Mario Sabino

O que estará em discussão hoje na Casa Branca é a rendição da Ucrânia

A proposta de paz feita por Putin a Trump significa a rendição da Ucrânia e a ruptura do direito internacional

atualizado

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1 de 1 Imagem colorida mostra Donald Trump e Volodymyr Zelensky - Metrópoles - Foto: Andrew Harnik/Getty Images

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, voltará hoje à Casa Branca, onde foi humilhado publicamente por Donald Trump e J.D. Vance há seis meses, em um dos espetáculos mais vexaminosos da história recente dos Estados Unidos.

De acordo com o site Axios, a Casa Branca procurou saber se, desta vez, Zelensky usará terno. No circo montado por Trump há seis meses, até a indumentária do presidente ucraniano foi objeto de ironia e reprimenda, como se fosse sinal de falta de respeito.

Não se sabe, ainda, se Zelensky aparecerá de terno, mas ele terá guarda-costas políticos.

O francês Emmanuel Macron, a italiana Giorgia Meloni, o alemão Friedrich Merz, o britânico Keir Starmer, o finlandês Alexander Stubb estarão presentes ao encontro com o presidente americano, além da presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, e do secretário-geral da Otan, Mark Rutte.

Os líderes europeus tentarão evitar constrangimentos e também negociar uma solução que seja minimamente honrosa para a Ucrânia, além de tranquilizadora, na medida do possível, para a aliança militar atlântica.

Até sexta-feira passada, acreditava-se que Donald Trump havia se dado conta, finalmente, de que Vladimir Putin é um personagem indigno de confiança.

O tapete vermelho que o presidente americano estendeu ao tirano russo no Alasca desfez essa ilusão. Trump proporcionou a Vladimir Putin que pudesse vender ao seu público interno e aos seus aliados externos a imagem de líder legítimo, que recuperou a grandiosidade da Rússia no plano internacional.

Putin não ofereceu a Trump o que ele queria: um cessar-fogo. Bastou-lhe ser bajulatório, repetindo a cantilena do presidente americano de que a guerra da Ucrânia não teria começado, em 2022, se ele estivesse na Casa Branca.

Para bom entendedor, o que o tirano quis dizer é que, houvesse Trump sido reeleito, a Ucrânia teria sido obrigada a ceder territórios à Rússia porque não receberia dinheiro e armamentos americanos.

No lugar de um cessar-fogo, Putin propôs a Trump uma paz imediata que não passa de rendição ucraniana. Quer que o país vizinho ceda a região de Donbas, não inteiramente conquistada pela Rússia depois de mais três anos de combates.

O tirano também continua a exigir que a Ucrânia não entre para a Otan (o que, de resto, nunca foi realmente possível), que não se integre à União Europeia, que renuncie a ter um exército digno desse nome e que adote o russo como língua oficial, ao lado do ucraniano. Aparentemente, o presidente americano acha todas as exigências razoáveis.

A única concessão feita por Putin é que agora ele admite que o Ocidente dê garantias de segurança aos ucranianos contra novas agressões da Rússia — e Trump, ao que parece, passou a aceitar que os americanos componham a rede de proteção militar da Ucrânia ao lado dos europeus.

A proposta esboçada pela Europa, que partiu de Giorgia Meloni e conta com a simpatia de Trump, é que se estenda aos ucranianos a cláusula 5 do acordo da Otan, segundo a qual um ataque a um dos seus países é considerado uma agressão a todos.

Já existem, no entanto, fricções entre os europeus, como não poderia deixar de ser. Emmanuel Macron quer estacionar tropas em território ucraniano; Giorgia Meloni é contra — e ninguém sabe como é que Trump pensa em garantir militarmente a segurança da Ucrânia, no caso de ser assinado o acordo de paz. Talvez haja uma resposta hoje.

O que é certo é que Putin não desistiu de anexar a Ucrânia, e o fato de ainda não ter conseguido fazê-lo é colocado como vitória aos ucranianos para que concordem em ceder Donbas à Rússia e renunciar de uma vez à Crimeia, anexada por Moscou em 2014. É uma vitória, sem dúvida, mas a cessão de territórios recompensa o inimigo criminoso.

A paz que o tirano almeja neste momento é apenas para consolidar a presença russa nos territórios ocupados e tomar fôlego para voltar às suas guerras de conquista na Europa, parte fundamental do seu sonho insano de recriar a União Soviética.

Calculista, Putin conta com o passado para planejar o futuro. Em 1994, quando Estados Unidos e Reino Unido convenceram os ucranianos a devolver aos russos o arsenal nuclear remanescente da União Soviética, ambos os países, secundados por França e China, asseguraram que a soberania da Ucrânia seria respeitada e protegida contra eventuais agressões russas, e a própria Rússia se comprometeu a respeitar as fronteiras com o país vizinho.

O que se provou é que a palavra russa não vale um rublo furado e que o Ocidente também não é dado a cumprir acordos na íntegra. Putin aposta que as garantias de segurança americanas e europeias serão outra vez muito relativas quando ele retomar o seu objetivo de anexar a Ucrânia ou, no mínimo, de instalar um governo fantoche em Kiev, nos moldes da Bielo-Rússia.

A paz proposta por Putin significa a rendição dos ucranianos, edulcorada pelas tais garantias de segurança, e a ruptura do direito internacional. Se vier a ser aceita no todo ou parcialmente, só representará um intervalo para o tirano russo.

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