
Mario SabinoColunas

Venezuela: os fatos que levaram Trump a recusar apoio a María Corina
O New York Times traz hoje um contexto que, se não justifica totalmente a atitude de Trump de transigir com ditadura, leva à reflexão
atualizado
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Ontem, escrevi que Donald Trump cometia um erro ao transigir com a ditadura venezuelana depois de ter capturado Nicolás Maduro. Afirmei que essa transigência era uma traição à oposição liderada por María Corina Machado.
Ainda sou da mesma opinião, mas o New York Times trouxe hoje um contexto que, se não justifica totalmente a atitude de Trump, leva à reflexão.
De acordo com o jornal, o presidente americano foi convencido pelo seu entorno de que o apoio dos Estados Unidos à oposição, neste momento, desestabilizaria ainda mais a Venezuela e talvez exigisse uma presença militar mais robusta em território venezuelano.
A relação entre a Casa Branca e María Corina Machado vinha se deteriorando, desde há muito, por causa das avaliações imprecisas que ela passava a Washington sobre a fragilidade do regime.
Houve uma situação, em especial, que desagradou à Casa Branca, segundo o New York Times. Antes de fazer uma visita a Caracas, em janeiro passado, o encarregado do governo americano para assuntos relativos à Venezuela, Richard Grenell, teve um encontro com representantes da oposição venezuelana, em Washington.
Nesse encontro, Grenell pediu que se organizasse um encontro dele com María Corina, em Caracas. Mas ela se recusou a reunir-se com ele, apesar de todas as garantias de segurança que lhe foram dadas. A conversa entre ambos foi apenas telefônica.
Os Estados Unidos pediram à oposição venezuelana uma lista de prisioneiros políticos, mas o pedido foi ignorado. Aparentemente, diz o jornal, para evitar acusações de favoritismo (não entendi essa parte: há prisioneiros políticos que não seriam incluídos na lista?) e insinuações de que a oposição estaria participando de negociações com o regime — o que, acho, não faz sentido.
O New York Times publicou que Grenell “pressionou reiteradamente a Sra. Machado para que ela apresentasse o seu plano para empossar o seu candidato substituto, Edmundo González, depois que ela foi impedida de concorrer. Ele ficou frustrado quando ela não apresentou ideias concretas sobre como colocar o governo democraticamente eleito no poder, de acordo com pessoas informadas sobre a conversa”.
Outro ponto ruim: María Corina teria destruído as suas relações com a elite empresarial venezuelana ao apoiar sanções econômicas contra a Venezuela, sanções que aumentavam as dificuldades de quem havia encontrado uma forma de continuar trabalhando no país.
As declarações de assessores da líder oposicionista de que cada dólar que entrava na Venezuela servia para financiar o regime também distanciou integrantes da sociedade civil empenhados em melhorar as condições de vida da população.
Há de se reconhecer que, depois de mais de duas décadas sob o tacão de uma ditadura feroz, a oposição venezuelana produziu ótimos símbolos, não boas estratégias. E isso contribui para dar sobrevida à ditadura bolivariana.