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Ilca Maria Estevão

Chanel adquire centenária Charvet e amplia domínio no luxo

Chanel adquire a centenária Charvet e expande sua presença no mercado masculino, valorizando o savoir-faire artesanal francês

Kristy Sparow/Getty Images
Chanel adquire centenária Charvet e amplia domínio no luxo

Fundada em 1838, a tradicional camisaria francesa Charvet foi adquirida nessa quinta-feira (2/7) pela Chanel. A casa ocupa um edifício histórico na Place Vendôme desde 1870 e, com a venda, encerra 188 anos de propriedade independente. O valor da transação não foi divulgado.

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Desfile primavera/verão Chanel 2026
Kristy Sparow/Getty Images

A compra

Em comunicado, a Chanel afirmou que a aquisição busca apoiar, a longo prazo, a transmissão de um savoir-faire único e a continuidade de uma casa de moda francesa icônica, respeitando integralmente sua independência criativa. Questionado se a grife vai crescer além de sua loja única em Paris, Bruno Pavlovsky, presidente da divisão de moda da maison, negou qualquer plano de expansão. A Charvet segue vendendo em seu endereço histórico, sem presença online.

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Placa da Place Vendôme, em Paris
Camisaria é um clássico francês
Loja da Charvet em Paris
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Loja da Charvet em Paris

AndreaAstes/Getty Images
Placa da Place Vendôme, em Paris
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Placa da Place Vendôme, em Paris

Westend61/Getty Images
Camisaria é um clássico francês
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Camisaria é um clássico francês

Reduzir a operação a mais uma aquisição da Chanel dentro de sua estratégia de proteção da cadeia de fornecedores artesanais, no entanto, seria simplificar demais: a Charvet não é uma fornecedora qualquer. É a casa que ajudou a moldar a estética da própria Gabrielle Chanel quase um século antes de qualquer contrato ser assinado, e é também a porta de entrada da Chanel em um mercado que, até então, não havia sido dominado diretamente: o das camisas e peças masculinas sob medida.

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O início da parceria Chanel e Charvet

Foi a própria Gabrielle Chanel a precursora dessa ligação. A estilista comprava camisas da Charvet para o grande amor de sua vida e primeiro financiador de seu negócio, Arthur Boy Capel. Tamanha era sua aprovação da qualidade das peças que ela própria passou a vestir as camisas do parceiro.

Fine Art Images/Heritage Images via Getty Images
Gabrielle Chanel e Étienne Balsan no Château de Royallieu

Nos armários dele, a futura Coco Chanel encontrou o jérsei das roupas íntimas e trajes de banho, o tweed dos ternos e a naturalidade das camisas e calças: elementos que adaptou para o vestuário feminino em um momento em que essa apropriação era considerada escandalosa.

Esse gesto é hoje tratado como o ponto de partida do que se consolidaria como o código “masculino-feminino” da Chanel, que mistura, até hoje, o rigor de alfaiataria com fluidez feminina.

Apic/Getty ImagesCoco Chanel - Metrópoles
A maison foi fundada em 1910, em Paris, na França, pela estilista Gabrielle Coco Chanel

Vale a ressalva: a influência de Capel sobre o estilo de Gabrielle é bem documentada e reconhecida pela própria Chanel em seus materiais institucionais, mas ao longo da década de 1920, outros homens de sua vida – como o Duque de Westminster – também emprestaram peças de seus armários que ela incorporou em coleções futuras. As camisas da Charvet são um capítulo dentro dessa apropriação mais ampla do vestuário masculino.

Chanel/Divulgação
Gabrielle quebrou diversas barreiras de gênero

Da admiração à colaboração

Passado mais de um século, a relação deixou de ser inspiração silenciosa para virar parceria declarada. Ao assumir a Chanel em 2025, Matthieu Blazy reacendeu o vínculo ao encomendar à Charvet três camisas de algodão oversized para seu desfile feminino de estreia, em outubro.

Chanel/Divulgação
As camisas foram um ponto alto da coleção primavera/verão da Chanel

Com o icônico detalhe de corrente Chanel costurado na barra, as peças rapidamente viraram item desejo e já foram vistas em Nicole Kidman, Jessie Buckley e Jacob Elordi. No desfile, Blazy combinou as camisas amplas e masculinas da Charvet com saias femininas, um exercício didático do mesmo jogo de opostos que Gabrielle começou a ensaiar ao pegar emprestadas as camisas de Boy Capel.

Kristy Sparow/Getty Images
Imagens do desfile

Esse projeto conjunto abriu caminho para a aquisição. Segundo os proprietários da etiqueta, Anne-Marie e Jean-Claude Colban – netos do empresário que comprou a Charvet da família fundadora em 1965 – a conversa avançou sem que ninguém quisesse “complicar as coisas”, com fluência e avanço naturais.

Kristy Sparow/Getty Images
Imagens do desfile

Uma joia sob nova guarda

A Charvet chega à Chanel como a mais antiga camisaria especializada do mundo, fundada por Joseph-Christophe Charvet (filho do camareiro pessoal de Napoleão) em uma época em que camisas masculinas ainda eram tratadas como peça íntima, costurada em casa, sem o corte ajustado que a marca ajudaria a popularizar.

Toda a produção é concentrada em um único ateliê, em Saint-Gaultier, na região de Indre; já as vendas seguem acontecendo por atendimento pessoal, na loja da Place Vendôme.

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Alfaiataria feita sob medida
O atendimento é pessoal e personalizado
Camisaria é a mais antiga do mundo
As gravatas também são um ponto alto da camisaria
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As gravatas também são um ponto alto da camisaria

@charvet_official/Instagram/Reprodução
Alfaiataria feita sob medida
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Alfaiataria feita sob medida

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O atendimento é pessoal e personalizado
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O atendimento é pessoal e personalizado

@charvet_official/Instagram/Reprodução
Camisaria é a mais antiga do mundo
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Camisaria é a mais antiga do mundo

@charvet_official/Instagram/Reprodução

Ao longo de quase dois séculos, a casa vestiu nomes como Charles Baudelaire, Marcel Proust, Winston Churchill, Jean Cocteau, John F. Kennedy, Yves Saint Laurent e Karl Lagerfeld– que esteve por 35 anos à frente da Chanel.

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Karl Lagerfeld usava camisas da marca

A prática de valorização do savoir-faire

A compra da Charvet segue uma lógica que a Chanel pratica desde meados dos anos 1980, quando adquiriu o Desrues, ateliê de bijuterias e botões fundado em 1887.

Foi o início de uma política silenciosa de aquisição de pequenos ateliês franceses especializados, muitos deles centenários, sem sucessão definida e ameaçados de desaparecer diante da terceirização da produção artesanal de luxo e da falta de novas gerações de artesãos.

@chanelofficial/Instagram/Reproduçãocasamento dua lipa vestido chanel - metrópoles
Os detalhes manuais sempre foram valorizados pela Chanel

Em 2002, esse conjunto de ateliês foi reunido sob a Paraffection, subsidiária da Chanel cujo nome significa “por afeição”. Hoje, a empresa reúne mais de duas dezenas de empresas, entre elas a bordadeira Lesage, a plumassaria Lemarié, o sapateiro Massaro, a chapelaria Maison Michel, a ourivesaria Goossens e a malharia escocesa Barrie, todas mantidas como entidades independentes e livres para atender outras marcas, inclusive concorrentes diretas da Chanel.

julio donoso/Sygma via Getty Images)
Ateliê de bordado Lesage faz trabalhos de alta-costura desde 1924

É essa arquitetura que explica o discurso tão insistente sobre a “independência criativa” no anúncio da compra da Charvet. Desde 2002, a maison Chanel dedica um desfile inteiro — o Métiers d’Art, criado por Karl Lagerfeld e realizado todos os meses de dezembro — exclusivamente à celebração do trabalho desses ateliês, tratando o savoir-faire artesanal como parte do produto tanto quanto o próprio design.

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Desfile Metiers d'Art, em 2012
Stella Tennant e Karl Lagerfeld no desfile Metiers d'Art, em 2012
Ateliê de bordados Lesage, em 1995
François Lesage em seu ateliê
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François Lesage em seu ateliê

Michel SETBOUN/Gamma-Rapho via Getty Images
Desfile Metiers d'Art, em 2012
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Desfile Metiers d'Art, em 2012

Mike Marsland/WireImage)
Stella Tennant e Karl Lagerfeld no desfile Metiers d'Art, em 2012
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Stella Tennant e Karl Lagerfeld no desfile Metiers d'Art, em 2012

Mike Marsland/WireImage via Getty Images
Ateliê de bordados Lesage, em 1995
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Ateliê de bordados Lesage, em 1995

Alain BENAINOUS/Gamma-Rapho via Getty Images

No fim, a compra da Charvet confirma algo que a trajetória da Chanel já vinha sugerindo há décadas: contexto artesanal não é algo que se constrói da noite para o dia. Pelo contrário, se sustenta ano após ano, geração após geração, até que o mercado o reconheça como insubstituível.

Foi assim com Gabrielle, que reconheceu, em uma camisaria de bairro, um savoir-faire raro muito antes de qualquer maison, e continua sendo assim, mais de um século depois, com a própria Chanel, que transformou essa mesma constância em estratégia de negócio.

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Loja da Chanel em 1936, em Paris
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