Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Eleições 2026Reinaldo Azevedo

Datafolha e salame fatiado. Caiu a ficha do PT? E Mendonça X Schopenhauer

Pesquisas apontam que a dita “crise do STF” é muito maior na imprensa do que no eleitorado. Mendonça e como vencer um debate sem ter razão

18/09/2026 11:35
Datafolha e salame fatiado. Caiu a ficha do PT? E Mendonça X Schopenhauer
Datafolha e salame fatiado. Caiu a ficha do PT? E Mendonça X Schopenhauer

HISTERIA ANTI-STF ESTÁ NA IMPRENSA, NÃO NO ELEITORADO
Nada aconteceu nos números do Datafolha. Lula segue com 46%, e Flávio, com 44% em simulação de segundo turno. Outros institutos apontam a mesma coisa, com pequenas variações. Quem gosta de inventar teorias nas quais vira especialista fatia o eleitorado como rodelas de salame para “analisar” cada uma, fazer predições, vender imprecisões…

“Ah, Lula perdeu X pontos percentuais no eleitorado não polarizado de centro que prefere sorvete de uva, é palmeirense e gosta do Bolero de Ravel…” Que coisa cacete! O dito “escândalo do Supremo” interessa muito à rodela de certa imprensa, mas, parece, nem tanto aos eleitores — mesmo aos “não polarizados de centro-esquerda que escolhem sorvete de coco queimado, são torcedores do Corinthians e odeiam o Bolero de Ravel”. Ah, sim: “Você é contrário (a, e…) ou favorável a que se punam os homens maus?” Somos todos a favor, é claro! Quem vai se opor ao bem, ao belo e ao justo?

A falsa “maior crise da história do tribunal” — como sou adversário de ditaduras, continuo a achar que ela se deu em 1969, quando o AI-5 cassou três ministros e outros dois se demitiram em solidariedade — não moveu o eleitorado. O que tirou a vantagem mais folgada que tinha Lula foram os vazamentos contra Lulinha, oriundos dos casos sob a relatoria de André Mendonça.
*
STF NÃO PRECISOU NEM DO GOVERNO NEM DO PT
Mendonça, diga-se, eis um segredo de Polichinelo, virou um “fator eleitoral”. Parece, vamos ver, que o PT acordou para o debate. Entrar na onda da hostilização ao Supremo corresponde a se deixar sequestrar pelo discurso do adversário. Flávio havia lançado o mote “Votar em Lula é votar em Alexandre”. Ontem, Lula se saiu com outra: “Votar em Flávio é votar em Vorcaro”.

Como resta evidente, a sessão do STF não contou, nem havia como, com a ajuda do Planalto. Inexiste veículo de imprensa que não tenha noticiado que a expectativa por lá era a de que se abriria um processo contra Moraes, embora isso nem estivesse na pauta distribuída por Edson Fachin.

O embate se deu no seio da própria Casa. O problema, e até os bolsonaristas sabem disto, é que um lado atuou de acordo com as regras do jogo — as leis e o Regimento Interno —, e o outro, encarnado por Edson Fachin, achou que poderia vencer com a força dos editoriais à moda Rainha de Copas, de Alice: “Cortem-lhe a cabeça”.

Os que se opunham à degola ao arrepio da lei não precisaram nem do governo nem do PT. E, até onde pude perceber, também não se viu a ajuda de nenhum ET. Os elementos externos à Corte eram o linchamento de setores da imprensa e as ameaças do governo Trump. Quem vira refém do discurso do adversário perde.

Ademais, a ideia de que “não abrir a investigação” contra Moraes seria, de algum modo, do interesse de Flávio porque lhe daria um discurso é uma estupidez. Ele estaria vivendo mistérios gozosos se Fachin tivesse sido bem-sucedido nas suas óbvias ilegalidades, apontadas por Dino com precisão cirúrgica.
*
MENDONÇA E O REVERSO DA FORTUNA
Um ex-parceiro de Vorcaro (reportagem neste Metrópoles) repassou R$ 5 milhões para a fundação do Instituto Iter, de que André Mendonça era sócio e de que, agora, seria só professor. Um cunhado do ministro trabalha no gabinete do deputado Cezinha de Madureira (PL-SP) — coluna de Igor Gadelha —, investigado pela Polícia Federal.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles

Flávio Dino determinou ontem o envio à Polícia Federal de informações sobre possíveis crimes nas operações do Banco Master com concessionárias de cemitérios da Prefeitura de São Paulo. A decisão aponta uma nova relação entre o grupo e uma das empresas afetadas por um julgamento no STF. Trata-se da Cemitérios e Crematórios SP.

Segundo o magistrado, há um “adensamento de indícios de crimes nas operações do Banco Master com as empresas concessionárias de cemitérios da Prefeitura de São Paulo”. Em outra decisão ligada ao caso, Dino citou um encontro, em março de 2025, entre Vorcaro e Mendonça, cujo irmão Alexandre trabalha na área funerária e cemiterial da SP Regula, a Agência Reguladora de Serviços Públicos de São Paulo.

No dia seguinte a esse encontro, que se deu em 24 de março do ano passado, Mendonça pediu vista do processo. Quando o julgamento foi retomado, em abril, votou contra a manutenção de uma decisão individual de Dino que estabelecia restrições às concessionárias de cemitérios privados.

Dino mandou as informações ao presidente do Supremo, Edson Fachin, deixando claro que seu colega de Corte, obviamente, não é investigado, o que só poderia acontecer com autorização dos ministros — a menos que se empregasse o método a que recorreu o próprio Mendonça contra Alexandre de Moraes. Ademais, há as conversas no celular do ex-banqueiro que evidenciam que aquele que teria virado o símbolo de uma moralidade superior no tribunal não era alheio ao ecossistema Master.

MENDONÇA E DOIS ESTRATAGEMAS DE SCHOPENHAUER
Mendonça afirmou ontem ao G1 que sabia que “viriam represálias” contra ele e que nada tem a temer. Que bom! Disse:
“Quando decidi levar adiante as informações que recebi da Polícia Federal, sabia que viriam represálias. Fui advertido, de forma implícita e explícita, de que viriam ataques à minha pessoa e a pessoas próximas a mim. Conforme ensina Schopenhauer, dentre os estratagemas para se tentar vencer um debate sem ter razão, estão os ataques pessoais contra quem diverge, fazendo-o de forma injusta, ofensiva e insultante. No entanto, nada tenho a temer. Assim, apesar dos ataques e tentativas de intimidação, seguirei cumprindo meu dever com serenidade e responsabilidade”.

Pequena correção: ele não “recebeu” informações da PF, mas determinou que fossem produzidas, um procedimento obviamente ilegal.

O ministro cita o livro “Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão em 38 Estratagemas”, de Schopenhauer. Esse que ele aponta é justamente o 38º, o “argumentum ad personam”. Bem, tenho de lembrar aqui que o ministro é um usuário do Estratagema 35: “A Persuasão pela Vontade”— os editorialistas dos jornais que o incensam fazem o mesmo. Consiste em afirmar que o adversário atua contra os interesses da própria corporação a que pertence.

Quem apela a esse truque — também chamado de “argumentum ab utili” — estaria apenas interessado na depuração de tal corporação. Engano-me, ou todos lemos ser preciso salvar o Supremo? Sim, caras, caros, e cares… Salvar o Supremo que salvou a democracia, coisa de que sinto orgulho. A ministra Cármen Lúcia, parece, não…

Escreve Schopenhauer: “Todos os ouvintes acharão os argumentos do adversário frouxos e mesquinhos, ainda que sejam excelentes, e os outros justos e acertados, ainda que sejam uma burla”. Mendonça sabe que ganhou um debate na mídia sem ter razão. E sem a lei.

*
KASSIO COM K, A MANSÃO E OUTRO ESTRATAGEMA
Lê-se neste “Metrópoles”:
“Trocas de mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro e obtidas pelo Metrópoles revelam a articulação para reservar e estruturar a hospedagem de um “ministro” identificado como “KN” durante o Carnaval de 2025 na ‘melhor casa do Rio de Janeiro’.

As conversas indicam que o ex-dono do Banco Master reservou uma mansão luxuosa em Joá, bairro nobre da capital fluminense, para “KN” e o desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). Investigadores da Polícia Federal apontam que KN seria o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques. Ele é amigo de Newton Ramos. Procurados, os magistrados não se manifestaram.

A mansão reservada é do ator global Márcio Garcia. O imóvel é avaliado em R$ 250 milhões, tem sete suítes, 6 mil metros quadrados e uma vista deslumbrante para o mar nas proximidades da Pedra da Gávea. Os diálogos indicam que a semana de hospedagem no Carnaval custou cerca de R$ 1,45 milhão.”

É o mesmo Kassio com K, pai de Kevin com K, o dos 500K/mês.

A melhor resposta que o ministro conseguiu dar para tentar evidenciar a sua isenção foi lembrar que votou contra um “habeas corpus” para o pai de Vorcaro. Também Mendonça, o que convidou o então banqueiro para o lançamento do Iter em Belo Horizonte, além de encontros privados, deixou o ex-banqueiro preso em RDD, embora inexistisse qualquer razão legal para isso.

Há sempre aquele que acha que uma boa maneira de provar a sua isenção e independência é ser publicamente ingrato com a mão que o afagou em sigilo. É um jeito de ver as coisas.

Trata-se de uma variante do Estratagema 14 apontado por Schopenhauer: a “Falsa Proclamação de Vitória”. Assim:
“Um golpe descarado é quando, depois de o adversário responder a muitas perguntas sem que as respostas fossem adequadas à conclusão que tínhamos em mente, declaramos e proclamamos triunfalmente demonstrada a conclusão que pretendíamos, ainda que, de fato, não se siga de suas respostas. Se o adversário for tímido ou tolo, e se tivermos boa dose de descaramento e uma bela voz, este golpe poderá funcionar. Esse estratagema corresponde à ‘fallacia non causae ut causae’: tratar como prova o que não é prova”.

Tratar como prova o que não é prova é o que mais fazem hoje os ditos moralizadores do Supremo. Sempre para salvar o Brasil, é claro!