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Ramiro Brites

Bolsonarismo engoliu bancada evangélica no Congresso, diz historiador

O pesquisador Guilherme Galvão Lopes identificou queda na representação evangélica do Congresso e bancada caminhando para fragmentação

11/10/2026 04:30
DANILO M. YOSHIOKA/ESPECIAL METRÓPOLES @danilomartinsyoshioka
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A representação evangélica no Congresso Nacional reduziu consideravelmente nos últimos 8 anos. A constatação é do historiador Guilherme Galvão Lopes, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que investiga os políticos evangélicos sob a perspectiva histórica. Na análise dele, a bancada evangélica está em um processo de divisão. Um desses grupos fragmentados deve ser liderado pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, senadora eleita pelo PL do Distrito Federal.

Galvão Lopes produz uma base de dados minuciosa sobre o número de deputados e senadores das igrejas evangélicas desde 1983. O levantamento não conta apenas os políticos que seguem a religião. Também não se trata de mera contagem de membros da Frente Parlamentar Evangélica, que como qualquer outra Frente Parlamentar, pode ser frequentada por políticos de qualquer credo. O historiador contabiliza os parlamentares que fazem das pautas evangélicas uma bandeira política.

A pesquisa de Galvão Lopes mostra como os políticos evangélicos passaram, ao longo do século 21, da direita para a esquerda. O ponto de virada, diz o historiador, foi o sentimento de inconformidade eclodido em 2013, com denúncias sobre as obras da Copa do Mundo e o aumento da tarifa de transporte público, que culminou numa reeleição apertada de Dilma Rousseff (PT), em 2014, sucedida pelo impeachment dela em 2016.

O governo de Michel Temer (MDB), que sucedeu as gestões de Dilma Rousseff, já era bastante ancorado pela bancada evangélica conservadora. O grupo chegou ao ápice nas eleições de 2018, com a eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e desde então, começou a diminuir.

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Uma das hipóteses, apontada por Galvão Lopes, é que o bolsonarismo e o movimento parlamentar evangélico adotaram as mesmas pautas. De forma que os políticos organizados por fiéis foi “engolido” pelo grupo do capitaneado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

“Acabou que o bolsonarismo engole essas pautas e diante da escolha em relação a uma candidatura que tem maior viabilidade em pautar, em impor certas agendas à sociedade e um discurso que se resume ao discurso apenas dentro de um espaço muito restrito de uma igreja vocal, de uma igreja evangélica, o eleitor evangélico que prefere votar na primeira candidatura”, argumenta o historiador.

A adesão também ocorre, diz Galvão Lopes, pela incapacidade de diálogo da esquerda com os evangélicos, de forma que os ultraconservadores entendem, com mais agilidade, os anseios desse grupo.

Confira os principais trechos da entrevista

Arquivo Pessoal
O pesquisador Guilherme Galvão Lopes, do do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) vinculado à Fundação Getúlio Vargas (FGV).

O levantamento mostra que a bancada evangélica atingiu o ápice nas eleições de 2018 e teve uma queda relevante em 2022. Isso se repetiu neste ano?

Em 2022, havia apontado que a gente começaria a experimentar um fenômeno de diminuição da bancada evangélica no Congresso Nacional. Em 2018, tivemos o ápice dessa representação, cerca de 120 parlamentares eleitos entre deputados e senadores. Na eleição seguinte, esse quantitativo caiu bastante, isso se repetiu nessa eleição.

De forma preliminar em relação aos reeleitos, nós tínhamos um quantitativo de 96 evangélicos eleitos em 2022, nós temos agora apenas 51 parlamentares reeleitos. Então, saímos do patamar de cerca de 100 deputados e caímos para o patamar de 50 deputados reeleitos.

Existem aqueles, claro, que fizeram parte da Câmara anteriormente, que podem ter retornado, e também os novos parlamentares, e eu ainda não atingi isso de forma mais ampla. Mas já pude constatar que houve um decréscimo muito forte da representação evangélica no Congresso Nacional, principalmente dos setores que não estavam totalmente vinculados ao bolsonarismo.

E cabe ressaltar que dentre esses que não estavam totalmente vinculados, mas eram alinhados ao bolsonarismo, a Igreja Universal do Reino de Deus foi a denominação evangélica que teve um decréscimo muito importante. Posso destacar também a Igreja Internacional da Graça de Deus, do missionário R. R. Soares, em que nenhum de seus filhos que foram candidatos nessa eleição conseguiram renovar os mandatos. Esses dois grupos dominavam essa representação desde 1986, e hoje estão muito enfraquecidos, e eu também consigo notar que há uma fragmentação.

A que o senhor atribui essa fragmentação?

Tenho algumas hipóteses, acredito que a principal delas seja que o bolsonarismo acabou tomando muitas pautas que eram históricas aos parlamentares evangélicos, tanto do campo tradicional quanto do campo neopentecostal.

O segundo aspecto que eu levanto é a crise de confiança em relação às instituições, que ela não atinge apenas o STF, Congresso Nacional, Presidência e governadores. Isso também atinge os evangélicos. Tivemos algumas pesquisas recentes falando que é cada vez maior o número de evangélicos que não aderem à orientação eleitoral de seus pastores, que votam de forma independente. O bolsonarismo tem muito a ver com isso.

Um fiel de uma igreja evangélica numa periferia de São Paulo ou numa região do subúrbio do Rio de Janeiro, ele olha seu pastor numa igreja pequena, orientando o voto muitas vezes num candidato sem viabilidade eleitoral. E, ao mesmo tempo, ele olha para uma candidatura maior, que defende pautas com as quais ele se identifica. Qual vai ser a escolha desse fiel evangélico diante da urna? Possivelmente ele vai escolher justamente essa candidatura com a qual ele se identifica e que vai poder, de certa forma, pautar o conjunto da sociedade.

E eu acredito que tem uma relação com o crescimento dos chamados desigrejados. Também é crescente, os censos do IBGE têm apontado isso, o número de brasileiros sem religião. Isso também se reflete no eleitorado evangélico. Então, eu apontaria esses três fatores: o bolsonarismo com uma maior viabilidade política e eleitoral; essa rebelião, digamos assim, em relação à orientação do voto. E isso é potencializado tanto pelo número de desigrejados hoje em dia, quanto pela crise institucional pela qual o país passa, que também atinge as lideranças evangélicas, mesmo que em graus diferentes.

Ao incorporar as pautas conservadoras, o bolsonarismo acaba enfraquecendo a representatividade política dos evangélicos?

Sim. Os parlamentares evangélicos, historicamente, estavam no Centrão: PP, PSD, MDB e outras legendas. No resultado do último domingo (4/10), nós vimos que o bolsonarismo avançou sobre esses partidos. Isso enfraqueceu a posição dos evangélicos.

Por exemplo, em Minas Gerais. De nove deputados evangélicos caiu para sete. Desses sete, quatro são do PL, sendo que um deles é o próprio Nikolas Ferreira.  Três deputados que conseguiram renovar o mandato, identificados com a pauta evangélica, um deles, que é uma liderança importante de vários mandatos: o Lincoln Portela, só conseguiu renovar o seu mandato por conta da votação do Nikolas. Se o Nicolas não batesse o recorde de votos – alcançou cerca de 27% dos votos, igualou inclusive a votação histórica de Leonel Brizola em 1962, que era até então a maior votação proporcional do Brasil –,  essas lideranças não teriam renovado seu mandato.

Alguns líderes evangélicos tiveram um certo distanciamento, um apoio ao bolsonarismo, como é o caso da Igreja Universal do Reino de Deus. Inclusive uma maior abertura para líderes políticos que não tinham uma relação histórica com a Igreja. Talvez o maior exemplo seja o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP).

No início do século, a gente vê a bancada evangélica mais atrelada à esquerda. Por que isso mudou?

A bancada evangélica, enquanto uma frente parlamentar organizada institucionalmente, começa no governo Lula 1, em 2003. E foi muito importante na governabilidade, nesse início das gestões do PT.

É até interessante que houve a construção de um bloco de esquerda chamado Bloquinho, ali por volta de 2008, se eu não me engano, 2010. E o PRB fazia parte do bloco de esquerda, que é o atual Republicanos. O partido do Tarcísio foi do bloco de esquerda no Congresso Nacional e o [ex-prefeito do Rio Marcelo] Crivella foi um dos líderes disso.

Quando vem o governo Dilma Rousseff, temos uma série de crises institucionais, crescimento da extrema direita a nível internacional, ascensão das mídias sociais, até que nós chegamos em 2013. O conservadorismo, que até então era adotado de uma forma muito tímida, por pouquíssimos deputados no Congresso Nacional, que adotavam a bandeira conservadora e faziam oposição ao governo. Em 2013, foi possível ver que havia na sociedade brasileira um sentimento de inconformidade em relação ao status quo. Tivemos muitas denúncias em relação às obras da Copa, inclusive algumas delas não acabaram. E o conservadorismo cresce nesse momento.

Nas eleições de 2014, aí sim, há um crescimento expressivo da bancada evangélica, sucessivos crescimentos, na verdade, de 2010 em diante, com ápice em 2018. E aí vem esse deslocamento da base porque os conservadores estavam escondidos e isolados. A eleição de Dilma se deu por uma diferença muito pequena e, depois, o impeachment em 2016. Todas aquelas pautas neoliberais que o governo Temer colocou em prática, na verdade, muito com o apoio da bancada evangélica. E isso chega ao ápice em 2018, com a eleição de Jair Bolsonaro.

E por que a partir daí a representação evangélica no Congresso começa a cair?

Os evangélicos adotaram uma bandeira que foi também levantada pelo bolsonarismo, só que o bolsonarismo muito maior e com muito mais extremismo em relação a essas agendas. Acabou que o bolsonarismo engole essas pautas. […] Essa adesão não vai ser à toa porque eu também identifico que houve um vácuo nessa comunicação. Muitas agendas importantes que a esquerda possuía acabaram se perdendo ao longo do tempo porque justamente não havia uma interlocução.

A extrema-direita conseguiu colocar na esquerda, como um todo, essa pecha de inimiga da família, de defensora da ideologia de gênero, defensora do aborto, da descriminalização das drogas, da defesa de bandido em relação à pauta de direitos humanos e tudo mais. O segmento ultraconservador no Brasil soube identificar antes as demandas dos anseios dos evangélicos e soube responder de uma forma muito mais rápida, soube se adequar, formatar o seu discurso e a sua imagem para se tornar mais palatável e mais viável e o resultado nós vimos ao longo das últimas eleições.

Bolsonarismo engoliu bancada evangélica no Congresso, diz historiador