Mãe de procurado pela Interpol assume posto investigado após Carbono Oculto
Foragido após operação da Polícia Civil do DF, Lucas Simões é procurado pela Interpol e sua mãe controla posto que estava na mira do MPSP

Dez meses depois da deflagração da Carbono Oculto, um dos postos alvo da operação trocou de dono. O estabelecimento no bairro do Ipiranga, na zona sul da capital paulista, saiu das mãos dos proprietários que estavam na mira do Ministério Público de São Paulo (MPSP) para uma família que está no radar da Interpol e da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF).
O posto foi registrado em nome de Lúcia Simões, mãe de Lucas Simões, apontado pela PCDF como líder de um grupo de golpes em falsos leilões de carros, que está foragido, provavelmente, em Miami, nos Estados Unidos. A operação deflagrada em 2023 descobriu que os criminosos tinham mais de 500 sites para aplicar os golpes, além de empresas fantasmas de construção civil para lavar dinheiro.
“O principal envolvido, Lucas Simões, conseguiu fugir para os Estados Unidos na véspera da deflagração da operação”, disse o delegado da PCDF Erick Sallum. “Durante as investigações, nós levantamos que Lucas Simões possuía propriedade de diversas conveniências de postos de gasolina, em São Paulo”, acrescentou.
A informação chamou a atenção de Sallum porque postos de combustíveis e lojas de conveniência são estabelecimentos conhecidos para ocultar valores de outros crimes e, segundo ele, durante a Operação Carbono Oculto, Lúcia Simões, mãe de Lucas, dona de vários postos, também teria aparecido como uma das suspeitas.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles“Do canavial à Faria Lima”
Essa e outras histórias estão no especial “Do Canavial à Faria Lima”. O Metrópoles publica nesta quinta-feira (29/07) uma série de reportagens sobre as consequências da operação Carbono Oculto, considerada a maior ação de combate à infiltração do crime organizado na cadeia de combustíveis do país.
Deflagrada em agosto de 2025 pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MPSP, a operação expôs um grupo criminoso que controlava canaviais, usinas, distribuidoras de combustíveis e postos de gasolina – eram centenas de empresas enredadas em uma teia complexa de fraudes, sonegação de impostos e ocultação de patrimônio. A rede se estendia dos canaviais do interior paulista às fintechs da Faria Lima.
Desvio bilionário
A estimativa dos investigadores é que o império comandado por Primo e Beto Louco tenha movimentado R$ 54 bilhões entre 2019 e 2024, sendo que ao menos R$ 8,4 bilhões foram desviados em fraudes fiscais e lavagem de dinheiro. Em muitos pontos, os negócios da dupla se cruzam com os de personagens acusados de pertencer ao Primeiro Comando da Capital (PCC). As defesas, entretanto, negam que haja essa ligação.
A apuração do Metrópoles mergulhou em milhares de páginas de processos judiciais e inquéritos do MPSP e da Polícia Federal (PF) para entender os impactos da rede criminosa. Também entrevistou usineiros, agricultores, empresários do setor de combustíveis e autoridades públicas para detalhar os prejuízos causados à sociedade pelo crime organizado.
Pouco mais de um ano depois da Carbono Oculto, Primo e Beto Louco seguem foragidos, trabalhadores rurais tentam receber indenizações, alguns postos ligados ao grupo seguem funcionando sem autorização. O que mudou foi a expertise gerada na Carbono Oculto aos investigadores, que permitiu desvelar outras fraudes financeiras. Além disso, a arrecadação dos estados com combustíveis cresceu em todo o país, mostrando que a operação conseguiu, ao menos em parte, coibir a criminalidade no setor.
A defesa de Lucas Simões não quis se manifestar. O espaço segue aberto para Lúcia Simões.
O que diz a defesa de Primo
Em nota, o advogado Conrado de Almeida Prado afirma que Mohamed Murad, o Primo, é alvo de “narrativas especulativas” e diz que irá provar a inocência do cliente.
“A defesa de Mohamed Mourad esclarece que as recentes veiculações na imprensa sobre suas atividades empresariais contêm narrativas especulativas que não encontram respaldo nos autos do processo.
A reportagem publicada pelo portal Metrópoles extrapola o próprio objeto da acusação formalizada pelo Ministério Público. Cabe destacar que a denúncia recém-oferecida sequer imputa ao investigado qualquer vínculo com organizações ou facções criminosas — tema sobre o qual a referida matéria insiste em construir ilações infundadas.
A defesa repudia tentativas de criar um julgamento público antecipado e reforça que todas as atividades empresariais de Mohamed Mourad foram exercidas com estrita regularidade e respaldo documental. A legalidade de suas condutas e sua inocência serão devidamente comprovadas no âmbito do processo judicial”.
O que diz a defesa de Beto Louco
Em nota, o advogado Celso Vilardi, que defende Roberto Leme, o “Beto Louco”, afirma que não compactua com a publicação de informações parciais e incompletas e nega vínculo do cliente com o PCC.
“A defesa do empresário Roberto Leme esclarece que ainda não teve acesso à íntegra das investigações e responderá a todas as acusações no momento processual oportuno.
E rejeita a disseminação de informações parciais e incompletas, uma prática que ataca a reputação dos empresários e prejudica sua defesa antes de serem apresentadas as contestações.
Por exemplo, é um erro grave tentar estabelecer alguma relação entre o empresário e a facção criminosa PCC. Não há nenhuma evidência que confirme essa falsa afirmação em nenhuma das investigações em curso”.


