Mario Sabino

Os mortos que querem transformar o mundo numa carcaça de intolerância

Sobre os xingamentos como linguagem política: eles significam a investida da intolerância, a degradação e a rejeição da palavra

atualizado

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Hugo Barreto/Metrópoles
Hacker ataque - Ataques na internet, hackers, rede de sistemas, violações de dados sigilosos, documentos expostos, ciberataque
1 de 1 Hacker ataque - Ataques na internet, hackers, rede de sistemas, violações de dados sigilosos, documentos expostos, ciberataque - Foto: Hugo Barreto/Metrópoles

De vez em quando, leio os comentários às colunas de Mario Sabino, o senhor da foto acima que assina este espaço no Metrópoles. Os xingamentos não me incomodam. Encaro como ossos do ofício e certamente não vim ao mundo para ganhar concurso de popularidade, com o perdão dos dois clichês seguidos.

No site que criei, via-me xingado até quando estava de férias. Eu era o “socialista fabiano”, o “careca” (os epítetos renderam um artigo publicado no livro Cartas de um Antagonista). Aqui, virei “fascista”, mas continuo a ser “careca”, naturalmente (no seu Dicionário de Ideias Aceitas, divirto-me, o escritor francês Gustave Flaubert escreveu sobre a calvície: “Sempre precoce, é causada por excessos de mocidade ou a concepção de grandes ideias.”).

O que importa não são os xingamentos em si, mas o que eles significam no contexto da linguagem política: a face mais vulgar da investida da intolerância por meio da degradação e a rejeição da palavra. Nada disso é novo, são efeitos colaterais dos populismos, mas tudo isso foi potencializado pela internet e por seu corolário, as redes sociais.

Em 1977, quando não havia internet, o escritor italiano Italo Calvino fez um diagnóstico sobre a intolerância. Ele está na coletânea de artigos e ensaios intitulada Una Pietra Sopra e continua atual (terceiro clichê). Eu o transcrevo abaixo:

“A intolerância, hoje, a julgar pelo largo número de episódios que conheço, mais do que imposição de um determinado discurso com exclusão de outros discursos, manifesta-se como rejeição de todo tipo de discurso, como zombaria do discurso em si. A perspectiva implícita, no limite, seria a de um mundo  inarticulado, mas não silencioso, que se manifesta por meio da alternância de pulsões agressivas e de quedas de tensão, individuais e de rebanho. 

De fato, que uma doença grave atingia a palavra já estava claro fazia tempo: por exemplo, na linguagem política se verificou um empobrecimento, um desbotamento e cancelamento de significados. Hoje, a rejeição da palavra, o que não querer mais escutar, parece-me sinal de um desejo de morte. Tender à condição em que nada pode nos chegar vindo de fora, na qual o outro não intervém para desarrumar o estado de integridade a que acreditamos ter chegado, significa invejar a condição dos mortos.

A intolerância é aspiração a que o que é exterior a nós seja igual ao que acreditamos estar dentro de nós, ou seja, uma cadaverização do mundo. De qualquer modo, o intolerante é mortífero; em todo caso, é ele mesmo um morto.”

Estamos rodeados de mortos que querem transformar o mundo numa grande e fedorenta carcaça de intolerância. Existem agora até aqueles que pretendem combater a intolerância com a falta de tolerância, evocando indevidamente o paradoxo da tolerância de Karl Popper. Esses são mortos muito vivos.

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