Ainda há juízes em Brasília?
Ainda há juízes em Brasília? A cada julgamento no STF, a dúvida reaparece na minha cabeça pervertida, visto que vivemos sob democracia plena

Ainda há juízes em Brasília? A cada julgamento no STF, a dúvida reaparece na minha cabeça certamente pervertida, visto que vivemos sob democracia plena, que ninguém ouse arriscar nenhuma interrogação a respeito ou será preso.
É recomendável que nos imbuamos da mesma certeza daquele lendário moleiro de Potsdam, na antiga Prússia do século XVIII.
Resumo o que já é resumido na sua inteireza: ameaçado de ver o seu moinho tomado à força pelo rei Frederico II, então empenhado em construir o Palácio Sans-Souci, o Versailles tedesco, o moleiro respondeu, destemido, que ele só seria obrigado a ceder o moinho se não houvesse juízes em Berlim.
Talvez amolecido pela amizade com o intrépido Voltaire, Frederico II tomou, então, foi simpatia pelo súdito corajoso, e o moinho da lenda continua de pé até hoje ao lado de Sans-Souci. Hospeda um museu.
O poeta e fabulista francês François Andrieux, que também era advogado, foi quem imortalizou o personagem do moleiro na literatura e, como não poderia deixar de ser, na referência douta que passou a ser usada em tribunais e no jornalismo para ilustrar a resistência ao arbítrio.
O que se deixa de lado do poema de Andrieux, intitulado Le Meunier de Sans-Souci (O Moleiro de Sans-Souci), é o final em que ele comenta que Frederico II desistiu de confiscar a propriedade do moleiro, mas não deixou de arrebatar as minas de carvão da Silésia e de incendiar a Europa, porque “tais são os jogos de príncipe: respeita-se um moinho; rouba-se uma província”.
Havia juízes na Berlim do século XVIII, ao menos assim acreditava o moleiro, mas não na Milão do século anterior.
Quase dois anos atrás, estava eu posto em desassossego de viajante, dando braçadas no mar de livros da Feltrinelli de Milano Centrale, em parada obrigatória para pegar o trem para Veneza, depois de passar alguns dias na minha querida Cuneo, quando me deparei com o livro de Alessandro Manzoni cuja leitura sempre adiei: Storia della Colonna Infame (História da Coluna Infame).
Comprei-o para começar a ler ainda naquela viagem à Itália, mas fui abri-lo só agora, depois de prioridades literárias que se intercambiaram.
Manzoni o publicou em 1840. É um ensaio histórico no qual ele trata da peste de 1630, que colocou Milão de joelhos e tem papel importante na composição de I Promessi Sposi (Os Noivos), o grande romance do escritor.
Munido de fontes da época, Manzoni investiga a iniquidade e a violência de um processo judicial contra dois homens do povo, um agente de saúde e um barbeiro, acusados de untar muros da cidade com um unguento pestífero (na época, essa era a crença da causa da epidemia).
Torturado e sob a vaga promessa de permanecer impune, o agente Guglielmo Piazza implica o barbeiro Giangiacomo Mora no crime jamais cometido, mas não escapa de continuar a ser vítima, agora na companhia do suposto cúmplice, dos mais indizíveis suplícios comandados por juízes que não buscavam a verdade, muito menos a Justiça. Em atropelo ao que era o devido processo legal, queriam apenas aplacar a sede de vingança popular movida pela ignorância e pela superstição.
Por ordem dos seus julgadores, ambos foram executados cruelmente na roda que despedaçou os seus corpos já exaustos de tanta tortura.
Igualmente por ordem dos seus julgadores, demoliu-se a casa do barbeiro Mora e, no seu lugar, foi erguida uma coluna de pedra, a Coluna Infame, para que os milaneses nunca se esquecessem dos culpados pela peste.
A coluna foi derrubada no século seguinte, o mesmo do moleiro de Potsdam, o século do Iluminismo. E a infâmia que se eternizou foi a da iniquidade, crueldade e injustiça dos magistrados que torturaram e sentenciaram os inocentes Piazza e Mora.



