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Ilca Maria Estevão

Entenda o papel histórico do batom vermelho na luta feminina

Símbolo de empoderamento, independência e emancipação, o batom vermelho ganhou significados além da estética com o passar das décadas

Christopher Polk/Variety via Getty Images; Taylor Hill/FilmMagic via Getty Images; Aeon/GC Images via Getty Images
foto com cor. artistas usando batom vermelho - metrópoles

Ao longo do tempo, o batom vermelho foi associado à luta feminina de diferentes maneiras. Seja como símbolo de independência e emancipação ou como ferramenta otimista para enfrentar tempos de guerra, o cosmético ganhou um significado que vai além da estética. Mais do que um simples item de maquiagem, ele passou a representar afirmação, resistência e a presença das mulheres em espaços historicamente negados a elas.

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Sonia Moskowitz/Getty Imagesfoto com cor. Madonna usando batom vermelho - metrópoles
Madonna usando batom vermelho

Movimento Sufragista

Foi durante o movimento sufragista nos Estados Unidos, no início do século 20, que o batom vermelho começou a ganhar um contorno político. Em 1912, durante uma marcha pelo direito ao voto feminino em Nova York, a empresária de cosméticos Elizabeth Arden distribuiu batons vermelhos para as manifestantes.

Museum of London/Heritage Images/Getty Imagesfoto com cor. roxo na luta feminina - metrópoles
O movimento sufragista feminino ganhou força no final do século 19 e início do século 20, reivindicando o direito ao voto para as mulheres

Até então, a cor era frequentemente associada por homens a atrizes e prostitutas, o que carregava um estigma de inferioridade e a ideia de que mulheres que usavam batom seriam menos “respeitáveis”. Portanto, usá-lo tornou-se um gesto simbólico: mulheres que lutavam por direitos também reivindicavam o direito de ocupar o espaço público e expressar sua feminilidade.

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Mondadori via Getty Imagesfoto com cor. Ativista Elizabeth Arden - metrópoles
Ativista Elizabeth Arden

Além disso, após a Primeira Guerra Mundial, as mulheres passaram a integrar a força de trabalho, tendo assim seu próprio dinheiro para investir em cosméticos. Logo, o ato de adquirir um batom se tornou um sinônimo de poder por si só. A cor vermelha se tornou frequente no cotidiano feminino e, ao longo das décadas, consolidou-se como um símbolo de resistência e autonomia.

David Pollack/CORBIS/Corbis via Getty Imagesfoto com cor. Pôster da Primeira Guerra Mundial - metrópoles
Pôster da Primeira Guerra Mundial

Segunda Guerra Mundial

Já na Segunda Guerra Mundial, o batom vermelho ganhou outra camada de significado. O período foi marcado pelo patriotismo e pela mudança nos papéis sociais das mulheres, que foram introduzidas ao trabalho nas fábricas e em linhas de montagem, além de integrarem as forças armadas.

Reg Speller/Fox Photos/Getty Imagesfoto preto e branco. mulher no serviço militar - metrópoles
O batom vermelho se tornou parte do uniforme feminino

Apesar do contexto político, itens de maquiagem não saíram da lista de prioridades. Na época, o otimismo feminino nos Estados Unidos era fortemente incentivado sob o lema “Beauty was your duty” (A beleza era seu dever, em tradução livre). A campanha encorajava o uso do batom vermelho como um ato de resistência e feminilidade e uma forma de manter o moral das mulheres que trabalhavam e sustentavam a vida cotidiana.

Minnesota Historical Society/CORBIS/Corbis via Getty Imagesfoto com cor. Pôster da Segunda Guerra Mundial - metrópoles
Pôster da Segunda Guerra Mundial

Em 1940, a ativista Elizabeth Arden criou a tonalidade Montezuma Red especificamente para mulheres no serviço militar. O produto combinava com o uniforme da época e foi presenteado em kits para as trabalhadoras. O batom se tornou tão popular que, por alta demanda do público, foi criada a versão Victory Red, que segue no catálogo da marca de cosméticos Bésame até hoje.

Bésame/Divulgaçãofoto com cor. Batom Victory Red, da Bésame - metrópoles
Batom Victory Red, da Bésame

Além do contexto estadunidense, relatos históricos indicam que Hitler detestava batom vermelho pois contrariava seu conceito de pureza feminina. Fator que reforçou simbolicamente o uso da cor como oposição ao nazismo, em um ato de rebeldia silenciosa.

Galerie Bilderwelt/Getty Imagesfoto com cor. Mulheres em Berlim, na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial - metrópoles
Mulheres em Berlim, na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial

Significado para mulheres negras

Apesar de o batom vermelho ter se tornado, ao longo da história, um símbolo de poder e identidade feminina, muitas mulheres negras apontam que a tonalidade recebia conotações diferentes quando usada por elas. Na mídia e na cultura popular, o estereótipo da mulher negra excessivamente sensual era frequentemente reforçado por representações de lábios grandes pintados de vermelho, muitas vezes retratados de forma caricata.

Anwar Hussein/Hulton Archive/Getty Imagesfoto com cor. Tina Turner usando batom vermelho nos anos 1970 - metrópoles
Tina Turner usando batom vermelho nos anos 1970

Um exemplo marcante é a figura da Mammy, caricatura que retratava mulheres afro-americanas como cuidadoras dóceis e dedicadas aos filhos brancos de seus patrões. Essa representação ajudava a banalizar a violência da escravidão e do racismo, ao mesmo tempo em que reduzia mulheres negras a papéis servis e estereotipados.

Transcendental Graphics/Getty Imagesfoto com cor. Boneca Mammy de papel - metrópoles
Boneca Mammy montável de papel, caricatura que reforçava estereótipos racistas

O batom vermelho na contemporaneidade

Nas décadas seguintes, especialmente com as ondas do feminismo a partir dos anos 1960 e 1970, o batom vermelho passou a representar algo mais complexo: a ideia de que feminilidade e poder não são opostos. Hoje, ele aparece em campanhas feministas, performances artísticas e protestos como um gesto de autoafirmação, visibilidade e liberdade sobre o próprio corpo.

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