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Entenda o papel histórico do batom vermelho na luta feminina
Símbolo de empoderamento, independência e emancipação, o batom vermelho ganhou significados além da estética com o passar das décadas
atualizado
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Ao longo do tempo, o batom vermelho foi associado à luta feminina de diferentes maneiras. Seja como símbolo de independência e emancipação ou como ferramenta otimista para enfrentar tempos de guerra, o cosmético ganhou um significado que vai além da estética. Mais do que um simples item de maquiagem, ele passou a representar afirmação, resistência e a presença das mulheres em espaços historicamente negados a elas.
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Movimento Sufragista
Foi durante o movimento sufragista nos Estados Unidos, no início do século 20, que o batom vermelho começou a ganhar um contorno político. Em 1912, durante uma marcha pelo direito ao voto feminino em Nova York, a empresária de cosméticos Elizabeth Arden distribuiu batons vermelhos para as manifestantes.

Até então, a cor era frequentemente associada por homens a atrizes e prostitutas, o que carregava um estigma de inferioridade e a ideia de que mulheres que usavam batom seriam menos “respeitáveis”. Portanto, usá-lo tornou-se um gesto simbólico: mulheres que lutavam por direitos também reivindicavam o direito de ocupar o espaço público e expressar sua feminilidade.

Além disso, após a Primeira Guerra Mundial, as mulheres passaram a integrar a força de trabalho, tendo assim seu próprio dinheiro para investir em cosméticos. Logo, o ato de adquirir um batom se tornou um sinônimo de poder por si só. A cor vermelha se tornou frequente no cotidiano feminino e, ao longo das décadas, consolidou-se como um símbolo de resistência e autonomia.

Segunda Guerra Mundial
Já na Segunda Guerra Mundial, o batom vermelho ganhou outra camada de significado. O período foi marcado pelo patriotismo e pela mudança nos papéis sociais das mulheres, que foram introduzidas ao trabalho nas fábricas e em linhas de montagem, além de integrarem as forças armadas.

Apesar do contexto político, itens de maquiagem não saíram da lista de prioridades. Na época, o otimismo feminino nos Estados Unidos era fortemente incentivado sob o lema “Beauty was your duty” (A beleza era seu dever, em tradução livre). A campanha encorajava o uso do batom vermelho como um ato de resistência e feminilidade e uma forma de manter o moral das mulheres que trabalhavam e sustentavam a vida cotidiana.

Em 1940, a ativista Elizabeth Arden criou a tonalidade Montezuma Red especificamente para mulheres no serviço militar. O produto combinava com o uniforme da época e foi presenteado em kits para as trabalhadoras. O batom se tornou tão popular que, por alta demanda do público, foi criada a versão Victory Red, que segue no catálogo da marca de cosméticos Bésame até hoje.

Além do contexto estadunidense, relatos históricos indicam que Hitler detestava batom vermelho pois contrariava seu conceito de pureza feminina. Fator que reforçou simbolicamente o uso da cor como oposição ao nazismo, em um ato de rebeldia silenciosa.

Significado para mulheres negras
Apesar de o batom vermelho ter se tornado, ao longo da história, um símbolo de poder e identidade feminina, muitas mulheres negras apontam que a tonalidade recebia conotações diferentes quando usada por elas. Na mídia e na cultura popular, o estereótipo da mulher negra excessivamente sensual era frequentemente reforçado por representações de lábios grandes pintados de vermelho, muitas vezes retratados de forma caricata.

Um exemplo marcante é a figura da Mammy, caricatura que retratava mulheres afro-americanas como cuidadoras dóceis e dedicadas aos filhos brancos de seus patrões. Essa representação ajudava a banalizar a violência da escravidão e do racismo, ao mesmo tempo em que reduzia mulheres negras a papéis servis e estereotipados.

O batom vermelho na contemporaneidade
Nas décadas seguintes, especialmente com as ondas do feminismo a partir dos anos 1960 e 1970, o batom vermelho passou a representar algo mais complexo: a ideia de que feminilidade e poder não são opostos. Hoje, ele aparece em campanhas feministas, performances artísticas e protestos como um gesto de autoafirmação, visibilidade e liberdade sobre o próprio corpo.












