
Mario SabinoColunas

A Groenlândia pode ser a Ucrânia do perigosamente ridículo Trump
Como Trump não ganhou o Nobel da Paz, ele se diz ainda mais no direito de roubar a Groenlândia da Dinamarca, e Putin estimula o narcisista
atualizado
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O narcisismo de Donal Trump é doentio ao ponto de ele não identificar o limite que separa o ridículo do muito ridículo.
Ridículo é Trump manifestar o tempo todo o desejo de ganhar o Prêmio Nobel da Paz e reclamar de não ter sido contemplado com a honraria; o muito ridículo é ele aceitar de presente a medalha do Nobel ganho pela venezuelana María Corina Machado, de quem puxou o tapete ao manter a ditadura bolivariana como governo fantoche dos Estados Unidos.
Quando parecia impossível que ele pudesse superar-se nos seus sentimentos grotescos, eis que Trump atravessou o Rubicão em direção ao perigosamente ridículo.
Nesse domingo, o presidente americano respondeu ao apelo do primeiro-ministro norueguês Jonas Gahr para ser ouvido sobre a crise que envolve a Groenlândia, a ilha ártica que Trump quer tomar da Dinamarca, seja por meio de compra ou manu militari.
No último lance das pressões sobre o governo dinamarquês e países europeus solidários a Copenhague, o presidente americano ameaçou impor tarifas de 10% a quem teimasse criar obstáculos à incorporação do território groenlandês aos Estados Unidos.
Em meio a essa confusão, Gahr propôs uma conversa telefônica amigável e recebeu a seguinte mensagem de Trump:
“Caro Jonas, considerando que seu país decidiu não me dar o Prêmio Nobel da Paz por ter interrompido oito guerras, não me sinto mais na obrigação de pensar puramente na paz, embora esse pensamento sempre seja predominante. Agora, porém, posso pensar no que é bom e apropriado para os Estados Unidos da América. A Dinamarca não pode proteger essa terra da Rússia ou da China, e por que ela teria um ‘direito de propriedade’, de qualquer maneira? Não há documentos escritos, foi apenas um barco atracou lá há centenas de anos, mas também tivemos barcos atracando ali. Eu fiz mais pela OTAN do que qualquer outra pessoa desde a sua fundação, e agora a OTAN deve fazer algo pelos Estados Unidos. O mundo não é seguro a menos que tenhamos controle completo e total da Groenlândia. Obrigado!”
É difícil de acreditar, mas é isto mesmo: como Trump não ganhou o Nobel da Paz, ele se disse ainda mais no direito de surrupiar a Groenlândia da Dinamarca, desrespeitando soberanias nacionais e vontades populares, sem nenhum constrangimento.
Não adiantou explicar várias vezes ao narcisista varrido da Casa Branca que não é o governo norueguês que atribui o Nobel da Paz e sim um comitê independente. Mas convenhamos: quando se chega à necessidade de ter de dar esse tipo de explicação, é porque o grau de loucura já atingiu o máximo.
Como todo narcisista doentio, Trump molda o mundo à falsidade da sua autoimagem.
Da maneira como ele fala, parece que a interrupção das guerras a que se refere foram definitivas. Não é verdade. O que há são acordos temporários, e em certos casos nem guerra havia, como na disputa entre Egito e Etiópia.
Outra inverdade cabeluda é a de Trump fez muito pela Otan. Só se foi para enfraquecê-la, tal como demonstra o exemplo mais evidente da Groenlândia.
Estamos assistindo a uma situação inimaginável até um ano atrás: países integrantes da Otan deslocando soldados para a ilha ártica a fim de tentar dissuadir os Estados Unidos, líder da aliança militar ocidental, de uma aventura no território da Dinamarca, um dos aliados mais fiéis dos americanos.
É mentira também que a Groenlândia seja terra desprotegida contra russos e chineses.
Em primeiro lugar, nunca foram detectados ou avistados submarinos e navios militares da Rússia e da China rondando a ilha ártica, como disse em entrevista ao jornal francês Le Monde o comandante das forças dinamarquesas na Groenlândia, o general Soren Andersen.
Outra balela é que a Dinamarca só tem “dois trenós puxados por cachorros para proteger o território. “São seis, e extremamente confiáveis”, brincou o comandante na entrevista.
Na verdade, a Groenlândia é bem vigiada pela Otan, conta com um base aérea americana capaz de desencorajar qualquer ameaça inimiga, e os Estados Unidos sempre estiveram livres para construir mais bases por lá — ou reativar as que tinham durante a Guerra Fria e que foram abandonadas depois do desmantelamento da União Soviética.
Quanto ao fato de a Groenlândia ser território dinamarquês porque “apenas um barco atracou lá há centenas de anos”, trata-se de argumento que cherokees e apaches poderiam usar para reivindicar boas porções dos Estados Unidos.
O aspecto que seria irônico, não fosse cínico, é que a Rússia não vê com maus olhos a incorporação da Groenlândia por Trump. Adotou um discurso neutro na superfície para estimular o presidente americano no seu expansionismo neocolonial.
O Kremlin afirmou que Trump entraria para história se conseguisse anexar o território dinamarquês, e Vladimir Putin observou que não há nada de espantoso nos Estados Unidos cobiçarem a Groenlândia.
O tirano russo disse a apaniguados, como se fosse historiador desinteressado, que é uma antiga pretensão americana e lembrou que a compra do Alasca, que era da Rússia, também foi motivo de zombaria no século XIX, mas que a aquisição acabou se revelando um bom negócio para os americanos.
Para Putin, o ótimo negócio é provocar ao máximo uma cisão entre Estados Unidos e aliados da Otan para quem sabe extinguir na prática a aliança militar ocidental.
O caminho ficaria livre, assim, para ele prosseguir na sua ambição de refazer o império russo na Europa, e com o aval tácito de Trump, que teria na Groenlândia a sua Ucrânia, no final das contas.
Talvez seja o caso de dar logo ao presidente americano o Prêmio Nobel da Paz. Talvez o suficientemente ridículo seja capaz de deter o perigosamente ridículo.