Pouca vergonha

Conheça Bela do Céu, “genital influencer” e CEO de marca de sex toys

A carioca Isabela Cerqueira, de 27 anos, trocou o emprego em uma multinacional para fundar a Good Vibres, focada em bem-estar sexual

atualizado

metropoles.com

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Reprodução/Instagram
Bela do céu
1 de 1 Bela do céu - Foto: Reprodução/Instagram

“Beeela do céu”: essa era a introdução das de mensagens que Isabela Cerqueira recebia de clientes que compravam sex toys e davam feedbacks de gozadas incríveis, melhoras de relacionamento e autoestima, e até mesmo de primeiros orgasmos e squirts. Além de ser o motivo do apelido, é o que motiva a empresária de 27 anos, que largou a CLT para se tornar CEO da marca de bem-estar sexual Good Vibres.

Formada em Engenharia de Produção, até 2020 a jovem trabalhava em uma multinacional. Com a pandemia, decidiu tentar algo novo e próprio com um dos temas que sempre gostou de trocar entre amigas: sexualidade. A carioca começou com uma página para conversar com as seguidoras sobre o assunto. Hoje, é pós-graduanda em sexualidade e está à frente de uma empresa com oito funcionários e estoques de vibradores esgotados em tempo recorde.

Faturando bem mais do quando tinha a carteira assinada, Bela ainda tem o retorno que mais a motiva todos os dias: mudar a vida sexual de milhares de mulheres. No Instagram, o perfil da Good Vibres conta com 94,3 mil seguidores e “xxters” – apelido das clientes superengajadas e fiéis.

A Pouca Vergonha bateu um papo com a CEO sobre empreendedorismo, ser mulher no mercado erótico e os tabus que o segmento ainda enfrenta na sociedade. Confira:

Como começou seu interesse por sexualidade? Na sua criação você sempre teve abertura para falar sobre o assunto e o tratou com naturalidade?

Sempre fui muito curiosa, e não seria diferente com a minha sexualidade. Queria entender meu corpo, como ele funcionava, até porque ele é nossa casa até o fim da vida. Nessa explorações de autoconhecimento, encontrei o clitóris e suas 8 mil terminações nervosas. Lembro que tinha experimentado a sensação de um orgasmo bem nova, mas fui repreendida com o clássico “tira a mão daí, menina”, que tanto atrapalha o desenvolvimento da sexualidade saudável em mulheres. Minha família não era muito aberta e pouco falávamos sobre o assunto.

Entretanto, a curiosidade me levou a querer saber mais, gostar de falar sobre sexo. Via isso como algo natural, porém, quando trazia o tema em rodas de conversas com amigas, percebia que essa não era a realidade da maioria.

A partir de que momento você teve o estalo de abrir uma empresa de sex toys e surgiu a Good Vibres?

A dificuldade de falar sobre sexo com minhas amigas me mostrou a criticidade do tabu envolvendo o tema, reflexo de gerações de mulheres que não foram ensinadas a desfrutar do gozar, começando no âmbito sexualidade, mas refletindo também em diversos outros aspectos da vida. Por que não mudar esse cenário?

Como nasceu a empresa?

A Good Vibres nasceu da vontade de ajudar pessoas a vivenciarem sua sexualidade de forma mais saudável e feliz. Quando veio a pandemia, ainda trabalhava em uma multinacional, mas sempre tive vontade de empreender e deixar um legado maior para a sociedade. Felizmente nasci com privilégios, fruto do trabalho de gerações de mulheres da minha família, e me sentia no dever de compartilhar com outras.

O aspecto sexual era uma dor forte e podia ajudar. Em maio de 2020, criei o @xxt.pwr, página no Instagram para falar sobre sexualidade de forma aberta, ampliando a roda de conversa com minhas amigas para quem quisesse ouvir e falar sobre sexo sem tabus.

Como foi o crescimento da página? 

A página foi crescendo de forma bem mais acelerada do que imaginava. Expus diversas vezes minha paixão em sex toys, e como eles foram determinantes no meu processo de autoconhecimento sexual. Com isso, muitas pessoas passaram a pedir dicas de artigos eróticos com essa finalidade. Entretanto, tinha dificuldade de encontrar no mercado produtos de qualidade, acessíveis, que focassem no prazer próprio. Foi então que vi a oportunidade de tornar essa paixão em uma empresa. Em outubro do mesmo ano, saí do emprego CLT e abri, no quartinho dos fundos de casa, a Good Vibres.

De lá para cá, quais as principais mudanças e evoluções você observou na marca?

A Good Vibres tem dois anos. Desde então, consegui transformar a empresa que começou só comigo no quartinho dos fundos de casa em uma empresa com oito funcionários, que trabalham em um escritório super confortável e inspirador. Já nos mudamos duas vezes ao longo desse tempo para comportar o crescimento da Good Vibres e me emociono toda vez que penso nessa trajetória.

Em 2022, mais que dobramos o faturamento do ano anterior até o momento. Ganhei o reconhecimento do meu trabalho como empresária ao ser chamada para ser membro do Conselho Empresarial de Comércio Eletrônico e Varejo da Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ). Poder contribuir com a geração de empregos e me tornar Conselheira Executiva de uma instituição com 212 anos de tradição foi um marco na minha carreira como empreendedora.

Ajudamos milhares de pessoas a encararem sua sexualidade de forma mais saudável e positiva. Recebemos relatos diariamente de pessoas que atingiram o primeiro orgasmo com nossos produtos, outras agradecendo por trazer o assunto à tona com tanta leveza e coragem.

O feedback das clientes é bom? Isso ajuda a trazer motivação para continuar?

É ótimo! É o que mais nos motiva, saber que estamos fazendo diferença na vida de tantas mulheres. Nossas seguidoras costumam conversar com a gente como se fôssemos amigas, é uma troca e é muito agregador. Uma curiosidade: muitos relatos começavam com a frase “Bela do céu, …”, expressando a felicidade ao contar como tinha sido a experiência com o produto. Com o tempo, o termo Bela do Céu foi pegando entre as xxters e adotei o novo nome para tudo. Atualmente, escuto mais Bela do Céu do que Isabela Cerqueira, é muito louco, mas eu amo!

Hoje, quais meios você usa para se aprofundar no assunto e levar cada vez mais qualidade e embasamento para a sua marca?

Além de me informar o máximo possível nos veículos de informação, eu estudo o tema em uma pós-graduação, que em breve me fará sexóloga. Como sou engenheira de formação, senti a necessidade de complementar minha formação para atender melhor os clientes, que me veem como referência no assunto. Falar sobre sexualidade é algo que requer muita responsabilidade. Muitas vezes, as pessoas se abrem apenas com a gente, então, precisamos ter conteúdo e informação de qualidade para atendê-las da melhor forma.

Quais as maiores dificuldades que você enfrenta, tanto nos desafios de empreender quanto no fato de ser uma mulher e falar tão abertamente de algo que, infelizmente, ainda é tabu?

Ser mulher e decidir empreender com mercado erótico requer coragem e resiliência para encarar o mundo patriarcal que joga contra. Um dos maiores diferenciais da Good Vibres é a humanização, tendo à frente da marca uma pessoa que se expõe na internet para falar sobre sexualidade de forma aberta e natural.

O início foi bem difícil, pois falar sobre um tema tão sensível infelizmente ainda implica em ouvir muitas críticas e assédio. Para muitos, era motivo de constrangimento me abrir para falar de um assunto que, em minha visão, sempre foi encarado como natural. Ainda assim, segui em frente com a ideia de que não poderia falar sobre sexo sem tabu se tivesse vergonha ou medo de encarar abertamente o tema nas redes com minha imagem.

Outro desafio está em manter o crescimento, considerando a censura das redes sociais. O algoritmo reflete a normalização da objetificação sexual, em contrapartida restringe o acesso de informações sobre autoconhecimento e sexualidade positiva. Diversos conteúdos são barrados e deletados, e o medo de ser banido das redes é algo constante para todos que trabalham com o ramo na internet. Todo o marketing precisa ser orgânico e não podemos usar as ferramentas pagas de alavancagem que o mercado em geral utiliza. Para lidar com a restrição, temos que nos desafiar diariamente para construir ideias fora da caixa.

O marketing é difícil, o assédio é constante e conviver com julgamentos é rotina. Ainda assim, a motivação de poder ajudar milhares de pessoas pelo Brasil afora compensa e muito os desafios de empreender com esse mercado.

Sei que como “mãe” deve ser difícil, mas tem algum produto ou brinquedo que seja seu queridinho, o preferido e que você mais recomenda?

O Piggy, sugador de clitóris. Nosso queridinho de vendas não só é um ótimo caminho de entrada como foi ele que me inspirou a começar a vender produtos de bem-estar sexual. Na primeira vez que usei fiquei chocada com a existência de algo que me faz gozar em 3 minutos e de forma intensa. O amor foi tanto que quis compartilhar com o mundo e fiz até uma tatuagem em homenagem a ele!

Sugador de clitóris

Recentemente, vocês lançaram um novo segmento de vídeos no canal do YouTube. Quando você percebeu a necessidade de entrar para outra rede social?

Com o crescimento da nossa comunidade no Instagram, a troca com nossas seguidoras foi ficando cada vez maior. Temos uma comunicação próxima, surgem muitas perguntas e temas em comum entre elas. Muitas delas não têm abertura nas relações próximas para falar abertamente sobre sexualidade por causa dos tabus que rodeiam. Com isso, decidimos levar ainda mais informação para o maior número de pessoas para aos poucos irmos quebrando esses tabus em torno da sexualidade.

Na plataforma de vídeos, quais tipos de conteúdo a marca vai levar?

Tutoriais, vídeos de produtos, relacionamentos, sexualidade, saúde íntima e prazer feminino. Vamos trazer convidadas para nos ajudar a aprofundar alguns assuntos, tudo isso mantendo nossa leveza e descontração na comunicação.

Além do canal, quais são os próximos passos da Good Vibres? Algum produto ou projeto novo? Pode dar algum spoiler?

Estamos trabalhando em dois lançamentos importantes para o primeiro trimestre de 2023. Além disso, em setembro lançamos nosso primeiro produto da linha própria, o lubrificante Sense Lube. O plano ano que vem é investir cada vez mais em aumentar nossa linha de produtos próprios, com a marca Good Vibres.

Para finalizar, qual conselho você dá para mulheres que, assim como você, querem entrar no ramo do bem-estar sexual e não tiram projetos do papel por insegurança ou medo de julgamentos?

Para mim, a maior motivação de passar por cima das inseguranças e julgamentos é acreditar no propósito do meu trabalho. Toda vez que eu troco com nossas seguidoras e clientes e vejo o quanto a Good Vibres agrega na vida das pessoas e ajuda a elas a redescobrir sua sexualidade, eu me renovo. Saber que meu trabalho, de certa forma colaborou, para uma pessoa gozar pela primeira vez, a melhorar uma relação, a enxergar o corpo de forma mais positiva, faz parecer muito pequeno qualquer tipo de insegurança e julgamento.

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