Mario Sabino

Trump capturou Maduro, mas erra ao transigir com ditadura na Venezuela

Trump violou o direito ao prender Maduro, chefe de bando violador de todos os direitos. Mas dois erros poderiam ter resultado em acerto

atualizado

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Nicolás Maduro capturado EUA --Metrópoles
1 de 1 Nicolás Maduro capturado EUA --Metrópoles - Foto: Reprodução/X

Antes de mais nada, é preciso apontar o espetáculo de cinismo de petistas indignados com a captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro, sob a alegação de violação do direito internacional.

Por mais de vinte anos, sem preocupar-se com direito nenhum, muito menos com qualquer aspecto moral, Lula e o PT apoiaram um regime brutal, sanguinário, criminoso, que levou quase 8 milhões de venezuelanos a sair do seu país.

Soberania nacional e autodeterminação dos povos são princípios fundamentais da Carta da Onu, o documento fundador das Nações Unidas que estabelece as linhas pelas quais os países devem guiar-se nas relações internacionais.

Refém de uma organização criminosa, a Venezuela e os venezuelanos não têm nem uma, nem outra. A soberania do país foi ferida de morte pela ditadura bolivariana, que conta com suporte estrangeiro — cubano, russo, iraniano e o de traficantes colombianos — para oprimir o próprio povo.

A autodeterminação do povo venezuelano, por sua vez, é uma farsa encenada pelo bando chefiado por Nicolás Maduro, como pôde ser didaticamente constatado pela fraude na eleição presidencial de 2024, que impediu que a oposição, vitoriosa nas urnas, assumisse o poder.

Antes, portanto, de os Estados Unidos violarem o direito internacional ao capturar Nicolás Maduro, sob a acusação de ser um narcoterrorista perigoso para a segurança nacional americana, o ditador e os seus asseclas já vinham estuprando todos os princípios e direitos sobre os quais se ergue a civilização.

Dois erros teriam resultado em acerto, contudo, se Trump justificasse a captura de Maduro com a intenção principal de propiciar aos venezuelanos um governo legítimo que fosse constituído no menor espaço de tempo possível.

Nesse caso, apenas os suspeitos de sempre levantariam a voz para gritar contra a violação do direito internacional, que, aliás, nunca poderia servir de valhacouto para tiranos, assunto extenso demais para ser tratado aqui.

O quadro é outro, no entanto, a julgar pelo que dizem Trump e o seu secretário de Estado, Marco Rubio. Em meio à névoa e às contradições nas falas de ambos, o sentido do que foi afirmado até o momento é o de transigência com a ditadora substituta, essa inefável Delcy Rodríguez.

Para que não haja nova intervenção militar americana na Venezuela e nada mude muito por lá, ao menos no médio prazo, eles dão a entender que basta que Delcy e os demais facínoras bolivarianos não imponham obstáculos a que companhias dos Estados Unidos voltem a atuar no setor petrolífero venezuelano. Inclusive com a obtenção de indenizações bilionárias pelas perdas financeiras que tais companhias tiveram com a nacionalização promovida ainda no tempo de Hugo Chávez.

Os americanos acenam até com a possibilidade de se tornarem sócios do governo da Venezuela na exploração das gigantescas reservas de petróleo ali existentes e na recuperação da infraestrutura do país.

Nesse arranjo, o regime ditatorial teria também de dançar na política externa conforme a música regida a partir de Washington, afastando-se dos aliados chineses, russos, iranianos e cubanos.

Sem o petróleo praticamente doado pela Venezuela, o regime cubano, do qual o bolivariano é decalque, pode sucumbir de vez ao seu próprio fracasso. Trump, assim, finalmente atingiria um objetivo perseguido pelos Estados Unidos desde que Fidel Castro transformou a ilha que era inferninho americano das perdições capitalistas em sucursal caribenha dos ínferos comunistas.

O simbolismo da derrota cubana para o capitalismo seria espetacular, mas é para a China, essencialmente, que Trump quer mostrar quem manda não apenas na Venezuela, mas na América Latina inteira, o subcontinente que tem relevância proporcional às suas imensas riquezas naturais no desenho com o qual os chineses visam a conquistar a hegemonia planetária, como superpotência total que ambicionam ser.

Nesse duro jogo geopolítico, para o qual Trump atualizou a Doutrina Monroe, dando real significado ao neocolonialismo, como desnuda a estratégia de segurança nacional divulgada por seu governo em dezembro, o restabelecimento da democracia na Venezuela tem papel menor.

Na minha opinião, além de representar uma traição à oposição liderada por María Corina Machado, por quem o presidente americano nutre inveja indisfarçável pelo Nobel da Paz de que ele se julga o verdadeiro merecedor, é apostar no erro deixar a  redemocratização venezuelana em segundo ou terceiro plano, bem como voltar a fazer bulliyng imperialista com latino-americanos.

Afinal de contas, o produto mais valioso da pauta de exportações dos Estados Unidos é, desde o final da Segunda Guerra, e na América Latina desde a presidência de Jimmy Carter, a liberdade em todas as suas versões ou, vá lá, certa ilusão dela, a hipocrisia como velha homenagem do vício à virtude, não como o vergonhoso espetáculo de cinismo continuamente encenado pela esquerda em todas as latitudes.

É o que diferenciava os americanos dos soviéticos, para grande vantagem competitiva dos primeiros: a liberdade (política, econômica, comportamental, democrática) como motor de um soft power inigualável. Deveria continuar a ser também o que os diferencia dos chineses, se os Estados Unidos quiserem vencer, mantendo a sua alma, essa segunda partida — que se afigura bem mais complicada do que a primeira.

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