Da recomendação ao radicalismo: o algoritmo no caminho ao extremismo
À coluna, professor da UnB detalha como sistemas de recomendação operam e como podem favorecer a circulação de conteúdo

Com o avanço da internet e a popularização das redes sociais, organizações terroristas passaram a adotar novas estratégias a fim de recrutar integrantes para seus “exércitos”.
Estudos indicam que o Brasil figura entre os países mais conectados do mundo. Em meio a conteúdos de humor e vídeos virais de animais, escondem-se camadas que conectam usuários brasileiros a grupos criminosos em diferentes partes do planeta.
Nesse sentido, o algoritmo tem um papel importante. O conceito surgiu há mais de mil anos, antes mesmo da era da internet e dos aplicativos de smartphones, mas ganhou popularidade nos últimos anos.
Para entender melhor a ligação entre os assuntos, a coluna entrevistou Laerte Peotta, professor da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em sistemas de recomendação.
Segundo Peotta, o algoritmo, em linguagem simples, é uma sequência de instruções matemáticas que informa a um sistema como agir diante de determinados dados. Sem intenção, ideologia ou opinião, ele apenas executa cálculos.
De maneira resumida, no ambiente digital, o algoritmo é o mecanismo que decide quais conteúdos devem aparecer na tela de cada usuário.
“O algoritmo é um sistema de previsão. Ele calcula, com base no seu comportamento anterior, qual conteúdo tem maior probabilidade de prender sua atenção.”
O especialista destacou que esse conjunto de instruções não “escolhe” o que é verdadeiro ou falso. Ele mede a probabilidade de interação. Cada curtida, cada comentário, cada vídeo assistido até o fim transforma-se em dado — e dados alimentam o sistema. A partir desse histórico, a plataforma estima o que mantém a pessoa conectada por mais tempo.
Como as plataformas recomendam conteúdos
Segundo o professor, as plataformas trabalham basicamente com três camadas de informação: o que você já consumiu, o que pessoas com comportamento semelhante ao seu consumiram e o que está gerando mais interação naquele momento.
“Não existe um editor humano decidindo manualmente o que vai para cada usuário”, explica. “É um processo estatístico.”
Se alguém assiste repetidamente a vídeos sobre política, o sistema entende que há interesse naquele tema. Se esse usuário interage mais com conteúdos críticos ou indignados, o algoritmo registra que aquele padrão gera permanência. De acordo com esses dados, ele ajusta as próximas recomendações.
Por meio desse mecanismo, usuários com interesse em conteúdos extremistas podem encontrar, com mais facilidade, esse tipo de material na internet.
Investigações da Polícia Federal e das polícias civis já revelaram — inclusive em operações noticiadas pela coluna — que as redes sociais têm sido palco para a disseminação desse tipo de conteúdo.
Em fevereiro deste ano, a Polícia Civil do Rio de Janeiro (PCERJ) deflagrou operação contra um grupo denominado Geração Z. Os integrantes planejavam, pela internet, ataques terroristas em Brasília (DF), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP).
Em um dos grupos criados no Telegram, mais de 7 mil pessoas demonstraram interesse em participar dos crimes.
Procurado pela reportagem, o Telegram enviou nota afirmando que remove conteúdos que violem seus termos de uso e que coopera com autoridades, dentro dos limites legais aplicáveis.








