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Mirelle Pinheiro

Mãe de brasiliense condenado por terrorismo desabafa: "Muita dor"

Em relato exclusivo, mãe conta como a prisão do filho mudou a vida da família, que vive no Paranoá, a 17 quilômetros do Palácio do Planalto

15/06/2026 02:58, atualizado 15/06/2026 06:44
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Gabriel Lucas/Metrópoles
Ilustração de uma mulher sentada em uma cadeira de rodas e um homem sendo preso para a matéria O algoritmo do ódio

Em uma casa simples no Paranoá (DF), região administrativa localizada a 17 quilômetros do Palácio do Planalto, a mãe de um brasiliense condenado a mais de 16 anos de prisão por integrar o grupo radical islâmico Hezbollah e realizar preparativos para cometer atos de terrorismo convive diariamente com a angústia de não ter contato direto com o filho desde novembro de 2023.

Com quem sempre manteve uma ligação intensa e afetuosa, ela agora se comunica apenas por recados intermediados por terceiros.

Dona Francisca — nome fictício adotado pela reportagem para preservar sua identidade — viu a própria vida e a da família serem completamente transformadas naquele mês, quando, por volta das 6 horas da manhã, investigadores da Polícia Federal (PF) bateram à porta de sua casa para cumprir um mandado de busca e apreensão.

Desentendida do que se tratava, abriu o portão sem imaginar que, a partir daquele momento, conheceria uma versão do filho que, segundo ela, jamais havia sido revelada anteriormente.

A reportagem encontrou dona Francisca sentada em uma cadeira de rodas, vestindo um vestido simples, com olhar desconfiado. O receio de falar com a equipe era visível. No entanto, bastou ouvir que teria espaço para contar a história do filho para que aceitasse a conversa.

“Se isso puder ajudar ele de alguma forma, eu falo. Só quero que ele saia logo de lá”, disse antes mesmo de qualquer pergunta.

A prisão do homem marcou uma linha divisória na vida da família. Cerca de dois dias após a visita da PF — quando nada ilícito foi encontrado na residência —, dona Francisca soube que o filho havia sido detido ao desembarcar no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo (SP). Ele retornava do Líbano.

Conforme divulgado em setembro de 2024, quando foi condenado a 16 anos, seis meses e 22 dias de prisão por terrorismo, o brasiliense havia sido recrutado para promover ataques contra a comunidade judaica no Distrito Federal.

De acordo com informações compiladas pelo Ministério Público Federal (MPF), entre novembro de 2022 e abril de 2023, ele se juntou, de forma voluntária, a uma organização terrorista e participou ativamente das atividades.

Nesse período, teria viajado duas vezes ao Líbano, com apoio financeiro de Mohamad Khir Abdulmajid — sírio naturalizado brasileiro que, segundo as investigações, integra e financia uma organização extremista vinculada ao Hezbollah desde 2016.

Com a prisão, a atuação criminosa que, até então, era ocultada da família, foi exposta na imprensa nacional.

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“Eu espero que, se o juiz tiver filhos, ele saiba o que eu estou sentindo. Eu espero que meu filho volte logo para casa. Não sei se estou certa ou errada, mas é o que qualquer mãe faria”, finalizou dona Francisca.
A 2ª Vara Federal Criminal de Minas Gerais condenou Lucas, em três de setembro de 2024, a 16 anos, seis meses e 22 dias de prisão por integrar organização terrorista e planejar atos de terrorismo em Brasília.
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A 2ª Vara Federal Criminal de Minas Gerais condenou Lucas, em três de setembro de 2024, a 16 anos, seis meses e 22 dias de prisão por integrar organização terrorista e planejar atos de terrorismo em Brasília.

LUIS NOVA/ESPECIAL METRÓPOLES @LuisGustavoNova
“Eu espero que, se o juiz tiver filhos, ele saiba o que eu estou sentindo. Eu espero que meu filho volte logo para casa. Não sei se estou certa ou errada, mas é o que qualquer mãe faria”, finalizou dona Francisca.
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“Eu espero que, se o juiz tiver filhos, ele saiba o que eu estou sentindo. Eu espero que meu filho volte logo para casa. Não sei se estou certa ou errada, mas é o que qualquer mãe faria”, finalizou dona Francisca.

LUIS NOVA/ESPECIAL METRÓPOLES @LuisGustavoNova

A vida antes de tudo

O condenado nasceu e cresceu no Paranoá, na mesma casa onde dona Francisca recebeu a reportagem. Após a separação dos pais, porém, ele decidiu morar com o pai.

Feirante, o homem levava o menino para onde ia, como melhores amigos. Ele também ajudava o pai a vender produtos em uma feira tradicional da região. Era comum que o jovem acordasse cedo para montar a banca e auxiliar nas vendas.

Contudo, aos 14 anos, o então adolescente teve de lidar com a morte do pai, que faleceu em decorrência de problemas cardíacos. Apesar de não ter demonstrado à época, a mãe agora acredita que o luto pode ter mudado algo no filho.

“Ele nunca deu trabalho. Nunca. Era um menino interessado na escola, trabalhador, ajudava o pai na feira. Eu nunca fui chamada na escola por causa dele.”

A mãe confidenciou que houve um período em que o garoto se aproximou da igreja evangélica e chegou a pregar durante os cultos.

Segundo ela, a dedicação era tanta que chegou a acreditar que o filho se tornaria pastor. Ele costumava dar carona a fiéis que não tinham transporte, visitava pessoas doentes e ajudava na entrega de cestas básicas. “Era uma boa pessoa”.

Após completar 18 anos, passou a apresentar alguns comportamentos que, na avaliação da mãe, eram inadequados. Começou a ingerir bebidas alcoólicas e a andar com um grupo de amigos diferente daqueles que sempre fizeram parte de seu círculo. “Acho que isso pode ter sido má influência”, afirmou.

Foi nesse período que, conforme o relato dela, ele acabou preso pela primeira vez, por porte ilegal de arma.

De volta à cadeia

Quando foi preso por envolvimento com o Hezbollah, o brasiliense já era casado e não morava mais com dona Francisca. Ainda assim, segundo a mãe, ele mantinha presença constante na casa dela e passava quase todos os dias no endereço para ajudá-la no que fosse preciso.

À família, o preso alegou que o motivo da ida ao Líbano era uma proposta de trabalho e que o objetivo era arrecadar dinheiro para ajudar nos tratamentos de saúde de dona Francisca.

“Ele falou que ia trabalhar, procurar uma vida melhor. Disse que ia me levar para fora do Brasil para fazer a cirurgia que eu estou esperando até hoje, para colocar prótese nas pernas. Ele dizia que ia me ajudar a pagar essa cirurgia particular, para eu andar logo.”

A expectativa, no entanto, terminou na prisão do filho. “A cirurgia deu nisso… ele preso. É mais preocupação, mais doença. A preocupação acaba com a gente”, disse, em tom de frustração.

“Eu não tinha arritmia. Eu tinha problema na perna e pressão alta, mas, depois disso, piorou. A preocupação é muito grande, eu não durmo, tenho crises de ansiedade. Ele está lá… como é que eu vou para São Paulo visitar um filho preso, numa cadeira de rodas? Não tem como.

A condenação

A 2ª Vara Federal Criminal de Minas Gerais condenou o criminoso, em três de setembro de 2024, a 16 anos, seis meses e 22 dias de prisão por integrar organização terrorista e planejar atos de terrorismo em Brasília.

Segundo as investigações da Operação Trapiche, integrantes de organização terrorista vinculada ao grupo libanês Hezbollah recrutaram brasileiros para atuarem como “proxies” (guerra por procuração), especialmente para a prática de atos preparatórios de terrorismo contra a comunidade judaica no Brasil.

De acordo com a denúncia do Ministério Público Federal (MPF), ele pesquisou locais judaicos em Brasília, coletou informações sobre líderes religiosos e fez treinamento de tiros com armas de fogo.

“Eu espero que, se o juiz tiver filhos, ele saiba o que eu estou sentindo. Eu espero que meu filho volte logo para casa. Não sei se estou certa ou errada, mas é o que qualquer mãe faria”, finalizou dona Francisca.