
Mirelle PinheiroColunas

Energia cortada e 8 minutos: como polícia desvendou morte de corretora
O filho do síndico, Maykon Douglas de Oliveira, também foi preso na manhã desta quarta-feira (28/1)
atualizado
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A solução do homicídio da corretora Daiane Alves Souza, de 43 anos, em Caldas Novas, exigiu da Polícia Civil uma investigação conduzida sem corpo, sem cena evidente de crime e sem imagens claras do autor deixando o prédio.
Mesmo assim, o caso foi esclarecido a partir da análise técnica de rotinas internas, cruzamento de horários e da reconstrução minuciosa dos últimos minutos da vítima.
Segundo os delegados, a primeira comunicação do desaparecimento colocou a investigação diante de um cenário incomum, não havia qualquer registro de Daiane saindo do condomínio, tampouco imagens que mostrassem outra pessoa deixando o local logo após o sumiço.
Ainda assim, a polícia decidiu tratar o caso como homicídio diante da falta de informações concretas.
“Foram feitas diligências incansáveis. Trabalhamos inclusive com a possibilidade de ela ter desaparecido por vontade própria”, afirmou a Polícia Civil durante a coletiva.
Oito minutos
Ao todo, 32 pessoas foram ouvidas. A partir desses depoimentos, os investigadores passaram a concentrar esforços na análise do fluxo dos elevadores e do acesso ao subsolo do prédio, local onde Daiane foi vista pela última vez.
As imagens revelaram que Daiane desaparece exatamente às 19h, e a primeira pessoa a acessar o subsolo após esse horário surge apenas às 19h08.
Nenhuma outra pessoa entrou ou saiu do local nesse intervalo de oito minutos.
Para os investigadores, esse lapso indicava que o crime só poderia ter sido cometido por alguém com livre acesso ao prédio, familiaridade com a rotina e capacidade de agir sem levantar suspeitas.
Energia desligada
Outro ponto que chamou a atenção foi o desligamento do padrão de energia do apartamento da corretora. Horas antes do desaparecimento, Daiane percebeu que apenas sua unidade estava sem luz.
Às 18h56, ela gravou um vídeo mostrando que o restante do condomínio seguia com energia normal e enviou o registro a uma amiga.
Dois minutos depois, às 18h58, ela voltou a descer ao subsolo, novamente gravando o trajeto. Um terceiro vídeo chegou a ser gravado, mas nunca foi enviado.
Testemunhas relataram à polícia que desligar a energia fazia parte de um comportamento recorrente do síndico, inclusive em episódios anteriores, como uma assembleia virtual para eleição de síndico.
Controle do prédio e das câmeras
A investigação concluiu que o crime exigiria alguém com pleno controle dos acessos internos, conhecimento do funcionamento das câmeras e da circulação de moradores.
Segundo a polícia, entre todos os ouvidos, apenas uma pessoa reunia essas condições sem ser percebida.
Mesmo sem imagens claras da saída do autor, os investigadores conseguiram localizar registros externos que mostravam o veículo do síndico deixando o condomínio com a capota fechada e retornando cerca de 48 minutos depois, já com a capota aberta.
Caminho até a ossada
Após ser confrontado com esse conjunto de provas, imagens, horários, registros de energia e depoimentos, o síndico entrou em estado colaborativo e se ofereceu para indicar onde havia deixado o corpo.
Ele conduziu os policiais até uma estrada rural que já conhecia, a cerca de 15km de Caldas Novas, onde apontou uma vala por onde escoava água.
No local, a equipe encontrou os restos mortais da corretora, em estágio avançado de decomposição.
Indícios contra o filho
O filho do síndico, Maykon Douglas de Oliveira, também foi preso. A Polícia Civil apurou que ele comprou um celular novo no mesmo dia do desaparecimento, possivelmente para entregar ao pai.
Para os investigadores, o ato indica tentativa de ocultação de provas.
Perícias foram realizadas tanto no local do desaparecimento quanto no veículo utilizado para transportar o corpo.
“Sem corpo, o luto não termina”
Durante a coletiva, os delegados destacaram o impacto do desaparecimento prolongado sobre a família.
“Quando há um homicídio sem localização do corpo, a família vive um luto eterno. Resolver esse caso foi também devolver uma resposta”, afirmou a polícia.
Daiane desapareceu às 19h e 30 segundos, após descer ao subsolo para verificar a queda de energia em seu apartamento. O crime, segundo a confissão, ocorreu logo após ela sair do elevador.
O porteiro do condomínio foi conduzido coercitivamente para esclarecimentos após divergências em depoimentos.










