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Ramiro Brites

Entenda o esquema de “empresas-espelho” que usa padarias de SP para fraudes

Duas padarias, na região central e na zona sul de São Paulo, são comandadas por grupo criminoso acusado de ter relações com membros do PCC

Lucas Takahashi/Especial para o Metrópoles
A padaria Iracema, na região central de São Paulo.

Acusado de lavar dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC), o grupo criminoso liderado por Mohamad Murad, o Primo, e Roberto Leme, o Beto Louco, usa um esquema classificado por investigadores como “empresas-espelho” para facilitar fraudes tributárias.

A engenharia funciona assim: abre-se um negócio em determinado endereço. Meses depois, abre-se outra no mesmo endereço, com capital social maior. Aparentemente, o estabelecimento funciona de forma regular, mas o cliente nunca sabe para qual das empresas está pagando. A fraude fiscal é concentrada em um dos negócios e, quando a Receita acende alerta para os débitos tributários de um CNPJ, todo o faturamento migra para a outra empresa de capital maior.

Isso ocorre, por exemplo, em padarias de São Paulo. A padaria Iracema, na Avenida Angélica, região central da capital paulista, foi comprada pelo grupo, primeiro em nome de uma laranja que mora em Sergipe. Depois, em passou para o nome de Tharek Majide Bannout, uma espécie de “agregado” da família de um dos líderes do grupo crimonoso. A irmã de Tharek é casada com um advogado que vem a ser primo de Mohamad Mourad.

A reportagem visitou a padaria em 21 de setembro e comprou cafezinhos no débito e no crédito: em cada nota solicitada, apareceu um CNPJ diferente. Um mês depois, o Metrópoles retornou à padaria e um terceiro CNPJ surgiu.

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As defesas de Primo e Beto Louco negam qualquer elo com o PCC (veja notas na íntegra abaixo). O advogado de Tharek não quis se manifestar. A padaria também foi procurada, mas não respondeu. O espaço segue aberto para manifestação.

Do canavial à Faria Lima

Essa e outras histórias estão no especial “Do Canavial à Faria Lima”. O Metrópoles publica nesta quinta-feira (29/07) uma série de reportagens sobre as consequências da operação Carbono Oculto, considerada a maior ação de combate à infiltração do crime organizado na cadeia de combustíveis do país.

Deflagrada em agosto de 2025 pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MPSP, a operação expôs um grupo criminoso que controlava canaviais, usinas, distribuidoras de combustíveis e postos de gasolina – eram centenas de empresas enredadas em uma teia complexa de fraudes, sonegação de impostos e ocultação de patrimônio. A rede se estendia dos canaviais do interior paulista às fintechs da Faria Lima.

Desvio bilionário

A estimativa dos investigadores é que o império comandado por Primo e Beto Louco tenha movimentado R$ 54 bilhões entre 2019 e 2024, sendo que ao menos R$ 8,4 bilhões foram desviados em fraudes fiscais e lavagem de dinheiro. Em muitos pontos, os negócios da dupla se cruzam com os de personagens acusados de pertencer ao PCC. As defesas, entretanto, negam que haja essa ligação.

A apuração do Metrópoles mergulhou em milhares de páginas de processos judiciais e inquéritos do Ministério Público de São Paulo (MPSP) e da Polícia Federal (PF) para entender os impactos da rede criminosa. Também entrevistou usineiros, agricultores, empresários do setor de combustíveis e autoridades públicas para detalhar os prejuízos causados à sociedade pelo crime organizado.

Pouco mais de um ano depois da Carbono Oculto, Primo e Beto Louco seguem foragidos, trabalhadores rurais tentam receber indenizações, alguns postos ligados ao grupo seguem funcionando sem autorização. O que mudou foi a expertise gerada na Carbono Oculto aos investigadores, que permitiu desvelar outras fraudes financeiras. Além disso, a arrecadação dos estados com combustíveis cresceu em todo o país, mostrando que a operação conseguiu, ao menos em parte, coibir a criminalidade no setor.

A defesa de Lucas Simões não quis se manifestar. O espaço segue aberto para Lúcia Simões.

O que diz a defesa de Primo

Em nota, o advogado Conrado de Almeida Prado afirma que Mohamed Murad, o Primo, é alvo de “narrativas especulativas” e diz que irá provar a inocência do cliente.

“A defesa de Mohamed Mourad esclarece que as recentes veiculações na imprensa sobre suas atividades empresariais contêm narrativas especulativas que não encontram respaldo nos autos do processo.

​A reportagem publicada pelo portal Metrópoles extrapola o próprio objeto da acusação formalizada pelo Ministério Público. Cabe destacar que a denúncia recém-oferecida sequer imputa ao investigado qualquer vínculo com organizações ou facções criminosas — tema sobre o qual a referida matéria insiste em construir ilações infundadas.

​A defesa repudia tentativas de criar um julgamento público antecipado e reforça que todas as atividades empresariais de Mohamed Mourad foram exercidas com estrita regularidade e respaldo documental. A legalidade de suas condutas e sua inocência serão devidamente comprovadas no âmbito do processo judicial”.

O que diz a defesa de Beto Louco

Em nota, o advogado Celso Vilardi, que defende Roberto Leme, o “Beto Louco”, afirma que não compactua com a publicação de informações parciais e incompletas e nega vínculo do cliente com o PCC.

“A defesa do empresário Roberto Leme esclarece que ainda não teve acesso à íntegra das investigações e responderá a todas as acusações no momento processual oportuno. 

E rejeita a disseminação de informações parciais e incompletas, uma prática que ataca a reputação dos empresários e prejudica sua defesa antes de serem apresentadas as contestações. 

Por exemplo, é um erro grave tentar estabelecer alguma relação entre o empresário e a facção criminosa PCC. Não há nenhuma evidência que confirme essa falsa afirmação em nenhuma das investigações em curso”.