André Janones: “Eleição só será virada nas redes sociais”.
Sem pedir licença para a campanha, o deputado André Janones (Rede-MG) lançou o "Exército do Lula", canal no WhatsApp com milhões de pessoas
07/10/2026 17:32, atualizado 07/10/2026 18:01

Sem pedir autorização da campanha petista, o deputado André Janones (Rede-MG) impulsionou uma lista de transmissão no WhatsApp para fazer campanha para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra Flávio Bolsonaro (PL) nas redes sociais.
O canal, chamado de “Exército do Lula”, tinha 55 mil pessoas na manhã de segunda-feira (5/10) pós-eleições e chegou a 1,7 milhão de membros 48h depois. Janones explicou à coluna a estratégia digital que ele desenhou para o segundo turno (veja entrevista abaixo).
Para Janones, o resultado adverso para Lula no primeiro turno é resultado de falta de coordenação na militância digital e, as redes sociais, são o único caminho para virar as eleições. O deputado mineiro culpa a “arrogância da esquerda” e desconexão do povo pelo fracasso nas urnas.
Confira a entrevista
O “Exército do Lula” foi uma iniciativa sua, ou teve alguma ajuda?
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesA iniciativa é 100% minha. Infelizmente, a campanha do presidente não sabe dialogar com as redes. É uma campanha analógica, uma campanha dos anos 80.
O pessoal entende que rede social é só um lugar para distribuir conteúdo, eles não entendem que tem uma forma própria de você produzir o conteúdo para lá e quem não faz campanha nas redes não ganha.
O Lula é o melhor candidato, tem o melhor currículo, tem mais propostas para entregar, ele põe mais gente na rua, não precisa ser um gênio para entender que a gente está perdendo nas redes. É o único lugar que a gente perde, perde feio.
E não adianta ficar dando murro em ponto de faca, a campanha não muda, não sai do analógico, não fala a língua do povo, é uma linguagem acadêmica, uma linguagem elitizada que não conecta mais com a população. Então eu decidi por conta própria criar um grupo, na verdade eu criei o grupo no primeiro turno, só que no primeiro turno não estava com essa ênfase, fiz ali o que desse.
Qual o principal problema da campanha petista nas redes sociais?
Dentre várias falhas, uma das principais para mim é não ter um comando unificado. Então, cada um está falando uma coisa, um está se defendendo disso, o outro está se defendendo daquilo. Aí o lado de lá solta uma fake news, uns defendem, uns rebatem, outros entendem que não tem que rebater, falta um comando unificado.
Eu vou ser a pessoa que tomou a iniciativa para criar esse canal, para dar o comando, emitir o comando único ali. Claro, o comando será único, mas eu não serei o único a tomar esse comando, de forma unitária, como um ditador.
Quando eu não imaginava essa proporção, a minha ideia inicial era que fosse eu mesmo. Como tomou uma proporção muito grande, a minha ideia agora é montar uma espécie de um conselho, um grupo aí de 10 ou 20 pessoas com expertise em redes sociais.
Desde as eleições de 2018, o PT tem perdido nas redes sociais para o bolsonarismo. Por que, oito anos depois, a campanha lulista não melhorou no ambiente digital?
Essa resposta é muito fácil para mim, eu tenho ela na ponta da língua, mas antes de responder eu só vou fazer uma correção: você falou que a esquerda perde nas redes para a extrema direita. A palavra perder, ela não expressa o que é. A esquerda não perde para a extrema direita, a esquerda, é humilhada, ela é massacrada, ela é dilacerada.
O motivo disso é o elitismo, é a arrogância intelectual, é o preconceito, é o nojo a tudo que é povo, tudo que é popular, tudo que é simples. Tem um exemplo que eu gosto de dar, porque esse exemplo. Para mim, ele é simbólico, eu sempre tenho usado ele: lançamento da candidatura do presidente Lula.
O presidente Lula desce num helicóptero no estádio da Vila Euclides. Primeiro, que ninguém sabe que porra é Vila Euclides, ninguém sabe nem o que é isso. Eles contam a história como se todo mundo que está aqui hoje estivesse nos anos 80. Nos vídeos, chamando falava “neste domingo na Vila Euclides”, ninguém sabe o que é Vila Euclides.
Eles não conseguem sair deles, deixar de olhar para o umbigo e olhar com o olhar do povo. Então, aí o Lula desce de um helicóptero. O cara que veio do Nordeste, passando fome num pau de arara, eles acham que ele vai conectar com a massa descendo de um helicóptero, que isso é bacana.
Por que o PT não se conecta mais com o povo?
O elitismo, a arrogância intelectual não deixa. Quem dita as regras hoje na esquerda no Brasil, se acha superior, se acha acadêmico, se acha intelectual e fica falando para essas bolinhas.
O MPB, por exemplo, tem um papel importantíssimo nessa luta, eu não estou desprezando eles não, mas tem que dialogar com o sertanejo, que é popular também, tem que ir lá na ponta.
Eu vejo uns comentários assim: “quando eu vejo que Chico Buarque apoia Lula e Ana Castela apoia Flávio, não é possível que eu esteja errado”. A questão é que não é você que está errado, é a massa, olha quantas pessoas dá no show do Chico Buarque e olha quantas dá no show da Ana Castela.
E quem ganha numa democracia é a maioria, a questão não é qualitativa, é quantitativa. Então é isso, essa arrogância dessa parte da esquerda é que faz um cara, um presidente da envergadura de Luiz Inácio Lula da Silva ter que disputar um segundo turno com um cara do nível do Flávio Bolsonaro, de igual para igual com uma eleição equilibrada. Mesmo que o cara ganhe a eleição, é vergonhoso ter que disputar com o Flávio.
Em 2022, a campanha do PT foi até você no segundo turno para pedir conselhos sobre como usar as redes. Eles já te procuraram esse ano?
Ainda não e eu não estou fazendo questão nenhuma também. O que eu quero é que o presidente Lula ganhe. E eu não quero que ele ganhe por ele, eu quero que ele ganhe pelo país, porque o Brasil precisa que ele ganhe. Então ele não precisa gostar, ele não precisa concordar, porque eu não estou fazendo por ele. Se eu estivesse fazendo isso para ele, eu precisaria da concordância dele. Como eu não estou fazendo isso para ele, eu estou fazendo isso para o país, porque eu sei que ele é o melhor para o país. Então, não precisa.
Até tive uma reunião com algumas pessoas da campanha, alguns deputados, a Gleisi Hoffmann, muita gente está propondo de ajudar, mas eu não quero perder a independência, eu não quero entrar em um coletivo aonde eu vou precisar colocar nesse grupo um vídeo igual eles postam lá na página do Lula, que parece uma política dos anos 80 – vídeo no formato horizontal.
O senhor disse, nas eleições passadas, que iria jogar a “um milímetro do pântano das fake news”. Podemos esperar a mesma coisa neste ano?
Já é uma luta desigual enfrentar o meu adversário, ele podendo bater abaixo da linha da cintura e eu podendo bater só na linha da cintura. Agora, ser santo, ser extremamente ético? Eu não vou ser para ganhar uma eleição não.
Eu não vou cometer crimes, eu não vou divulgar fake news. Agora, jogar situações que geram interpretações dúbias, se preciso for, eu farei, respeitando a lei. Mas, eu não serei o pai da ética nesse segundo turno.
A campanha também não consegue engajar as ruas como fazia nos anos 80. Para virar a eleição, Lula vai precisar de mais militância na rua também?
Tudo para mim é só comunicação nas redes sociais, tudo. Mesmo que indiretamente. Por exemplo: “você não acha que a questão do Banco Master prejudicou?” Sim, mas a gente não soube contar a história do Banco Master.
Você tem versões desse fato, você tem uma versão que o bolsonarismo conta e você tem uma versão que a gente conta, mas a nossa versão é contada por Chico Buarque, ela é contada por doutor de filosofia na USP, ela é contada por quem faz campanha fofinha na rede social. Lá na ponta ninguém chega para contar a nossa versão, só fica a versão deles.
Então, sim. Para mim, é 101% redes sociais. Se a gente virar essa eleição, ela só será virada nas redes sociais.





