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Ilca Maria Estevão

Chanel adquire centenária Charvet e amplia domínio no luxo

Chanel adquire a centenária Charvet e expande sua presença no mercado masculino, valorizando o savoir-faire artesanal francês

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Kristy Sparow/Getty Images
Chanel adquire centenária Charvet e amplia domínio no luxo

Fundada em 1838, a tradicional camisaria francesa Charvet foi adquirida nessa quinta-feira (2/7) pela Chanel. A casa ocupa um edifício histórico na Place Vendôme desde 1870 e, com a venda, encerra 188 anos de propriedade independente. O valor da transação não foi divulgado.

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Kristy Sparow/Getty Images

A compra

Em comunicado, a Chanel afirmou que a aquisição busca apoiar, a longo prazo, a transmissão de um savoir-faire único e a continuidade de uma casa de moda francesa icônica, respeitando integralmente sua independência criativa. Questionado se a grife vai crescer além de sua loja única em Paris, Bruno Pavlovsky, presidente da divisão de moda da maison, negou qualquer plano de expansão. A Charvet segue vendendo em seu endereço histórico, sem presença online.

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Placa da Place Vendôme, em Paris
Camisaria é um clássico francês
Loja da Charvet em Paris
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Loja da Charvet em Paris

AndreaAstes/Getty Images
Placa da Place Vendôme, em Paris
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Placa da Place Vendôme, em Paris

Westend61/Getty Images
Camisaria é um clássico francês
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Camisaria é um clássico francês

Reduzir a operação a mais uma aquisição da Chanel dentro de sua estratégia de proteção da cadeia de fornecedores artesanais, no entanto, seria simplificar demais: a Charvet não é uma fornecedora qualquer. É a casa que ajudou a moldar a estética da própria Gabrielle Chanel quase um século antes de qualquer contrato ser assinado, e é também a porta de entrada da Chanel em um mercado que, até então, não havia sido dominado diretamente: o das camisas e peças masculinas sob medida.

O início da parceria Chanel e Charvet

Foi a própria Gabrielle Chanel a precursora dessa ligação. A estilista comprava camisas da Charvet para o grande amor de sua vida e primeiro financiador de seu negócio, Arthur Boy Capel. Tamanha era sua aprovação da qualidade das peças que ela própria passou a vestir as camisas do parceiro.

Gabrielle Chanel e Étienne Balsan no Château de Royallieu

Nos armários dele, a futura Coco Chanel encontrou o jérsei das roupas íntimas e trajes de banho, o tweed dos ternos e a naturalidade das camisas e calças: elementos que adaptou para o vestuário feminino em um momento em que essa apropriação era considerada escandalosa.

Esse gesto é hoje tratado como o ponto de partida do que se consolidaria como o código “masculino-feminino” da Chanel, que mistura, até hoje, o rigor de alfaiataria com fluidez feminina.

Coco Chanel - Metrópoles
A maison foi fundada em 1910, em Paris, na França, pela estilista Gabrielle Coco Chanel

Vale a ressalva: a influência de Capel sobre o estilo de Gabrielle é bem documentada e reconhecida pela própria Chanel em seus materiais institucionais, mas ao longo da década de 1920, outros homens de sua vida – como o Duque de Westminster – também emprestaram peças de seus armários que ela incorporou em coleções futuras. As camisas da Charvet são um capítulo dentro dessa apropriação mais ampla do vestuário masculino.

Gabrielle quebrou diversas barreiras de gênero

Da admiração à colaboração

Passado mais de um século, a relação deixou de ser inspiração silenciosa para virar parceria declarada. Ao assumir a Chanel em 2025, Matthieu Blazy reacendeu o vínculo ao encomendar à Charvet três camisas de algodão oversized para seu desfile feminino de estreia, em outubro.

As camisas foram um ponto alto da coleção primavera/verão da Chanel

Com o icônico detalhe de corrente Chanel costurado na barra, as peças rapidamente viraram item desejo e já foram vistas em Nicole Kidman, Jessie Buckley e Jacob Elordi. No desfile, Blazy combinou as camisas amplas e masculinas da Charvet com saias femininas, um exercício didático do mesmo jogo de opostos que Gabrielle começou a ensaiar ao pegar emprestadas as camisas de Boy Capel.

Imagens do desfile

Esse projeto conjunto abriu caminho para a aquisição. Segundo os proprietários da etiqueta, Anne-Marie e Jean-Claude Colban – netos do empresário que comprou a Charvet da família fundadora em 1965 – a conversa avançou sem que ninguém quisesse “complicar as coisas”, com fluência e avanço naturais.

Imagens do desfile

Uma joia sob nova guarda

A Charvet chega à Chanel como a mais antiga camisaria especializada do mundo, fundada por Joseph-Christophe Charvet (filho do camareiro pessoal de Napoleão) em uma época em que camisas masculinas ainda eram tratadas como peça íntima, costurada em casa, sem o corte ajustado que a marca ajudaria a popularizar.

Toda a produção é concentrada em um único ateliê, em Saint-Gaultier, na região de Indre; já as vendas seguem acontecendo por atendimento pessoal, na loja da Place Vendôme.

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Alfaiataria feita sob medida
O atendimento é pessoal e personalizado
Camisaria é a mais antiga do mundo
As gravatas também são um ponto alto da camisaria
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As gravatas também são um ponto alto da camisaria

@charvet_official/Instagram/Reprodução
Alfaiataria feita sob medida
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Alfaiataria feita sob medida

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O atendimento é pessoal e personalizado
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O atendimento é pessoal e personalizado

@charvet_official/Instagram/Reprodução
Camisaria é a mais antiga do mundo
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Camisaria é a mais antiga do mundo

@charvet_official/Instagram/Reprodução

Ao longo de quase dois séculos, a casa vestiu nomes como Charles Baudelaire, Marcel Proust, Winston Churchill, Jean Cocteau, John F. Kennedy, Yves Saint Laurent e Karl Lagerfeld– que esteve por 35 anos à frente da Chanel.

Karl Lagerfeld usava camisas da marca

A prática de valorização do savoir-faire

A compra da Charvet segue uma lógica que a Chanel pratica desde meados dos anos 1980, quando adquiriu o Desrues, ateliê de bijuterias e botões fundado em 1887.

Foi o início de uma política silenciosa de aquisição de pequenos ateliês franceses especializados, muitos deles centenários, sem sucessão definida e ameaçados de desaparecer diante da terceirização da produção artesanal de luxo e da falta de novas gerações de artesãos.

casamento dua lipa vestido chanel - metrópoles
Os detalhes manuais sempre foram valorizados pela Chanel

Em 2002, esse conjunto de ateliês foi reunido sob a Paraffection, subsidiária da Chanel cujo nome significa “por afeição”. Hoje, a empresa reúne mais de duas dezenas de empresas, entre elas a bordadeira Lesage, a plumassaria Lemarié, o sapateiro Massaro, a chapelaria Maison Michel, a ourivesaria Goossens e a malharia escocesa Barrie, todas mantidas como entidades independentes e livres para atender outras marcas, inclusive concorrentes diretas da Chanel.

Ateliê de bordado Lesage faz trabalhos de alta-costura desde 1924

É essa arquitetura que explica o discurso tão insistente sobre a “independência criativa” no anúncio da compra da Charvet. Desde 2002, a maison Chanel dedica um desfile inteiro — o Métiers d’Art, criado por Karl Lagerfeld e realizado todos os meses de dezembro — exclusivamente à celebração do trabalho desses ateliês, tratando o savoir-faire artesanal como parte do produto tanto quanto o próprio design.

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Desfile Metiers d'Art, em 2012
Stella Tennant e Karl Lagerfeld no desfile Metiers d'Art, em 2012
Ateliê de bordados Lesage, em 1995
François Lesage em seu ateliê
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François Lesage em seu ateliê

Michel SETBOUN/Gamma-Rapho via Getty Images
Desfile Metiers d'Art, em 2012
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Desfile Metiers d'Art, em 2012

Mike Marsland/WireImage)
Stella Tennant e Karl Lagerfeld no desfile Metiers d'Art, em 2012
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Stella Tennant e Karl Lagerfeld no desfile Metiers d'Art, em 2012

Mike Marsland/WireImage via Getty Images
Ateliê de bordados Lesage, em 1995
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Ateliê de bordados Lesage, em 1995

Alain BENAINOUS/Gamma-Rapho via Getty Images

No fim, a compra da Charvet confirma algo que a trajetória da Chanel já vinha sugerindo há décadas: contexto artesanal não é algo que se constrói da noite para o dia. Pelo contrário, se sustenta ano após ano, geração após geração, até que o mercado o reconheça como insubstituível.

Foi assim com Gabrielle, que reconheceu, em uma camisaria de bairro, um savoir-faire raro muito antes de qualquer maison, e continua sendo assim, mais de um século depois, com a própria Chanel, que transformou essa mesma constância em estratégia de negócio.

Loja da Chanel em 1936, em Paris