Com Bruna Lima, Edoardo Ghirotto, Eduardo Barretto e Lucas Marchesini

Dois anos depois, beijo gay volta à Bienal do Livro

Romance LGBTQIA+ é inspirado na censura ocorrida em 2019, pela prefeitura do Rio de Janeiro, a um livro da Marvel que ilustrava um beijo gay

atualizado 29/11/2021 19:40

Dois anos após a censura da Prefeitura do Rio de Janeiro a um livro da Marvel, que trazia um beijo gay em um dos quadrinhos, o escritor e roteirista Felipe Cabral leva à Bienal do Livro do Rio seu mais novo lançamento, “O beijo de Romeu”, romance inspirado no episódio da censura de 2019.

A obra narra as vivências de Romeu, que, prestes a dar seu primeiro beijo, tem sua vida virada de cabeça para baixo após sua orientação sexual ser revelada para toda a escola e o livro de seu pai, que seria lançado na Bienal do Rio de Janeiro, ter sido censurado pelo prefeito da cidade.

À coluna, Cabral, que, como roteirista, fez história escrevendo cenas dos primeiros beijos gays do Multishow e de novelas da Globo, ressaltou que levar à Bienal um romance LGBTQIA+ inspirado na tentativa de censura homofóbica de Crivella é mostrar que a comunidade gay saiu vitoriosa.

“Lembramos da reação dos frequentadores do evento, do próprio evento e das editoras presentes. Todos e todas foram firmes em rechaçar aquela censura e mostrar que as histórias LGBTQIA+ não seriam nunca mais censuradas ou jogadas para dentro de qualquer armário. Não à toa, depois do evento, as vendas de livros escritos e/ou protagonizados por LGBTs mais do que dobraram. A vitória foi nossa”, disse o autor.

A obra imita a vida relembrando a primeira semana da Bienal dos Livros, em setembro de 2019, quando conservadores foram reclamar no Twitter do livro “Vingadores, a cruzada das crianças”, que mostrava um beijo gay em um de seus quadrinhos.

Como reação, a Secretaria de Ordem Pública da cidade notificou a Bienal, por ordem do ex-prefeito Marcelo Crivella, para paralisar a comercialização dos HQs. Guardas municipais entraram no evento para recolher os livros, mas não conseguiram.

Crivella, então, determinou que os livros deveriam ser comercializados dentro de um saco preto com um aviso de “conteúdo impróprio para menores”. Os organizadores da Bienal não aceitaram a recomendação.

Entre novas fiscalizações e decisões judiciais, o youtuber e comunicador Felipe Neto anunciou a compra de 10 mil de exemplares do livro para distribuição gratuita na Bienal. Os exemplares foram entregues em plástico preto, conforme recomendação de Crivella, mas com a frase: “este conteúdo é impróprio para pessoas atrasadas, retrógradas e preconceituosas”.

Exemplares foram distribuídos por Felipe Neto na Bienal

Cabral não acredita que “O beijo de Romeu” irá sofrer represálias institucionais como “Vingadores, a cruzada das crianças” sofreu, mas sabe que o contexto político brasileiro o torna alvo de ataques de ódio e preconceito por ser autor de um romance infanto-juvenil LGBTQIA+.

“Estaria mentindo se dissesse que não tenho medo de que algum ataque possa acontecer, ao livro e a mim”, admitiu.

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