
Mirelle PinheiroColunas

Em busca de Justiça, famílias viram investigadoras da própria tragédia
Cansados da inércia da Justiça, familiares assumem investigações e brigam para que a morte de seus entes não sejam em vão
atualizado
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Dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) mostram que, entre janeiro e dezembro de 2024, 38.722 pessoas tiveram suas vidas abruptamente interrompidas no Brasil — uma média de 106 assassinatos por dia. Para os familiares das vítimas, lidar com a perda é devastador. A dor, porém, é agravada pela espera por justiça, muitas vezes marcada pela ausência de respostas.
Ainda que não se conheçam, João Carlos Natalini, Laudijane Rodrigues, Heleneide Carvalho e Thainara Paiva compartilham o mesmo sentimento: a busca incansável por justiça. À coluna, eles relataram como suas vidas foram drasticamente modificadas após a morte de entes queridos.
Uma dor incessante
Era 11 de setembro de 2015 quando a vida de João Carlos Natalini mudou para sempre. Naquele dia, ele deixou a filha Victoria Natalini, de 17 anos, na porta de um ônibus fretado pela Escola Waldorf Rudolf Steiner, rumo a uma fazenda no interior de São Paulo, e se despediu com um beijo na testa — sem imaginar que seria o último.
“Era uma viagem obrigatória de trabalho escolar. Ela estava aflita para fazer um bom trabalho, e eu a tranquilizei dizendo que fizesse o melhor que pudesse, sem se preocupar”, relembrou.
Horas depois, João recebeu a notícia do desaparecimento da filha. Victoria havia sido vista com dois colegas, em um morro a cerca de 800 metros da sede da fazenda. Por volta das 14h30, decidiu voltar sozinha para usar o banheiro e nunca mais retornou.
“Os colegas seguiram trabalhando por duas horas, até que, às 16h30, resolveram avisar a professora responsável, que sequer monitorava os grupos e desconhecia o paradeiro da minha filha”, lamentou.
Apenas à noite, por iniciativa da cozinheira da fazenda, as autoridades foram acionadas. O boletim de ocorrência só foi registrado às 19h16. “Só então fui informado. A viagem duraria uma semana, mas, no quinto dia, às 20h, um gestor da escola ligou relatando o desaparecimento.”
No dia seguinte, Victoria foi encontrada morta em uma clareira, no sentido oposto ao da casa.
“A notícia me atingiu como um soco no estômago. Fiquei quase dois meses em depressão profunda, só saía de casa para cobrar da polícia a investigação que nunca foi feita”, contou.
Inicialmente, a polícia apontou “morte natural”. Inconformado, João contratou uma perícia particular e conseguiu a retratação do médico legista do Instituto Médico Legal (IML) de Jundiaí.
Quase uma década depois, a luta continua. “Conseguimos que dois professores e três gestores da escola fossem denunciados pelo Ministério Público de São Paulo por abandono de incapaz com resultado morte, agravado por local ermo. Foram tornados réus.”
Mesmo assim, o inquérito foi arquivado. “Agora, lutamos pelo desarquivamento. Quero justiça para minha filha, que estaria hoje com 27 anos.”
Negligência e descaso
Em 8 de julho de 2022, Laudijane Rodrigues viu a ordem natural da vida ser rompida. Seu filho, Breno Felipe de Sales Machado, de 28 anos, prestes a se formar em Direito, foi assassinado pelo ex-padrasto de sua namorada. O crime ocorreu em um prédio de Boa Viagem, zona nobre do Recife. O autor dos disparos, Emerson Raulino Alexandre, de 50 anos, também matou a ex-mulher, feriu a enteada e, em seguida, tirou a própria vida.
Apesar da morte do assassino, Laudijane luta por justiça. Segundo ela, Breno morreu não apenas pelos disparos, mas principalmente pela demora no socorro.
“O atestado de óbito aponta choque hipovolêmico — perda de sangue e líquidos — como causa da morte. Os órgãos do Breno estavam perfeitos, nada foi perfurado. Ele morreu porque esperou duas horas até ser levado ao hospital. Foi negligência”, afirmou.
Além disso, imagens de segurança flagraram moradores ignorando os pedidos de socorro. Laudijane denuncia ainda a ausência de perícia no local.
“Eu mereço respostas. Tenho dois outros filhos, de 9 e 15 anos. Todos adoecemos. Precisamos de justiça para ter paz”, declarou.
Dor e mistério
Victoria Emanuely Carvalho Firmino, de 29 anos, foi encontrada morta no banheiro da clínica onde estava internada, em Recife, para tratar a dependência química. Ao contrário de outros casos, sua mãe, Heleneide Carvalho, luta primeiro para provar que a filha foi vítima de homicídio.
Internada contra a própria vontade, sem autorização materna, Victoria teria sido encontrada pendurada no box do banheiro com um cachecol. A versão oficial apontou suicídio. Heleneide, no entanto, contesta.
“Minha filha tinha mais de 70 kg. Aquele cachecol e o box não suportariam seu peso. Ela estava cheia de hematomas. Foi vítima de violência”, afirmou.
Inconformada, Heleneide estudou o Código Penal, ouviu testemunhas e reuniu provas. “Fiz o que nem os advogados conseguiram fazer”, lamentou. Internas da clínica relataram maus-tratos, agressões físicas e psicológicas contra Victoria.
Apesar dos esforços, a única conquista da mãe foi uma indenização para os netos. Heleneide segue lutando pela reabertura do processo. “Aqui, uma mãe enlutada faz o papel da polícia e mendiga os direitos da filha”, desabafou.
O início de uma luta
A dor de Thainara Paiva é recente. Em 14 de abril, seu irmão João Lucas Paiva, de 25 anos, morreu dias após ser atropelado enquanto trabalhava, no Méier, Zona Norte do Rio.
João Lucas estava em uma escada de cerca de quatro metros de altura quando um carro, em alta velocidade, atingiu a estrutura e o lançou a quase dez metros de distância. Ele sofreu múltiplas fraturas e não resistiu. O motorista fugiu sem prestar socorro e, até agora, não foi identificado.
Thainara buscou imagens de câmeras de segurança na região, mas enfrentou resistência dos moradores. “Não sei se é medo, mas ninguém quis colaborar”, disse.
Agora, a irmã luta para manter o caso em evidência e pressionar as autoridades. “Nada vai trazê-lo de volta, mas, se depender de nós, vamos lutar para que isso não aconteça com outras famílias”, afirmou.
