois de sete anos, a R$ 182 bilhões. E a coisa só não foi à breca em razão das intervenções do STF, garantindo-se, inclusive, a suspensão do pagamento da dita-cuja. Eis o homem?

Estamos diante de uma forma particular de “iluminismo” contra os terríveis colonizadores do STF que promete, se eleito, suspender o Bolsa Família pago aos homens porque os “marmanjos” estariam se aproveitando do benefício para não trabalhar, o teria originado carência de mão de obra… Acho que mesmo os colonizadores d’antanho diriam ser tal ilação a cloaca do reacionarismo.

A que lado certo da Inconfidência, tomada a valor presente, Zema teria aderido? Certamente não se juntaria a alguns que tinham formação intelectual, como o “suicidado” Cláudio Manual da Costa, um bom sonetista, diga-se de passagem. Forma com o português de nascimento Tomás Antônio Gonzaga o par de poetas que foi a expressão da poesia árcade no Brasil.

Ou alguém imagina Zema, aquele que ignora quem é Adélia Prado, a recitar:

Destes penhascos fez a natureza
O berço em que nasci: oh! quem cuidara
Que entre penhas tão duras se criara
Uma alma terna, um peito sem dureza!

Amor, que vence os tigres, por empresa
Tomou logo render-me; ele declara
Contra meu coração guerra tão rara
Que não me foi bastante a fortaleza.

Por mais que eu mesmo conhecesse o dano
A que dava ocasião minha brandura,
Nunca pude fugir ao cego engano;

Vós que ostentais a condição mais dura,
Temei, penhas, temei: que Amor tirano
Onde há mais resistência mais se apura.

Levaria pau já na interpretação de texto.

ENCERRO
Quando se diz que, ao afrontar o Supremo, Zema finalmente escolhe o lado certo da Inconfidência, não há outra interpretação possível: o tribunal seria a força reacionária a ser vencida, e o pré-candidato do Novo passaria à condição de elemento em favor do progresso.

É o que indica a história recente do Brasil? A resposta é “não”. A menos que a pessoa se alinhe com o reacionarismo contra o pacto civilizatório. Corresponde a mandar os fatos para a forca.

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