Ex-integrante do MBL sobre Renan Santos: “Eu quero ver o cara morto”.
Ex-pré-candidata da Missão, Glenda Varotto diz em áudios que queria a morte do presidenciável do partido, Renan Santos
Uma ex-integrante do Movimento Brasil Livre (MBL), que chegou a ser anunciada como pré-candidata a deputada federal pelo grupo, conversou durante meses sobre a possibilidade de assassinar o coordenador do MBL e candidato à Presidência da República Renan Santos (Missão).
“Eu quero ver o cara morto”, diz a influenciadora Glenda Varotto, conhecida como Espectro Cinza, numa gravação de áudio.
A coluna teve acesso a um conjunto de 378 arquivos sobre Glenda, incluindo fotos, vídeos e, principalmente, gravações de áudio coletadas ao longo de meses.
Os arquivos contam uma história de paixão, desilusão e vingança. Glenda diz a um confidente, que a gravou, querer um romance com Renan Santos. O presidenciável não a corresponde.
A partir daí, Glenda procura outros ex-integrantes rompidos com o MBL para planejar formas de causar, nas palavras dela, “irritação, aborrecimento, ódio, vergonha, humilhação” ao presidenciável.
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“Por mim, desde que ele esteja morto, eu tô feliz. Essa bosta desse cara aí pode instaurar Terceira Guerra Mundial, Terceiro Reich, sei lá, foda-se, eu só quero esse cara morto. Esse demônio. Esse fodido”, diz Glenda, de 34 anos, numa das gravações.
À coluna, Glenda Varotto disse que os áudios são um mero “desabafo” sobre seu antigo local de trabalho, dito “da boca para fora”. Disse ainda que nunca teve real intenção de matar ninguém e que é alvo de uma campanha de “assassinato de reputação” por parte do movimento (leia mais abaixo).
Renan Santos, 42 anos, participa de sua primeira eleição este ano como candidato à Presidência pelo partido Missão. A legenda, criada por militantes do MBL, obteve o registro no TSE em novembro de 2025. Na última pesquisa AtlasIntel, Renan aparece em terceiro lugar, com 5,1% das intenções voto.
Natural de Carazinho (RS), Glenda se apresenta no Instagram como “palestrante, escritora e criadora do Conciliacionismo (de gênero)”. Atualmente, ela tem 180 mil seguidores na rede.
“Não quis me comer, bem feito. Destruí sua vida (risos). Era só ter me comido. Não quis, se fodeu. É isso que acontece com todos os homens que não transam comigo”.
Glenda se aproximou do MBL em 2024 e entrou oficialmente para o movimento no começo de 2025. Foi contratada para escrever artigos para a revista cultural do movimento, a Valete, e ganhava comissão por venda de produtos. Ela rompeu com o grupo no fim de abril deste ano.
A maioria dos arquivos foi produzida entre janeiro e agosto deste ano por um amigo e ex-professor de inglês de Glenda. Ele disse ter ficado preocupado com as menções frequentes a violência física.
“Não acho que você quer matar mais ninguém, só ele (Renan)”, diz o professor numa das conversas com Glenda, no começo de agosto. “Não, claro, é só ele. Que ele merece (morrer), porque é uma pessoa horrível”, diz Glenda.
Nas conversas, também aparecem menções constantes a outros ex-integrantes do MBL que romperam com o grupo e que hoje são detratores.
“E não é só eu (que quer a morte de Renan Santos). O Ben (Pontes) quer, a Mabel (Palumbo) quer, o (Gabriel) Costenaro quer”, diz ela na mesma conversa com o ex-professor de inglês.
“Domingo eu vou encontrar ele (Costenaro), (Matheus) Faustino (ex-porta-voz do MBL), Ben… todos os ferrados”, diz ela, num áudio de meados de junho.
“Eu falei para ele (Costenaro): o Renan é uma pessoa extremamente temperamental e muito sensível, e o humor dele varia com muita facilidade e rapidez, né. E aí eu disse assim pra ele: ‘olha, todos os micro, insignificantes momentos que eu puder causar irritação, aborrecimento, ódio, vergonha, humilhação contra ele, eu vou fazer.’ E aí nós apertamos as mãos”, diz ela, com uma risada.
Em março deste ano, Gabriel Costenaro abordou Renan Santos durante uma agenda de pré-campanha no centro do Rio de Janeiro.
Os dois trocaram insultos e empurrões. Quando ainda era do MBL, Costenaro se envolveu numa confusão com o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ), que o expulsou aos chutes da Câmara dos Deputados.
Numa das conversas, Glenda chega a dizer que não ficaria muito tempo presa caso ela mesma matasse Renan, por ter curso superior e ser branca.
“Vamos considerar: eu tenho universidade, eu não tenho passagem na polícia, eu sou branca, eu sou boa, tipo, boazinha, eu sou inteligente, as pessoas gostam de mim, nunca fiz mal para uma mosca. Capaz de eu sair como heroína ainda que matei Adolf Hitler”, diz ela ao confidente.
Em outro momento das aulas de inglês, o então professor diz que Glenda se reuniu por três vezes com Ben Pontes para planejar matar Renan Santos.
No dia 27 de agosto deste mês, Renan Santos apresentou uma notícia-crime a respeito de Glenda à Polícia Federal em São Paulo. Na peça, a defesa dele pede à PF que instaure inquérito para apurar os fatos, com perícia do material enviado e oitiva dos envolvidos, entre outras medidas. O caso tramita em sigilo.
Procurado, Renan Santos disse que a Polícia Civil de São Paulo e a PF instauraram inquérito para apurar os fatos.
“Tomamos conhecimento de uma rede criminosa que atua desde 2024 para imputar crimes de nazismo, racismo e misoginia contra mim e outros membros do MBL/Missão. Um dos objetivos deles é que, com isso, eu seja morto. Enviamos essas informações à Polícia Civil e à Polícia Federal, que instauraram inquérito para apurar”, disse ele.
“Vale lembrar: essa senhora tentou de várias maneiras me seduzir, sem sucesso. Tentou se relacionar comigo, interferir em relacionamentos pessoais e, tão logo percebeu que não teria sucesso, optou por montar uma quadrilha visando destruir minha reputação, campanha e honra. É uma pessoa má que precisa de tratamento”, disse o candidato.
“Estratégia maquiavélica de conquista”
Nos áudios, Glenda confidencia para seu então professor de inglês que queria um “relacionamento público” com Renan Santos. Ela conta que chegou a fazer um “documento de conquista”, baseado no filósofo e diplomata florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527).
“Por exemplo, eu criei um documento… juro… eu criei um documento de conquista romântica / amorosa para o Renan, baseado em Maquiavel”, diz ela.
Segundo ela própria, o documento tinha “dicas de roupa, acessórios, frases, simulações de diálogos, respostas… com uma bela foto de Ana Bolena na capa”. A referência é à cortesã e ex-rainha consorte da Inglaterra, que viveu entre 1501 e 1537 e foi o pivô da separação de Henrique VIII de sua mulher anterior, Catarina de Aragão.
“Por exemplo: eu tenho usado as roupas dele, eventualmente. Lá dentro do MBL, mas também em público, certo? Eu faço isso como uma espécie de movimento hipnótico de que nós somos a mesma pessoa. Já dizem que somos parecidos (…). Uma das melhores formas de você iniciar algo com alguém não é você avisando, solicitando, pedindo, exigindo. É simplesmente agindo como se isso já acontecesse”, diz.
Em mensagens de abril deste ano, Glenda conta a seu amigo e ex-professor de inglês que se sente rejeitada por Renan Santos. Diz que ele a “deixa no vácuo” e que a teria “humilhado” politicamente e profissionalmente.
Acusações de nazismo
Em outros trechos das conversas, Glenda aventa a possibilidade de acusar Renan Santos de nazismo.
“Eu acho até bonitinho o jeito que eles estão interpretando o que eu realmente gostaria de fazer, né? Porque eu não queria, sei lá, só taxar ele de nazista para mandar alguém matar. Eu mesma queria matar ele, mas né?”
“Ai meu Deus do céu…”, responde o professor, mostrando preocupação.
“Desculpa, desculpa… não vou matar ele”, diz ela.
“A minha impressão é que você já teve umas três conversas com o Ben (Pontes) de matar o Renan. Isso não é normal”, diz o professor.
Numa série de áudios de 15 de junho, Glenda discorre sobre como prejudicar a imagem de Renan Santos com apoiadores da comunidade judaica.
“Se fosse você, o que é que tu diria lá naquele evento judeu? Para interromper o financiamento deles para a campanha do Renan? Que tipo de coisa tu consideraria verdadeiramente ameaçadora, mas ao mesmo tempo que não fosse caricata?”, pergunta ela ao confidente.
Renan participou de um evento com a comunidade judaica em 10 de agosto deste ano.
“Pensei em fazer a relação da religião do esoterismo dele, de Mitra, de ser um Deus do sacrifício, com o Hitler ter feito o mesmo sacrifício em relação aos judeus. Que na verdade o Hitler só foi um homem incompreendido”, diz ela.
Renan Santos tem nas costas uma tatuagem de Mitra sacrificando um touro. Segundo ele, a imagem não reflete suas crenças religiosas — o candidato se batizou recentemente na Igreja Católica.
“Dá pra dizer que eu já vi ele falando que Hitler foi um homem incompreendido, que estava tentando revitalizar o espírito da Alemanha (…). Que a esposa do Orlando (Lima, membro do MBL) tem um quadro do Hitler em casa (…), e também que ele é obcecado em fazer trajetórias pregressas de genealogia e genética, que ele acredita que os judeus são degenerados que têm estragado a cultura dos povos mundialmente”, diz ela em outro áudio.
Num outro áudio do mesmo dia, Glenda diz ter consciência de que estaria mentindo.
“Porque eu tô disposta a mentir, né?”, diz.
“Meu Deus, que horror, eu nunca fiz isso na minha vida. Nunca menti deliberadamente para prejudicar alguém”, diz ela.
Nando Moura: o aliado “delirante”
Em alguns áudios, Glenda menciona o youtuber Luis Fernando de Moura Cagnin, o Nando Moura, como um “aliado” no plano de vingança contra Renan Santos.
Conhecido por se posicionar à direita, Nando Moura manteve uma relação cordial com o MBL até 2024, quando começaram as críticas mútuas. Hoje, Moura é um dos principais críticos públicos do movimento dentro da direita.
Numa de suas aulas com o ex-professor, Glenda menciona uma transmissão ao vivo em que ela teria citado a suposta relação de Renan e outros apoiadores do MBL com um influenciador de extrema-direita dos Estados Unidos, que se apresenta como “The Phallic Man”.
Segundo ela, a fala gerou “um problemão”, mas por outro lado serviu para aproximá-la de Ben Pontes, Costenaro, Lucas Pavanato e Nando Moura.
Em outra aula, o professor diz, em inglês, que Nando Moura é “um bom aliado” de Glenda. “Mas é delirante (“delusional”)”, diz ele. Ela concorda.
“Ele é um bom aliado, certo? É o aliado que você tem. Então vamos trabalhar com ele. Mas ele é delirante. E eu acho que, às vezes, nós precisamos ser delirantes, porque, se não formos delirantes, desistimos, certo?”, diz o professor.
O material recebido pela coluna inclui também a gravação de tela de uma videochamada entre Glenda e três interlocutores, identificados como “ynz”, “Yoshoua Dovid” e “William”. Na conversa, datada de 20 de outubro de 2026, Yoshoua diz fazer parte do “time do Nando”.
O “William” da chamada é William Tavares, outro ex-integrante do MBL. Em 2024, Tavares disse, em entrevista ao site The Intercept Brasil, ter presenciado a circulação de ideias “racistas e eugenistas” em chats online do movimento.
Glenda: falas foram “desabafo” e “ditas da boca para fora”
Procurada pela coluna, Glenda Varotto disse que deixou o MBL em abril de 2026 após uma reunião “surpresa”, na qual diz ter sido acusada de “inúmeros absurdos”. Ela diz ainda que foi pressionada a assinar documentos para viabilizar uma saída “pacífica” do movimento.
Segundo ela, esse acordo não foi respeitado. Após seu desligamento, dirigentes e apoiadores do movimento passaram a atacá-la publicamente. Ela diz que foi alvo de acusações falsas e de ataques coordenados para destruir sua reputação.
Sobre os áudios, Glenda diz serem desabafos privados feitos a um amigo em meio ao desgaste emocional causado pelo conflito com o MBL. Ela sustenta que as falas foram ditas “da boca para fora” e não refletiam intenções reais de assassinar Renan Santos.
“Esses áudios são de um funcionário que comeu o pão que o diabo amassou no lugar em que trabalhava reclamando do ex-patrão com o melhor amigo”, diz ela.
“Se eu realmente tivesse um plano de atentar contra a vida de alguém, ou falasse seriamente qualquer uma das bobagens ditas ali, a última coisa que faria sentido fazer é sair falando isso por aí para me comprometer”, disse ela.
Leia abaixo a íntegra da manifestação de Glenda Varotto
Todo mundo que viveu em um ambiente de trabalho sufocante e humilhante é capaz de se identificar com esses áudios. No caso do MBL, é pior. Passei por meses de escárnio público em grupos privados, em congressos, transmisições ao vivo e redes sociais, e mesmo após a minha saída isso continuou.
Eu saio do MBL dia 23/04/2026. Eu vou para o escritório do MBL para gravar normalmente meu podcast com Ricardo Almeida a pedido da Janiffer (que trabalha para eles). Chegando lá, descubro que não é isso. Eles me cercam, começam a me acusar de inúmeros absurdos, dizem que possuem prints de conversas minhas. Inclusive, há alta probabilidade de o MBL ter invadido o meu WhatsApp.
Ao longo da reunião “surpresa”, digo que não confio neles, eles dizem que não confiam em mim e decidimos pela minha saída pacífica do movimento, sem a necessidade de ataques mútuos. Mas, para que a saída seja pacífica, eles me obrigam a assinar um contrato e uma notificação extrajudicial na hora com acusação de crimes.
Eu estava extremamente nervosa, sendo pressionada por todos os lados pela advogada Catalyna, o RH Oliver e o irmão de Renan Santos, sem meu sócio, sem advogado, pega de surpresa. Para terminar aquele pesadelo, assino e vou embora. Antes de sair do escritório, Alexandre me diz para não contar a reunião para ninguém. Horas depois, eles postam uma nota dizendo que eu saí apenas por questões pessoais.
Chego em casa, leio o contrato melhor e descubro que eles me fizeram assinar um documento extremamente pernicioso, para dizer o mínimo, me acusando de inúmeros crimes. Todo esse momento me destrói emocionalmente e eu fico dias de cama.
Teoricamente, deveria ser uma saída pacífica. Mas o Renan Santos decide me atacar constantemente nas lives após a minha saída. Na primeira live que o Renan faz após minha saída, em 27/04/2026, Renan diz para milhares de pessoas que as pessoas que saíram do movimento (o que obviamente me inclui, porque eu tinha acabado de sair) são malucas, podres e têm transtornos mentais.
Isso já foi o suficiente para uma candidata da Missão de Pernambuco, quatro dias depois, me chamar de “merda” em um comício do partido.
Na outra semana (08/05/2026), Renan faz outra live dizendo que TODOS os ex-MBLs (me incluindo, é claro) “têm gravíssimos transtornos mentais”.
A partir disso, Renan passa a colocar o Junito (Junior Ramos) para me atacar nas suas lives e colocar o público contra mim, dizendo que eu faria parte de uma espécie de gangue de vazamento de informações do MBL, o que não é verdade. Junito faz ataques contra mim em inúmeras lives, diz que eu gravava reuniões do MBL — sendo que nem de reuniões eu participava —, que eu passava fofocas para o Nando Moura — sendo que nem contato com o Nando Moura eu tinha — e que eu teria traído meu ex-namorado, além de várias outras acusações. Essas lives eram cortadas e transformadas em vídeos no YouTube com meu rosto na capa por canais da militância do partido. Ou seja, eram ataques coordenados para destruir minha reputação.
A maioria das lives não está acessível porque o Junito as privou ou limitou o acesso delas para membros (o que ele passa a fazer em maio de 2026, logo após meu desligamento e o início dos ataques contra mim).
Em resumo, esses áudios são de um funcionário que comeu o pão que o diabo amassou no lugar em que trabalhava reclamando do ex-patrão com o melhor amigo. Eles decidiram destruir minha reputação de todas as formas, isso me esgotou emocionalmente e eu fiquei desabafando com ele. Por óbvio, tudo que eu digo aí é da boca para fora, expressando minha frustração com um amigo de forma irônica, inclusive em tom de deboche sobre os boatos que eles espalham a meu respeito.
Afinal, eu tenho um histórico de excelentes e longas relações ao longo da minha vida, inclusive com ex-namorados e meu próprio ex-marido, que atualmente é meu sócio. Logo, não faria nenhum sentido acharem que eu sou o problema, quando na verdade o MBL há dez anos vem sendo o denominador comum de inúmeros escândalos. Um dos eventos mais comuns é deixar seus ex-membros com muito ódio e ressentimento. Eu apenas os enfrentei com mais afinco.
Se a militância do MBL levar esses áudios a sério, então por coerência deverão levar a sério também quando o Renan disse que estupraria uma mulher em uma reunião com a militância, os áudios do Arthur, do Bisotto ao chamar Viny Junior de macaco, do Guto quando demonstrou interesse em abortar a sua filha, do Orlando ao afirmar que iria estuprar a ex-integrante, ou do Renan ao falar que gostaria de ver Flávio morto.
O fato é que, se eu realmente tivesse um plano de atentar contra a vida de alguém, ou falasse seriamente qualquer uma das bobagens ditas ali, a última coisa que faria sentido fazer é sair falando isso por aí para me comprometer. Inclusive, o próprio Renan Santos já disse em live que queria a morte de Flávio Bolsonaro. Se o que ele disse em público não pode ser encarado literalmente, o que eu disse em privado também não pode.
Sobre o que eu penso sobre Renan e sua personalidade megalomaníaca e politicamente perigosa: eu não retiro absolutamente nada do que eu disse. E a minha opinião mais sólida sobre ele foi se construindo ao longo do tempo — e a muitas evidências sobre quem ele era de fato tive acesso somente após a minha saída.
Eu penso que ele é sim uma ameaça para as minorias (fundamental que leiam a matéria do Metrópoles sobre o Phallic Man, em que ele é representado internacionalmente por um neonazista que literalmente idolatra Hitler) e, ao longo de todo o meu tempo no MBL, assumi um compromisso de desradicalização pelo convite de um integrante antigo: Ricardo Almeida.
Durante minha permanência lá dentro, eu li e ouvi coisas muitíssimo piores dos integrantes, sem qualquer grama de visceralidade ou irritação como foi o meu caso. Eles falavam seriamente e com naturalidade sobre exterminar grupos sociais, estados inteiros e outros comentários racistas e também misóginos.
Devido às minhas posições progressistas, fui humilhada e gradativamente excluída e afastada da programação. Uma das poucas provas que possuo: Orlando Lima, homem cristão, casado, conservador e reacionário, diz que vai estuprar a minha amiga caso ele não consiga se relacionar com ela. Ele fala em tom cômico, mas me posiciono contra a atitude dele.
Eu mantive meus valores anteriores muito sólidos nesse período, e acredito que eles se desiludiram com esse fato, pois tinham a crença de que eu poderia mudar, da mesma forma que eu pensei que poderia mudá-los.
Ao contrário do que os integrantes me acusaram, eu não era uma agente dupla vazando conversas. A prova é muito simples: eu nunca tirei print de nada por querer demonstrar minha lealdade ao movimento, a qual com o tempo percebi ser totalmente unilateral.
Como eu não participava dos rituais discriminatórios ou me posicionava contra, me tornei motivo de piadas degradantes e fui excluída de tudo o que ocorria lá dentro. Afinal, eles tinham a intuição correta de que eu JAMAIS compactuaria com aqueles discursos.
Acrescento que, depois que saí, descobri que Renan teve outros dois supostos casos de comportamentos sexualmente repugnantes e agressivos contra mulheres (prints em anexo). Todavia, enquanto eu estava lá dentro, ele agia com muita precaução, se calando diante de inúmeras conversas que poderiam comprometê-lo. Logo, eu não sabia do nível de misoginia prática dele, além do discurso.
Acrescento que parte do meu interesse em me aproximar do Renan e de outros integrantes da alta cúpula era para, através da confiança de uma amizade honesta, poder convencê-los de que as ideias deles eram absurdas e por vezes muito discriminatórias.
Com o tempo, percebi que essa orientação fascista do movimento (palavra que jamais usei com leviandade, como os outros adjetivos citados ao longo do texto) era muito mais profunda e estrutural do que eu pensava. Não havia conserto ou salvação para eles.





