Dior leva chita indiana e escultura de Lynda Benglis à Alta-Costura
Jonathan Anderson apresentou coleção de Alta-Costura Outono-Inverno 2026-2027 da Dior com referências à Índia e Lynda Benglis

O efeito plissado e as técnicas manuais roubaram a cena no desfile de Alta-Costura da Dior, realizado nesta segunda-feira (6/7), durante a Paris Fashion Week. A principal inspiração da coleção foi a obra da escultora americana Lynda Benglis, conhecida por explorar a transformação da matéria em suas criações.
Em muitas delas, superfícies bidimensionais ganham volume por meio de amarrações, moldagens e dobras. A relação da artista com a Índia também influenciou a coleção, levando Jonathan Anderson a incorporar ao desfile as técnicas e as tradições artesanais do país.
Vem entender!

O desfile
Em meio a uma nova onda de calor em Paris, com temperaturas acima dos 30°C, o desfile foi realizado nos jardins do Museu Rodin. Para amenizar o calor, a Dior distribuiu leques aos convidados, entre eles Sabrina Carpenter, Josh O’Connor, Priyanka Chopra, Nick Jonas, Naomi Watts, Rebecca Ferguson e Alexa Chung.
Como manda a tradição da alta-costura, a apresentação foi encerrada com um vestido de noiva.
A expectativa em torno do desfile aumentou ainda mais após a escolha de figurinos feita por Taylor Swift e Travis Kelce para o casamento, realizado na última sexta-feira (3/7), em Nova York. Os dois usaram looks assinados por Jonathan Anderson para a Dior, e, embora as imagens da cerimônia ainda não tenham sido divulgadas, a decisão movimentou as conversas em torno da maison.

Efeito plissado
Pregas de diferentes tamanhos, aplicadas a tecidos diversos, criaram caimentos e volumes que mudavam a cada movimento das modelos na passarela. O recurso conferiu um aspecto quase escultórico às peças, em sintonia com a pesquisa visual de Lynda Benglis.

A plissagem consiste em dobrar o tecido de forma controlada para criar pregas permanentes ou temporárias, que modificam sua estrutura e conferem volume às peças. Utilizada há séculos na moda, a técnica evoluiu com os processos industriais e os materiais sintéticos, ampliando as possibilidades de criação e permitindo construções cada vez mais complexas.
Um dos principais responsáveis por essa evolução foi o estilista japonês Issey Miyake. A partir dos anos 1990, ele revolucionou a técnica ao inverter o processo tradicional: em vez de plissar o tecido antes da confecção, desenvolveu um método em que as peças eram cortadas e costuradas em dimensões ampliadas para só então receber calor e pressão, formando pregas permanentes.
Embora Jonathan Anderson não faça uma referência direta ao trabalho de Miyake, a coleção dialoga com esse legado ao explorar a plissagem como elemento estrutural, e não apenas decorativo. Na alta-costura da Dior, as pregas ajudam a construir volumes e silhuetas que remetem à investigação de Lynda Benglis sobre dobra, matéria e transformação.
A chita
A tradição artesanal da Índia também ocupa um papel central na coleção, especialmente por meio das chitas indianas do século 18. Produzidos em algodão, esses tecidos eram finamente confeccionados, pintados à mão ou estampados com blocos de madeira, geralmente com motivos botânicos e cores vibrantes. Entre os séculos 16 e 18, as chitas indianas conquistaram o mercado europeu e passaram a influenciar as artes decorativas e a moda ocidental.

No Brasil, a chita chegou pelas mãos dos portugueses e, ao longo do século 19, passou a fazer parte do vestuário e da decoração, tornando-se um dos símbolos da cultura popular. Presente em diferentes camadas sociais, o tecido ficou associado ao artesanato, à exuberância das estampas e à valorização do trabalho manual, elementos que dialogam diretamente com a proposta apresentada por Jonathan Anderson.

A inspiração indiana também está ligada à trajetória de Lynda Benglis. A artista viveu em Ahmedabad, no estado de Gujarat, experiência que deu origem à série Peacock, iniciada no fim dos anos 1970 a partir dos pavões que observava na região. No desfile da Dior, essa referência aparece em bordados, miçangas coloridas e aplicações orgânicas. Fragmentos antigos de chita e indiennes, garimpados com um revendedor especializado, foram incorporados às bolsas Lady Dior Mini e Petit Dîner.

Ahmedabad também abriu uma segunda frente de pesquisa para Jonathan Anderson. O estilista colocou a exuberância da paisagem indiana em contraste com a atmosfera árida e a luminosidade de Santa Fé, no Novo México, onde Benglis mantém casa e ateliê. Essa dualidade aparece nas estampas e na cartela de cores da coleção, marcada por tons de cinza, branco e prata, com pontos de verde e azul.
Referências da natureza e da maison
A retomada de elementos recorrentes na trajetória de Jonathan Anderson faz parte da linguagem criativa do estilista. Nesta coleção, fauna e flora voltam a ocupar espaço central.
As referências botânicas aparecem nos sapatos e nos maxi leques — grandes estruturas de tule azul posicionadas à frente de um dos vestidos. Acabamentos metalizados surgem em diferentes propostas, enquanto as bolsas esculturais inspiradas em animais retornam à passarela. Entre elas, um modelo em formato de tatu faz referência à escultura Scarab (1990), de Lynda Benglis.
Símbolo máximo da Dior desde 1947, o Bar jacket (blazer de silhueta arquitetônica criado por Christian Dior) continua sendo uma das principais peças de investigação de Anderson na maison.
Desde sua chegada à grife, o designer revisita o modelo por meio de novas proporções, versões cropped, tecidos como o tweed Donegal e detalhes escultóricos, sem abandonar a cintura marcada que o transformou em um ícone da Dior. Na alta-costura, o casaco reaparece em tweed verde com barra desfiada e em tricô cinza espinha-de-peixe, finalizado por um grande laço que reforça a exploração de volume e construção que atravessa o desfile.

Bar jacket é novamente revisitada
































