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Brasília 66 anos: biólogo revela espécies únicas e raras do Cerrado
No aniversário de Brasília, biólogo destaca a riqueza do Cerrado e ações necessárias para a coexistência entre o asfalto e a vida selvagem
atualizado
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Ao celebrar 66 anos, Brasília reafirma sua identidade única de “Cidade Parque”, onde o traçado urbano de Lúcio Costa se funde ao horizonte do Cerrado. Mais do que um cenário contemplativo, a capital é o lar de uma biodiversidade vibrante que resiste entre as superquadras e as áreas de proteção ambiental. No entanto, a data comemorativa também convida à reflexão: como garantir que espécies icônicas e microrganismos raros continuem a habitar o Distrito Federal nas próximas décadas?
Para Guarino Rinaldi Colli, professor titular do Departamento de Zoologia da UnB, o aniversário é o momento ideal para valorizar a fauna que, por vezes invisível, sustenta o equilíbrio ecológico da nossa região.
Entenda a biodiversidade de Brasília em quatro pontos:
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Identidade biológica: além dos famosos lobos e tamanduás, o DF tem espécies exclusivas (endêmicas), como o peixe pirá-brasília.
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A capital no bioma: Brasília foi erguida dentro do Cerrado, o que torna a presença de animais silvestres na cidade um reflexo da pressão sobre seus habitats.
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Riscos estruturais: atropelamentos em rodovias e a transmissão de doenças por animais domésticos são as principais ameaças aos mamíferos maiores.
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Papel da população: a preservação depende de atitudes simples, como não alimentar a fauna e respeitar os limites de velocidade perto de parques.
Os verdadeiros brasilienses: da arara ao pirá-brasília
Neste aniversário de 66 anos, o olhar sobre a fauna local se amplia. Embora animais carismáticos como o lobo-guará, a arara-canindé e a seriema sejam facilmente reconhecidos e celebrados como símbolos da paisagem candanga, o professor Guarino Colli alerta que a verdadeira riqueza de Brasília reside nos detalhes.
“O Distrito Federal abriga uma enorme diversidade de espécies menores, como pequenos peixes de riachos, anfíbios e répteis”, explica o especialista.
Ele cita o exemplo do pirá-brasília e de calangos como o Enyalius capetinga, que têm distribuição restrita e dependem diretamente da preservação de veredas e matas de galeria para sobreviver. Esses organismos, embora discretos, são peças fundamentais para manter os processos ecológicos que garantem, por exemplo, a qualidade da água que consumimos.
Os perigos da “selva de pedra”
A urbanização acelerada da capital traz desafios complexos. Segundo Colli, o fato de a cidade estar dentro do bioma significa que a expansão urbana atinge diretamente o coração do hábitat dessas espécies.
A fragmentação das áreas verdes e a expansão da malha viária transformam rodovias em armadilhas fatais.
Para mamíferos de grande porte, como a onça-parda e a anta, o isolamento de populações é um problema central. “A perda de conectividade entre as áreas naturais impede que esses animais circulem e se reproduzam com segurança”, afirma o professor. Além disso, ele destaca um perigo muitas vezes ignorado: a presença de cães soltos em áreas de preservação, que servem como ponte para doenças letais, como cinomose e parvovirose, devastando canídeos silvestres.
Curiosidades: a inteligência da natureza local
A fauna brasiliense guarda comportamentos fascinantes que poucos conhecem. O lobo-guará, por exemplo, atua como um “jardineiro” do Cerrado, consumindo frutos e dispersando sementes por onde passa. Já a Anfisbena, ou cobra-de-duas-cabeças, é um réptil perfeitamente adaptado à vida subterrânea que usa uma tática de distração inteligente: ao ser ameaçada, ergue a cauda arredondada para confundir predadores sobre onde está sua cabeça real.

Outro personagem curioso são as formigas-feiticeiras. “Apesar do nome, são vespas onde as fêmeas não têm asas e lembram formigas”, revela Colli. Elas desempenham um papel crucial no controle biológico, invadindo ninhos de outras abelhas e vespas para garantir o desenvolvimento de suas larvas.

Um presente para o futuro de Brasília
Para que a capital complete outros 66 anos com sua fauna preservada, o professor da UnB é enfático: a conservação depende da conscientização coletiva. Ele reforça que a população nunca deve tentar capturar ou alimentar animais silvestres, pois isso altera seu comportamento natural e saúde.
“Dirigir com atenção em áreas próximas a parques e manter cães e gatos sob controle são medidas fundamentais”, orienta.
Valorizar a ideia de que conservar Brasília é, intrinsecamente, conservar o Cerrado que ainda resta dentro e ao redor da cidade é o melhor presente que a população pode oferecer à sua casa e aos seus vizinhos de quatro patas, penas ou escamas.














