
Mirelle PinheiroColunas

Do “Tigrinho” à Gucci: o caminho do dinheiro do esquema de MC Ryan
Plataformas ilegais, como o chamado “Jogo do Tigrinho”, funcionavam como porta de entrada para o dinheiro
atualizado
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A investigação da Polícia Federal (PF) escancarou o caminho percorrido por bilhões de reais que saíram de apostas ilegais e terminaram convertidos em luxo, influência e financiamento do crime organizado. O esquema, de acordo com os investigadores, seria liderado por MC Ryan SP (foto em destaque).
Documentos analisados pela PF mostram que o esquema operava com uma estrutura sofisticada, baseada nas três etapas clássicas da lavagem de dinheiro, mas executadas em escala industrial, com uso de tecnologia, empresas de fachada e uma rede de operadores.
Plataformas ilegais, como o chamado “Jogo do Tigrinho”, funcionavam como porta de entrada para o dinheiro. Milhares de pessoas realizavam depósitos, principalmente via Pix, em contas ligadas a empresas intermediadoras.
Os valores eram, em sua maioria, fragmentados em pequenas quantias, uma técnica conhecida como “smurfing”, usada para evitar alertas do sistema financeiro.
Segundo a PF, esse fluxo inicial só era possível devido a falhas, ou, em alguns casos, à chamada “cegueira deliberada”, de instituições que aceitavam cadastros inconsistentes e movimentações incompatíveis com a renda declarada.
Com o dinheiro já dentro do sistema, começava a fase mais complexa, esconder sua origem.
A investigação aponta que o grupo utilizava uma rede de “contas de passagem”, empresas de fachada e pessoas interpostas, os “laranjas”, para embaralhar o rastro financeiro.
Operadores recebiam grandes volumes e redistribuíam os valores em múltiplas transações, dificultando o rastreamento.
Entre os mecanismos identificados estão negócios aparentemente legítimos usados para “esfriar” o dinheiro, como empresas do setor de sucata e até estabelecimentos comerciais que funcionariam como pontos de arrecadação ligados à facção.
Até familiares eram inseridos na estrutura, assumindo participação em empresas para dar aparência de legalidade aos ativos.
É na etapa final que o dinheiro reaparece, já com aparência limpa. A PF identificou que os valores eram misturados ao faturamento de atividades formais, especialmente na indústria do entretenimento, com shows. A partir daí, eram convertidos em bens de alto valor: carros de luxo, itens de grife, como bolsas Gucci, imóveis e obras milionárias.
Um dos exemplos citados é a construção de um lago artificial avaliado em quase R$ 1 milhão, pago por meio de uma “via paralela corporativa”, segundo os investigadores.
Outro ponto sensível envolve um acordo judicial firmado após um episódio de dano a patrimônio. A Polícia Federal sustenta que o valor, próximo de R$ 1 milhão, não saiu diretamente do artista envolvido, o MC Ryan, mas de empresas ligadas a apostas.
A investigação também identificou que parte desses recursos extrapolava o consumo de luxo e alimentava outras frentes do crime, incluindo operações de tráfico internacional.
Um dos casos citados envolve a aquisição de um veleiro posteriormente interceptado com toneladas de cocaína.





















