Mirelle Pinheiro

Logística de R$ 1 bilhão: como a máfia europeia cooptou pescadores brasileiros. Veja vídeo

Pescadores e empresários brasileiros foram incorporados a uma rota bilionária de envio de droga para a Europa

atualizado

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Logística de R$ 1 bilhão: como a máfia europeia cooptou pescadores brasileiros
1 de 1 Logística de R$ 1 bilhão: como a máfia europeia cooptou pescadores brasileiros - Foto: Arte/Metrópoles

A Operação Anansi, deflagrada pela Polícia Federal (PF) em parceria com o Ministério Público Federal, na quarta-feira (10/12), desarticulou esquema de tráfico internacional de cocaína marcado por alto nível de organização e atuação transnacional. Estima-se que o grupo movimentou até R$ 1 bilhão.


A investigação identificou que pescadores e empresários brasileiros foram incorporados a uma rota bilionária de envio de droga para a Europa, em um modelo que explorava dois elementos cruciais, a posição estratégica do litoral brasileiro e a experiência técnica da comunidade pesqueira.

Segundo a PF, o recrutamento de brasileiros não ocorreu de forma aleatória. Traficantes europeus buscavam pessoas com embarcações em bom estado e profundo conhecimento do mar.

A aproximação inicial ocorreu por meio de um familiar de um pescador que havia viajado para Portugal, criando a ponte entre a organização estrangeira e os operadores locais.

A “narcofrota” e a engenharia do transporte

O esquema identificado na investigação está distante de práticas amadoras. As embarcações, muitas delas já equipadas com tanques de combustível ampliados, característica comum entre pescadores experientes, eram modificadas com fundos falsos e compartimentos ocultos. Sob cargas de marisco, consideradas lícitas, escondia-se a cocaína destinada ao mercado europeu.

A rota marítima permitia transportar entre 1,6 e 3 toneladas por viagem, um volume muito superior ao normalmente apreendido em contêineres nos portos brasileiros (cerca de 500 kg).

A escolha pelo modal pesqueiro, segundo fontes da coluna ligadas à investigação, derivou do aumento da fiscalização portuária, levando o crime organizado a diversificar meios e buscar rotas menos monitoradas.

A logística incluía, quando necessário, o envio de embarcações de apoio para reabastecimento em alto-mar, garantindo o percurso completo até a Europa.

Para a PF, isso demonstra a existência de um planejamento robusto e de uma estrutura operacional consolidada.

Ganhos financeiros e ausência de facções

A apuração aponta que, entre os brasileiros envolvidos, a motivação predominante era financeira.

A maioria não possuía vínculos com facções criminosas. Pescadores recebiam entre R$ 60 mil e R$ 100 mil por travessia, enquanto proprietários de embarcações, responsáveis pela logística, eram remunerados com valores superiores, proporcionais à carga transportada.

Os pagamentos eram feitos em euro, real e, em alguns casos, criptomoedas, o que dificultava o rastreamento financeiro.

Ações da PF

A Operação Anansi já resultou em 10 prisões e no bloqueio de R$ 50 milhões em bens. As análises dos celulares apreendidos devem detalhar a extensão e o tempo de funcionamento da rota, estimada em pelo menos quatro anos.

A PF também identificou o uso de coordenadas geográficas e de um “minicentro de inteligência” a bordo das embarcações, o que permitia traçar rotas seguras e monitorar possíveis abordagens.

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