“Hub” de suspeitos de lavagem para o PCC tem restaurante do Guia Michelin
Com restaurante de luxo no topo, edifício sediou alvos da Operação Carbono Oculto, que apurou elos do PCC com o setor de combustíveis

O edifício K1, em Santana, na Zona Norte de São Paulo, é apontado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo (MPSP), como o “hub” do grupo criminoso liderado por Mohamad Hussein Mourad, o Primo, e Roberto Leme, Beto Louco, acusados de lavagem de dinheiro, fraude fiscal e vínculo com o Primeiro Comando da Capital (PCC). As defesas negam (leia as notas na íntegra abaixo).
No 28º andar do prédio, fica o restaurante Lassù, recomendado no Guia Michelin. O mais importante catálogo da alta gastronomia referenda o espaço como uma das paisagens mais deslumbrantes da capital paulista.
“Um ambiente refinado e elegante, iluminação tênue e um charmoso bar na lateral do salão, a cozinha apresenta influências italianas e ingredientes regionais brasileiros”, descreve o guia.
O ambiente charmoso era usado pela dupla de denunciados – que está foragida – para impressionar novos clientes e eventuais sócios. No edifício, o grupo ocupava salas nos andares 6º, 8º, 18º e 22º, por onde circulavam com os potenciais parceiros como um sinal de ostentação.
K1 sediou empresas de Primo e Beto Louco
Empresas como a Copape, Aster, GGX Global Participações e G8.Log Transportes ficavam no prédio comercial – além de fundos de investimento e empresas de fachada usadas por Primo e Beto Louco para blindar o patrimônio e lavar dinheiro.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesEssa e outras histórias estão no especial “Do Canavial à Faria Lima”. O Metrópoles inicia nesta quarta-feira (28/07) uma série de reportagens sobre as consequências da operação Carbono Oculto, considerada a maior ação de combate à infiltração do crime organizado na cadeia de combustíveis do país.
Deflagrada em agosto de 2025 pelo MPSP, a operação expôs um grupo criminoso que controlava canaviais, usinas, distribuidoras de combustíveis e postos de gasolina – eram centenas de empresas enredadas em uma teia complexa de fraudes, sonegação de impostos e ocultação de patrimônio. A rede se estendia dos canaviais do interior paulista às fintechs da Faria Lima.
A estimativa dos investigadores é que o império comandado por Primo e Beto Louco tenha movimentado R$ 54 bilhões entre 2019 e 2024, sendo que ao menos R$ 8,4 bilhões foram desviados em fraudes fiscais e lavagem de dinheiro. Em muitos pontos, os negócios da dupla se cruzam com os de personagens acusados de pertencer ao PCC. As defesas, entretanto, negam que haja essa ligação.
A apuração do Metrópoles mergulhou em milhares de páginas de processos judiciais e inquéritos do MPSP e da Polícia Federal (PF) para entender os impactos da rede criminosa. Também entrevistou usineiros, agricultores, empresários do setor de combustíveis e autoridades públicas para detalhar os prejuízos causados à sociedade pelo crime organizado.
Pouco mais de um ano depois da Carbono Oculto, Primo e Beto Louco seguem foragidos, trabalhadores rurais tentam receber indenizações, alguns postos ligados ao grupo seguem funcionando sem autorização. O que mudou foi a expertise gerada na Carbono Oculto aos investigadores, que permitiu desvelar outras fraudes financeiras. Além disso, a arrecadação dos estados com combustíveis cresceu em todo o país, mostrando que a operação conseguiu, ao menos em parte, coibir a criminalidade no setor.
O restaurante e a administração do edifício foram contatados, mas não responderam até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto para manifestações.
O que diz a defesa de Primo
Em nota, o advogado Conrado de Almeida Prado afirma que Mohamed Murad, o Primo, é alvo de “narrativas especulativas” e diz que irá provar a inocência do cliente.
“A defesa de Mohamed Mourad esclarece que as recentes veiculações na imprensa sobre suas atividades empresariais contêm narrativas especulativas que não encontram respaldo nos autos do processo.
A reportagem publicada pelo portal Metrópoles extrapola o próprio objeto da acusação formalizada pelo Ministério Público. Cabe destacar que a denúncia recém-oferecida sequer imputa ao investigado qualquer vínculo com organizações ou facções criminosas — tema sobre o qual a referida matéria insiste em construir ilações infundadas.
A defesa repudia tentativas de criar um julgamento público antecipado e reforça que todas as atividades empresariais de Mohamed Mourad foram exercidas com estrita regularidade e respaldo documental. A legalidade de suas condutas e sua inocência serão devidamente comprovadas no âmbito do processo judicial”.
O que diz a defesa de Beto Louco
Em nota, o advogado Celso Vilardi, que defende Roberto Leme, o “Beto Louco”, afirma que não compactua com a publicação de informações parciais e incompletas e nega vínculo do cliente com o PCC.
“A defesa do empresário Roberto Leme esclarece que ainda não teve acesso à íntegra das investigações e responderá a todas as acusações no momento processual oportuno.
E rejeita a disseminação de informações parciais e incompletas, uma prática que ataca a reputação dos empresários e prejudica sua defesa antes de serem apresentadas as contestações.
Por exemplo, é um erro grave tentar estabelecer alguma relação entre o empresário e a facção criminosa PCC. Não há nenhuma evidência que confirme essa falsa afirmação em nenhuma das investigações em curso”.


