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Ilca Maria Estevão

Moda e psicologia: o impacto do vestuário na mente humana

O papel das roupas na psicologia humana pode ser explicado por conceitos como a cognição vestida e a Teoria da Identidade Social

Edward Berthelot/Getty Images
Moda e saúde mental - Metrópoles

A relação entre moda e saúde mental é uma temática que vem sendo cada vez mais explorada nos últimos anos.  Abordagens já consolidadas na psicologia e novos termos têm sido usados para explicar os fenômenos dessa relação, tornando-a cada vez mais complexa. Um dos conceitos que melhor explica esse fato é o Enclothed Cognition, traduzido como cognição vestida, que contempla a ideia de que vestir certas roupas consegue afetar a maneira de pensar e agir das pessoas. Além dele, a Teoria da Identidade Social e a Teoria das Cores também são utilizadas para explicar o vestuário enquanto uma ferramenta da psicologia.

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Edward Berthelot/Getty Imagesjovens vestindo roupas coloridas - Metrópoles
O vestuário demonstra ter uma forte relação com questões da psicologia e saúde mental

A cognição vestida

A Enclothed Cognition, traduzida como cognição vestida, é um termo formulado pelos pesquisadores Hajo Adam e Adam D. Galinsky, que defende que as roupas afetam diretamente processos cognitivos, atitudes, emoções e o desempenho mental de quem as veste. A teoria faz parte da gama de conceitos da psicologia que argumentam que a mente humana não é desconexa do corpo, ou seja, o cérebro não funciona apenas para o processamento de dados.

Raimonda Kulikauskiene/Getty ImagesVestuário e saúde mental - Metrópoles
A cognição vestida define que as roupas tem impactos mentais e cognitivos em quem as veste

De acordo com os autores, para que a cognição vestida ocorra, é necessário a junção de dois fatores: o significado simbólico da roupa e a experiência física de usá-la. O primeiro diz respeito ao valor cultural que a peça adquire na sociedade. Roupas como jalecos médicos, por exemplo, remetem à ideia de ciência e atenção; ternos são relacionados com autoridade; e roupas esportivas contemplam ideia de disposição física.

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Conjuntamente, a experiência física diz respeito ao fato de a pessoa usar efetivamente a peça, ou seja, não basta apenas olhar, é preciso sentir o tecido na pele.

Moritz Scholz/Getty ImageVestuário e saúde mental - Metrópoles
A cognição vestida depende do valor simbólico que a peça recebe, unido ao ato de vestir a peça, não apenas olhar

Para formular a teoria, os pesquisadores realizaram um experimento com jalecos brancos. Eles dividiram os participantes em três grupos: para o primeiro, relataram que a peça se tratava de um jaleco médico; para o segundo afirmaram que era um jaleco de pintor; e os terceiros ficaram apenas observando a peça. O resultado mostrou que o grupo com os “jalecos de médico” teve um desempenho muito superior em teste de atenção seletiva, além de ter cometido menos erros que os outros dois grupos.

Pi/FlickrJalecos brancos
Experimento do jaleco foi usado para formular o conceito de cognição vestida

No cotidiano, alguns dos exemplos em que a cognição vestida é aplicada são em trabalhos remotos, em que trocar o pijama por roupas casuais aumenta os níveis de foco e reduz a sonolência; ao usar roupas de ginástica para ativar uma mentalidade de movimento e disciplina física; e utilizar peças e acessórios formais para aumentar a sensação de poder interpessoal.

Assim, a cognição vestida revela uma relação entre o ato de vestir com o mundo e com os objetivos pessoais. Indo nessa mesma ideia, o fenômeno também entende que se vestir sem propósito funciona como uma forma de autossabotagem irracional para não atingir os objetivos desejados.

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A cognição vestida explica que se vestir sem propósito também pode ser uma forma de autossabotagem irracional

Teoria da Identidade Social e a Teoria das Cores

Unem-se ao conceito da cognição vestida a Teoria da Identidade Social, a Teoria das Cores, e o conceito de âncora psicológica. Esse último descreve uma técnica da psicologia para criar gatilhos mentais que ativam sentimentos, pensamentos e estados emocionais.

Já a Teoria da Identidade Social, formulada pelos psicólogos Henri Tajfel e John Turner, diz respeito ao desejo de um indivíduo de se enquadrar ao grupo social em que está inserido, dessa forma, ele acaba desenvolvendo características e desejos semelhantes aos demais.

A premissa fundamental dessa teoria é que atribuímos valor a nós mesmos a partir dos grupos que pertencemos: o país, a profissão, o time de futebol, a religião e até mesmo o partido político. Dessa forma, as escolhas de roupas também recebem a influência dessas comunidades.

Maskot/Getty ImagesVestuário e saúde mental - Metrópoles
A Teoria da Identidade Social demonstra o impacto das comunidades externas nas decisões dos indivíduos

Já a Teoria das Cores, mesmo não tendo relação direta com a psicologia, traz o estudo sobre as relações harmônicas e os sentimentos despertados pelas cores. Ela pode explicar por que pessoas com depressão e ansiedade social tendem a escolher roupas mais fechadas, folgadas e de cores neutras, e também o surgimento de estéticas como o dopamine dressing, marcada pela escolha de roupas maximalistas e coloridas.

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Dopamine dressing é marcado por um visual maximalista e colorido
Dopamine dressing se populariza em épocas de crises mundiais, como durante a Covid-19, em 2020
Dopamine dressing em um visual color blocking
Dopamine dressing traz a ideia de "liberar dopamina" a partir das roupas
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Dopamine dressing traz a ideia de "liberar dopamina" a partir das roupas

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Dopamine dressing é marcado por um visual maximalista e colorido
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Dopamine dressing é marcado por um visual maximalista e colorido

Matthew Sperzel/Getty Images
Dopamine dressing se populariza em épocas de crises mundiais, como durante a Covid-19, em 2020
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Dopamine dressing se populariza em épocas de crises mundiais, como durante a Covid-19, em 2020

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Dopamine dressing em um visual color blocking
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Dopamine dressing em um visual color blocking

Milky Way/Getty Images

A relação entre autoestima e as cores

A psicologia também propõe explicações sobre a escolha de certas cores e os sentimentos dos indivíduos. Psicólogos explicam que pessoas com baixa autoestima tendem a optar por cores que podem passar despercebidas, evitando chamar a atenção.

Os profissionais identificam que cores como preto, cinza, azul-escuro, bege e tons terrosos opacos costumam estar relacionados a essas pessoas.

Valentina Frugiuele/Getty ImagesMulher vestida de preto - Metrópoles
Preto é uma cor muito usada por pessoas com baixa autoestima, por funcionar como uma proteção emocional e desejo de não se destacar

Entretanto, essa relação não é automática. O significado é construído a partir do contexto emocional e da repetição das escolhas dos indivíduos.

Anthony Tran/UnsplashMulher sentada em frente a janela - Metrópoles
As cores não significam baixa autoestima por si só, mas estão relacionadas com contextos emocionais e padrões de repetição de escolhas
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