Chanel explora contos de fadas como metáforas do cotidiano em desfile
Chanel veste as ficções particulares que toda mulher constrói ao seu redor em coleção de alta-costura inspirada nos contos de fadas

A primeira modelo entrou na passarela carregando um livro no desfile da Chanel, realizado nessa terça-feira (7/7), no Grand Palais, durante a Semana de Alta-Costura de Paris. Não se tratava de um adereço cenográfico, mas de um exemplar real de Les Fées: Contes des Contes (Contos de Fadas, na edição brasileira do livro de Charles Perrault), retirado da biblioteca pessoal de Gabrielle Chanel. O gesto era singelo, quase perdido diante da grandiosidade do cenário, com o salão tomado por trepadeiras gigantes e flores enormes, mas revelava exatamente o que Matthieu Blazy queria propor em seu segundo desfile de alta-costura para a maison.
Vem entender!

O livro que inspirou o desfile
Foi essa a pergunta que Blazy disse ter feito a si mesmo ao encontrar o livro no antigo apartamento de Gabrielle: “será que a vida dela também não foi um conto de fadas?” Quem conhece a trajetória da estilista sabe que a resposta é não. Órfã criada em convento, Gabrielle Chanel escalou até o topo da moda em uma trajetória que, estruturalmente, segue a mesma lógica de João e o Pé de Feijão: uma pessoa simples que sobe, arrisca e desce carregando o ouro. Não à toa, a coleção de Alta-Costura outono/inverno foi batizada de Gaby e o Pé de Feijão.

Objetos que contam histórias
O mais relevante não foi a analogia biográfica em si, e sim o que ela permitiu a Blazy fazer com a roupa: tratar os contos de fadas não como fantasia de infância, mas como o mesmo tipo de ficção particular que qualquer mulher constrói ao redor de si – nos objetos que guarda, nos amuletos que carrega e nas pequenas narrativas que transformam rotina em história.

Nos detalhes mais escondidos da coleção é possível perceber essa ideia. Forros de casaco guardam pinturas e listas de tarefas bordadas em seda transparente – o savoir-faire mais sofisticado da alta-costura aplicado a algo tão prosaico quanto uma lista de compras. As bordas de várias peças foram deixadas propositalmente desfiadas, em referência ao hábito de Gabrielle de espetar as próprias roupas com alfinetes durante as provas. O conto de fadas não está na superfície da fantasia, está no gesto cotidiano que só a própria mulher sabe que existe.
Essa ideia da “carga emocional dos objetos” está no centro da visão criativa de Matthieu Blazy. Para o designer, a moda funciona como um diário de memórias e experiências cotidianas, em que o verdadeiro luxo não está na logomarca ou no status, mas nas histórias e nos detalhes costurados em cada peça.
O desfile marca a segunda coleção de alta-costura de Blazy à frente da Chanel desde que assumiu a direção criativa da maison, em dezembro de 2024. O designer sucedeu Virginie Viard, que, por sua vez, havia assumido o comando da grife após os 36 anos de Karl Lagerfeld à frente da Chanel. Se antes um conto de fadas podia soar como um território de risco para uma marca tão codificada, pela facilidade de cair em um simbolismo raso, o que Blazy propôs no Grand Palais foi o oposto: nenhuma fantasia de princesa, e sim uma metáfora sobre o trabalho invisível da reinvenção.

O imaginário dos contos de fadas
O restante da narrativa se espalhou pela coleção, que, apesar de lúdica, não é teatral. O look de abertura – um tailleur Chanel transparente bordado com uma grade de miçangas que lembravam brotos de feijão – já dava o tom: a referência estava ali, mas exigia proximidade para ser lida.

Trepadeiras bordadas subiam pelos vestidos e se enrolavam nos saltos dos sapatos, enquanto outras peças eram revestidas por texturas que remetiam à palha. Bolsas de festa ganharam forma de ursos, galinhas e até feijões. Os saltos foram esculpidos com borboletas e ovos dourados, em referência à galinha dos ovos de ouro. Ao todo, mais de 20 “ovos” foram escondidos ao longo da coleção. Broches, clutches e bordados traziam referências discretas a Cachinhos Dourados, O Gato de Botas e O Patinho Feio, além de galinhas, gansos, cisnes e pegas — aves que remetem a diferentes contos tradicionais do folclore europeu.
A escolha de esconder, em vez de ilustrar, não parece casual. Ao apostar em referências que só se revelam de perto, Blazy sugere que a vida que as mulheres constroem para si é o verdadeiro conto de fadas. A ideia dialoga diretamente com a história da própria Gabrielle, que admitiu não gostar da vida que tinha e, por isso, decidiu inventar outra para si.

Códigos clássicos da maison
Ao pensar uma coleção voltada para a vida real das mulheres, como fazia Gabrielle Chanel, Blazy também revisita os clássicos da maison: vestidos de linhas retas, cintura baixa e modelagem solta. A silhueta reta e fluida, eternizada pela fundadora, segue como um dos códigos mais reconhecíveis da casa.
O icônico tailleur de tweed também ocupa um lugar central na coleção. Símbolo da visão da estilista de criar roupas elegantes, mas pensadas para acompanhar a vida cotidiana das mulheres, ele surge reinterpretado por Blazy com bordados, texturas e aplicações inspiradas na natureza.

A arte imita a vida
A relação entre ficção e vida real ganhou mais uma camada fora da passarela. A Chanel convidou o artista Joël Blanc – conhecido por retratar ao vivo as partidas de Roland Garros – para pintar a coleção em tempo real durante o desfile.
No torneio esportivo, Blanc geralmente ocupa um lugar na plateia acompanhado de um pequeno estúdio portátil pendurado no ombro, e segue esboçando em aquarela o movimento dos maiores atletas do mundo ao longo da partida. Na terça-feira (7/7), o artista registrou ao vivo o cenário, os detalhes e o movimento do desfile de Alta-Costura de outono/inverno 2026/2027 da grife francesa.
Se a coleção argumenta que os contos de fadas são a vida real, ter um pintor transformando o desfile em imagem segue a mesma lógica: a arte imitando a vida, traço a traço, no exato momento em que ela acontece.





























