
Mario SabinoColunas

Trump e seu negociador especial esfaqueiam a Ucrânia pelas costas
Trump e Steve Witkoff tentaram empurrar uma capitulação ditada pelos russos goela abaixo de Zelensky, como se fosse “plano de paz”
atualizado
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A agência de notícias Reuters revelou ontem que o plano paz de 28 pontos que Donald Trump queria enfiar goela abaixo de Volodymyr Zelensky, publicado pelo site Axios há uma semana, baseou-se inteiramente em uma lista de condições entregue pela Rússia aos Estados Unidos, em outubro, em caráter não-oficial.
A reportagem da Reuters confirma, assim, a desconfiança de que o governo americano limitou-se a acrescentar alguns pontos ao documento, traduzindo (mal) para o inglês todas as exigências ditadas pelo Kremlin. Tais exigências significariam, praticamente, a capitulação da Ucrânia, com a entrega de territórios que os russos não conseguiram conquistar em quase quatro anos de guerra, a diminuição drástica do exército ucraniano e a proibição definitiva da Ucrânia de integrar a Otan.
“O plano foi elaborado, pelo menos em parte, durante uma reunião entre o genro de Trump, Jared Kushner, o enviado especial (para fazer a negociação entre Kiev e Moscou) Steve Witkoff e Kirill Dmitriev, diretor de um dos fundos soberanos da Rússia, em Miami, no mês passado. Poucos dentro do Departamento de Estado e da Casa Branca foram informados sobre esse encontro”, diz a Reuters.
A agência de notícias foi elegante. Ao que tudo indica, nem mesmo o secretário de Estado, Marco Rubio, foi colocado a par dessa conversa.
É quase certo que o documento com as exigências russas repassado aos americanos e apresentado cinicamente aos ucranianos como se fosse da lavra de Washington nasceu de uma conversa de entre Witkoff e Dmitriev. A agência de notícias Bloomberg publicou, na terça-feira, transcrições de um diálogo telefônico entre o americano e o russo, que data de outubro.
No diálogo, há a menção à possível confecção de um “plano de 20 pontos”, semelhante ao que foi levado à mesa de negociações entre israelenses e terroristas palestinos. O “plano”, ao que tudo indica, foi estendido em mais 8 pontos, sem que houvesse, repita-se o absurdo, a participação, o aval ou mesmo o conhecimento dos negociadores ucranianos.
A conversa é escandalosa, porque Witkoff, que deveria ser um negociador imparcial, mostra ter lado, o da Rússia. No diálogo com Dmitriev, o americano diz ao russo que seria bom que Vladimir Putin, por quem ele enfatiza ter “o máximo respeito”, telefonasse para Trump antes do encontro do presidente americano com Zelensky, na Casa Branca. A entrelinha é que, desse modo, Putin poderia neutralizar eventuais entendimentos entre ambos.
Witkoff sugere também como o tirano russo deveria abordar Trump e afirma que “sabe” que, para chegar a um acordo de paz, a Ucrânia deve ceder a região de Donestk e fazer “talvez uma troca de territórios em algum lugar”. Exatamente como consta no “plano de paz” escrito pelos russos.
Ao tentar impingir essa capitulação a Zelensky, o presidente americano mais uma vez ameaçou cessar completamente a entrega de armas à Ucrânia e reclamou da “falta de gratidão” dos ucranianos.
A vida é dura para o presidente ucraniano e, depois de ser esfaqueado pelas costas, Zelensky se viu na contingência de fazer um agradecimento surrealista a Trump via redes sociais, enquanto pedia mais uma vez a intercessão dos europeus.
A lista de exigências russas transmutou-se, então, em um real plano de paz de 19 pontos, no qual se joga para a frente a negociação sobre a cessão de territórios não conquistados pelos russos e a possível adesão da Ucrânia à Nato.
O plano tecido com os europeus estabelece, ainda, que os ucranianos poderão manter um exército de 800 mil soldados, o que já o faria o maior da Europa em tempos de paz, à exceção do da Rússia, e dá garantias de segurança verdadeiras a Kiev, em caso de nova invasão russa.
Com os europeus na retaguarda, os ucranianos conseguiram ter uma conversa civilizada com o igualmente traído Rubio, que correu para Genebra para consertar a lambança. Onze horas de negociação depois, Rubio saiu dizendo que havia ocorrido um avanço tremendo, e Zelensky afirmou estar pronto para negociar a paz.
É improvável, porém, que Putin aceite qualquer condição fora da lista ditada por ele. O tirano russo não se incomoda que o seu exército continue a avançar lentamente na Ucrânia ao preço de uma carnificina em ambos os lados. Ele sabe que Trump, apesar do teatro de idas e vindas, é seu aliado para empurrar a Ucrânia exaurida em direção à rendição. Basta ver como ele diminuiu o fornecimento de armas a Kiev.
A capitulação dos ucranianos, que significaria um prêmio à Rússia por violar o direito internacional com a agressão a um país vizinho, somente dará fôlego a Putin para que leve a cabo o seu sonho imperialista de ressuscitar a União Soviética, ao qual ele jamais renunciará.
O sonho imperialista do tirano se mistura a um objetivo místico: o de reunir Rússia, Bielorússia e Ucrânia (toda) sob o Patriarcado de Moscou. Do documento russo vendido como “plano de paz”, constava, aliás, a exigência de que a Ucrânia permitisse que a Igreja Ortodoxa Russa voltasse a atuar em seu território.
Ao mesmo tempo que tenta participar das negociações entre ucranianos, russos e americanos, alijada da mesa que foi por Trump e Putin, a Europa (com a Alemanha à frente) começa a se rearmar para um inevitável confronto direto com os russos, que nunca interromperam a sua guerra híbrida contra os vizinhos ocidentais. Derrotar a Rússia na Ucrânia é a única forma de impedir que o pior aconteça, mas a sabotagem do presidente americano é intransponível.
Hoje, por exemplo, a França, única potência nuclear da União Europeia, e que dispõe atualmente do exército mais poderoso entre as nações do bloco, restabeleceu o serviço militar voluntário, em decisão que parece ser antecipação da reintrodução do serviço obrigatório. Na semana passada, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas francesas, Fabien Mandon, disse que o país tem de aceitar a ideia de “sacrificar os seus filhos”.
Na Ásia, por sua vez, as tensões entre China e Japão são crescentes por causa de Taiwan. Trump dá sinais de que aceitaria que a ilha fosse anexada por Pequim, em mais uma traição a um aliado histórico, o que é intolerável para Tóquio, outro aliado americano. Trump advertiu a primeira-ministra japonesa, Sanae Takichi, para baixar o tom contra a China, mas uma escalada ali se torna cada vez mais visível no horizonte.
O presidente americano proclama ser um pacificador, mas a sua paz exige a submissão completa dos que ele julga serem os mais fracos aos que considera serem os mais fortes. É uma visão esquemática que subestima a capacidade de resistência de grandes nações e que abre caminho para a paz dos cemitérios. Serei redundante na minha visão apocalíptica: os preâmbulos das duas guerras mundiais já eram guerras mundiais, e estamos vivendo o prólogo da terceira. Ou seja.