Rede de Vorcaro tinha bicheiros, milícia e apoio no exterior
Relatório da PF detalha plano de R$ 10 milhões contra DJ nos EUA, uso de chip colombiano e coordenação do "Sicário" em Minas Gerais

Durante as investigações acerca das fraudes relacionadas ao Banco Master, a Polícia Federal (PF) identificou uma estrutura de intimidação que ultrapassava fronteiras estaduais e alcançava o exterior. O grupo, conhecido como “A Turma”, possuía ramificações em diferentes estados, conexões com operadores do jogo do bicho no Rio de Janeiro, além de ações intimidação e perseguição, com apoio da milícia, para proteger os interesses do empresário Daniel Vorcaro.
De acordo com relatório encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF), o banqueiro mobilizou o grupo, em outubro de 2024, para perseguir um DJ residente em Miami, nos Estados Unidos, após uma suposta desavença com um de seus filhos.
Segundo as informações, Vorcaro prometeu investir R$ 10 milhões na operação. As conversas interceptadas indicam que o plano incluía contratar pessoas para seguir o músico em solo norte-americano, provocar um incidente que pudesse resultar em um flagrante forjado de drogas e até acionar um suposto “amigo da Interpol”, cuja identidade não foi revelada.
Os investigadores afirmam que também foi discutida a possibilidade de atrair o artista ao Brasil mediante contratação para tocar em uma festa no Rio de Janeiro. Uma vez no país, ele seria alvo de intimidações que, segundo o relatório, poderiam ser executadas “pela milícia e polícia”.
Apoio de bicheiros
As apurações identificaram que um dos principais operadores do esquema no Rio de Janeiro seria Manoel Mendes Rodrigues, que se apresenta como “empresário do jogo” em referência ao jogo do bicho.
Segundo a PF, Manoel liderava um braço da organização “A Turma” no estado. O grupo seria composto por quatro a seis integrantes ainda não identificados oficialmente e que permanecem em liberdade.
“É possível inferir que os integrantes do grupo no Rio de Janeiro sejam, potencialmente, outros operadores do jogo do bicho, milicianos e policiais”, afirma a PF.
Até o momento, a investigação aponta que o grupo era integrado pelos policiais federais Marilson Roseno da Silva, Sebastião Monteiro Júnior e Anderson Wander da Silva Lima, além de Manoel.
Angra dos Reis
Outro episódio descrito nos documentos ocorreu em junho de 2024, quando integrantes da “Turma” foram a Angra dos Reis (RJ) para intimidar ex-funcionários ligados a Vorcaro.
Segundo a investigação, o grupo chegou a Marina Bracuhy para procurar Luis Felipe Woyceichoski, comandante de uma embarcação utilizada pelo banqueiro.
Posteriormente, os integrantes seguiram para o Hotel Nacional Inn, onde trabalhava o ex-chefe de cozinha Leandro Garcia.
Luis Felipe relatou à PF que recebeu uma ligação de Manoel Mendes Rodrigues. Durante a conversa, ele afirmou que era amigo de Vorcaro, que trabalhava com jogo do bicho e que sabia detalhes da rotina da vítima e de sua família.
Segundo o depoimento, ele também disse que poderia chegar à residência dele armado e mencionou possuir policiais federais em sua equipe.
Luis afirmou ainda ter ouvido uma segunda pessoa orientando Manoel durante a ligação. Após o episódio, disse ter deixado Angra dos Reis às pressas com a família.
Pouco depois, Leandro Garcia também teria sido abordado por um grupo com características semelhantes em seu local de trabalho.
Minas Gerais
A PF aponta que a coordenação operacional da estrutura de intimidação era exercida por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”. Ele foi preso durante a terceira fase da Operação Compliance Zero, em março deste ano. Após ser preso, o homem tirou a própria vida.
Segundo os investigadores, ele comandava ações de vigilância, monitoramento de alvos, obtenção de informações sigilosas e operações de constrangimento contra pessoas consideradas ameaça aos interesses do grupo.
Na decisão que autorizou prisões em fases anteriores da Operação Compliance Zero, o ministro do STF André Mendonça reproduziu trechos da investigação que descrevem “A Turma” como responsável por monitorar jornalistas, autoridades, ex-funcionários, adversários empresariais e outros alvos.
Além disso, em outra conversa citada pela PF, Vorcaro manifestou desejo de que um jornalista que publicava reportagens negativas sobre o Banco Master sofresse uma agressão física.
Os documentos também revelam que Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, passou a utilizar um número telefônico registrado na Colômbia após o avanço das investigações.
Segundo a PF, Henrique trocava frequentemente de contato telefônico e manteve comunicações com o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva mesmo após as primeiras fases da Operação Compliance Zero.
As mensagens analisadas pelos investigadores indicam que Henrique teria solicitado apoio da “Turma” em diferentes ocasiões.
Em uma conversa de janeiro de 2026, ele teria dito a Marilson: “No momento em que estou é que preciso de vocês”.
Os investigadores também identificaram tratativas envolvendo uma transferência de R$ 400 mil para Marilson. Parte das conversas, porém, foi apagada do aparelho do policial aposentado, dificultando a reconstrução completa do histórico.
Henrique Vorcaro foi preso em 14 de maio, durante a sexta fase da Operação Compliance Zero. Ele é investigado por suspeitas de participação em esquema de lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial vinculado às movimentações financeiras sob apuração.




