Louis Vuitton ergue praia artificial em Paris, revisitando linguagem de Karl Lagerfeld
Pharrell Williams fez do desfile da Louis Vuitton um litoral artificial no coração de Paris, revisitando linguagem de Karl Lagerfeld

Com um cenário composto por uma onda de 8 metros de altura, cascata de água, coro gospel ao vivo e areia no chão, o desfile SS27 da Louis Vuitton apostou no espetáculo – e a referência mais direta é Karl Lagerfeld. As imagens rapidamente dominaram as redes sociais, e a ambientação tornou-se tão comentada quanto as roupas. Convidados assistiram ao desfile descalços enquanto modelos caminhavam entre areia e água usando ternos, gravatas, camisas e bolsas de couro.
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Inspiração em Karl Lagerfeld
Em outubro de 2018, Karl Lagerfeld apresentou a coleção ready-to-wear primavera/verão 2019 da Chanel em uma das cenografias mais lembradas de sua carreira. O Grand Palais de Paris foi transformado em uma praia completa, com areia real, pequenas ondas quebrando na margem, píeres de madeira e cabanas de veraneio.

Durante décadas, Lagerfeld consolidou uma ideia específica de desfile de luxo: a passarela não deveria apenas apresentar roupas, mas sim, construir um universo. Supermercados, aeroportos, foguetes espaciais, estações de trem e praias inteiras surgiam dentro do Grand Palais como extensões narrativas das coleções.
Os cenários também atuavam como uma poderosa ferramenta de comunicação visual, muito antes de as redes sociais transformarem ambientes fotogênicos em estratégia de marketing.
A praia criada por Pharrell opera exatamente dentro dessa tradição. A escala é diferente, a tecnologia é mais sofisticada e o contexto cultural é outro, mas a mecânica permanece reconhecível: criar uma experiência imersiva capaz de gerar imagens memoráveis muito além das peças apresentadas.
A indústria volta a valorizar um modelo de espetáculo que parecia ter perdido força nos últimos anos. Após um período em que muitas marcas apostaram em apresentações mais contidas, o luxo parece novamente interessado em construir eventos grandiosos, projetados para permanecer no imaginário coletivo. Ao contrário de Karl, cuja busca constante era pela reinvenção, grande parte do cenário fashion atual parece encontrar inspiração na revisitação de códigos já conhecidos.

Controvérsias que marcaram o desfile
Para além do lançamento dos tênis Louis Vuitton SS27 Combi, que chamaram atenção imediata pela semelhança com os designs da Vans, há também a tensão criada entre ambiente e vestuário.

A praia, historicamente, está associada ao descanso, ao lazer, à informalidade e à exposição do corpo. A alfaiataria, por sua vez, representa o oposto: estrutura, formalidade, disciplina social e códigos de elegância construídos longe da areia e da água. Pharrell une deliberadamente esses dois universos.
Os modelos surgiram vestidos em alfaiataria e o resultado produziu uma imagem quase surrealista: homens vestidos para uma reunião corporativa ocupando um espaço de lazer. Ao fazê-lo, Pharrell não parece interessado em retratar a cultura do surf em si, mas em adaptá-la aos códigos já consolidados do luxo. O resultado é uma praia filtrada pela estética da Louis Vuitton.
O resultado é visualmente interessante, mas também revela uma característica recorrente da moda de luxo contemporânea: sua capacidade de transformar manifestação cultural em linguagem de mercado, ainda que isso implique suavizar ou remodelar parte de sua identidade original.

O contexto histórico do desfile
Apesar dos pontos controversos, a coleção também possui uma referência histórica importante. O ponto de partida foi o Ebony Beach Club, criado em 1957 por Silas White, na Califórnia. Em um período marcado pela segregação racial nos Estados Unidos, o espaço foi concebido para oferecer às famílias negras um ambiente sofisticado de lazer à beira-mar.

Nesse contexto, a praia deixa de funcionar apenas como elemento estético e passa a representar uma discussão sobre pertencimento, acesso e ocupação de espaços historicamente disputados. O litoral, frequentemente tratado pela moda como símbolo universal de liberdade, ganha uma dimensão social mais específica.

A fala de Pharrell, ao mencionar que o desfile retrata dândis modernos que surfam, deixa isso claro. A referência direta ao dandismo se reforça como forma de resistência e autoafirmação, especialmente na tradição do Black Dandyism, que transformou a elegância em uma ferramenta de afirmação identitária diante de estruturas excludentes.























