Reinaldo Azevedo - Colunista

Se TSE mantiver censura a pesquisa, resta o STF. Kássio, nossa Dee Dee

Convidaram Kássio a indagar “Pra que serve esta pesquisa?”. E ele resolveu apertar o botão da censura. Que seus pares não desmoralizem o TSE

atualizado

metropoles.com

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Embora o ministro Kássio Nunes Marques lembre, sob certo ponto de vista — e não será pelos dons do pensamento — a personagem principal do desenho animado “O Laboratório de Dexter”, ele se viu tentado a se comportar como Dee Dee, a irmã imprudente, despreocupada e alegre do geniozinho cabeçudo, sempre pronta para fazer uma besteira. Segundos antes do grande resultado de alguma experiência, ela descobre um mecanismo que não pode ser tocado e pergunta: “Pra que serve este botão?” Não espera resposta e aperta. E tudo vai para os ares. Convidaram Kássio a indagar “Pra que serve esta pesquisa?”. E ele resolveu acionar a censura. O que penso? A depender do que façam os outros ministros ao julgar a sua absurda liminar censória, avalio que o doutor convidou o STF a ser tutor do tribunal eleitoral porque, afinal, é na Corte Constitucional que se debatem temas… constitucionais.

A determinação de Kássio para que a AtlasIntel retirasse de suas páginas a pesquisa — e ele teve a delicadeza de não censurar a imprensa —, acatando argumento do PL, segundo o qual houve indução das respostas, é uma dessas linhas que não se devem atravessar. A tese é absurda: os respondentes avaliaram o áudio de Flávio pedindo os milhões a Daniel Vorcaro depois que já haviam se manifestado sobre a disputa eleitoral. A menos que Kássio tenha um juízo alternativo, no caso dado, o que vem depois não pode ser causa do que veio antes. Kássio até poderia argumentar que a casa futura explica por que, no presente, se assentam tijolos, mas certamente ele não tem como explicar de que modo uma escolha já feita foi induzida por uma indagação que ainda não tinha sido apresentada. É uma aberração.

“Dee Dee” estava impossível naquele dia e resolveu enroscar também com a sequência de perguntas, que não lhe pareceu a melhor. Não há restrição de natureza técnica. Só opinionismo. E ainda fez reparos à análise dos dados do responsável técnico da AtlasIntel. Os seis outros ministros precisam atentar para a Caixa de Pandora que Kássio resolveu abrir. Cadê a gritaria nos vigilantes setores da imprensa sempre ágeis em defender a “liberdade de expressão” dos afascistados a pregar golpe, no tempo que Alexandre de Moraes comandava o tribunal?

A ministra Estela Aranha pediu vista ontem, e o julgamento foi adiado. Compõem ainda o colegiado André Mendonça, Dias Toffoli, Antônio Carlos Ferreira, Ricardo Villas Bôas Cueva e Floriano de Azevedo Marques. Manter a decisão por delicadeza ou para “honrar o tribunal” atinge a essência do próprio… tribunal. Caso isso aconteça, torço para que a AtlasIntel apele ao Supremo porque se estará diante de um caso de censura sob a aparência de rigor técnico. E há mais.

Quantas pesquisas serão registradas no TSE até o dia do segundo turno — caso haja um? Sempre que um candidato avaliar que as perguntas estão malfeitas ou que virem alguma indução de resposta, apelarão a tio Kássio para que dê um jeito, e ficará à vontade do relator conceder ou não uma liminar suspensiva, a ser examinada depois pelos pares?

A propósito: o presidente do TSE, que seria menos “intervencionista” do que Moraes, indicou a si mesmo, de cara, como um dos ministros aos quais serão distribuídas ações dessa natureza. O outro é André Mendonça, vice-presidente da corte eleitoral. Estela compõe a trinca numa espécie de “saludo a la bandera” — para maquiar uma centralização inédita das decisões.

O tribunal já impôs, sim, restrições a pesquisas que não estavam devidamente registradas. São feitas todos os dias, às centenas, mas servem ao consumo de partidos, empresas, lobbies etc. E, claro, os dados vão para as colunas de notas, mas sem a marca de um instituto que lhes dê credibilidade.

Kássio não pretende examinar os levantamentos de empresas que fazem pesquisas para um partido de segunda a quarta e as “independentes” de quinta a domingo? E aquela financiada por instituição financeira que prevê o caos econômico na terça para divulgar na sexta um levantamento que assegura que “uzmercáduz” anteveem o…caos econômico?

Ele tem noção das consequências? Os demais ministros imaginam a barafunda em que podem se meter e como, por essa trilha, o tribunal pode ser desmoralizado? Há, sim, institutos de pesquisa nos quais eu jamais entraria acompanhado da minha carteira — no caso dos que têm uma sede. Mas o debate público tem sabido fazer as devidas distinções. Flávio se incomodou porque caiu seis pontos no levamento de maio e porque a AtlasIntel está entre os levantamentos respeitáveis.

Em 21 de agosto de 2025, o cientista político Andrei Roman, CEO da empresa censurada, afirmou o seguinte à BBC Brasil:
“Há hoje uma chance maior de Lula perder do que de ganhar, em uma situação que eu classificaria como normal, a partir apenas de fatores estruturais”. Razão: o petista teria perdido o “bônus Nordeste”. Ponderou, no entanto: “Mas uma eleição não se dá apenas em função desses fatores; ela se dá também em função de fatores conjunturais. O mais importante, nesse caso, o papel de Jair Bolsonaro [PL] em escolher seu candidato ou candidata”. Pois é… E Bolsonaro escolheu Flávio, e Flávio escolheu pedir US$ 24 milhões a Vorcaro para o tal filme — na hipótese de que o dinheiro tenha ido para tão notável obra.

O mais escandaloso é que o pré-candidato do PL apareceu numericamente à frente de Lula nas pesquisas do instituto em fevereiro, março e abril. O PL bateu bumbo e espalhou os dados nas redes freneticamente. Como o Zero Um caiu do cavalo em maio, então se pediu ao TSE para censurar os números. E a Dee Dee que preside o tribunal apertou o botão.

ENCERRO
O TSE está disposto a formular uma tese para todas as pesquisas — a ser, em suma, um “legislador” da área? Então que os outros seis embarquem na censura praticada por Kássio. E se escolherá o caos por camaradagem…

Não conheço Andrei Roman e não sei o que pretende fazer se a censura for mantida. Entendo que o caminho é apelar ao STF por meio de um Recurso Extraordinário, que terá de ser examinado por todos os ministros. Convenham: a censura é coisa grave demais para ser reintroduzida no país por uma eventual maioria de quatro ministros do TSE.

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