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Dinheiro e Negócios

Tráfico de mulheres e exploração sexual: o passado sombrio do fundador das Casas Bahia

Saul Klein foi acusado de ter mantido dentro da estrutura da empresa uma rede de exploração de mulheres e crianças durante três décadas

18/08/2026 19:27
Divulgação
Imagem de loja das Casas Bahia em um shopping, com funcionários atendendo clientes - Metrópoles

Antes do colapso financeiro, atestado pelo pedido de recuperação judicial protocolado no último domingo (16/8), o Grupo Casas Bahia foi palco de uma verdadeira história de terror. De acordo com as denúncias apresentadas pelas vítimas, a estrutura da varejista foi abrigo, durante três décadas, de uma rede de exploração sexual de meninas e mulheres.

Os primeiros registros policiais e processos judiciais contra o fundador das Casas Bahia, Samuel Klein, conhecido como o “Rei do Varejo”, são da década de 90. De acordo com os relatos, o empresário atraía adolescentes em situação de vulnerabilidade socioeconômica de diferentes locais do país e as explorava sexualmente. A entrega de presentes, dinheiro e a manutenção das vítimas em imóveis de Klein seria realizada por funcionários da varejista.

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Saul Klein, filho de Samuel Klein
Samuel Klein, fundador das Casas Bahia
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Samuel Klein, fundador das Casas Bahia

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Saul Klein, filho de Samuel Klein
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Saul Klein, filho de Samuel Klein

Divulgação/Prefeitura de Araraquara

Apesar da quantidade de denúncias, o fundador das Casas Bahia morreu em 2014, aos 91 anos, sem nunca ter sido condenado. Em 2021, a Agência Pública reuniu depoimentos de vítimas, advogados e ex-funcionários das Casas Bahia. A reportagem também revelou que, ao procurarem a Justiça, muitas vítimas — que eram adolescentes quando a violência ocorreu — descobriram que os crimes já haviam prescrito.

O episódio deu origem a um Projeto de Lei. Batizado de “PL Caso Klein”, o texto propõe alterar o Código Civil brasileiro para ampliar de 3 para 20 anos o prazo de prescrição para ações de reparação civil a vítimas de crimes sexuais cometidos contra crianças e adolescentes. O PL chegou a ser aprovado na Câmara dos Deputados, em 2023, mas está parado no Senado desde então.

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Pai e filho

Filho e herdeiro do “Rei do Varejo”, Saul Klein também foi alvo das denúncias. Diferente do pai, no entanto, ele foi condenado, em 2023, por tráfico de pessoas para fins de trabalho escravo sexual. A sentença veio de uma denúncia apresentada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT).

A justiça do Trabalho determinou que o Saul pagasse R$ 30 milhões por aliciar jovens mulheres e adolescentes com falsas promessas de trabalho e as explorar sexualmente, submetendo-as a condição análoga à escravidão.

A decisão atendeu aos pedidos feitos pelo MPT, que investigou o caso e constatou que Saul Klein cooptava adolescentes e jovens entre 16 e 21 anos, com a falsa promessa de que iriam trabalhar como modelos.

De acordo com o processo, após o aliciamento, as mulheres e as adolescentes eram inseridas em um criminoso esquema de exploração no sítio do empresário, sendo obrigadas a manter relações sexuais com o réu durante dias, sob forte violência psicológica e vigilância armada.

Ainda segundo os autos, além de sofrerem restrição de liberdade e de realizarem práticas sexuais forçadas, situações que geraram graves consequências psicológicas para as vítimas, ainda foram contaminadas por doenças sexualmente transmissíveis, como atestado por ginecologista que as atendiam durante os eventos.

Criminalmente, Saul se tornou réu por exploração sexual de mulheres e por organização criminosa em maio deste ano, quando a 2ª Vara Criminal de Barueri aceitou parcialmente a denúncia do Ministério Público de São Paulo.

“Os elementos informativos (…) também descrevem ambiente de exploração sexual contínua, com referência à participação reiterada de determinadas intermediárias, padronização comportamental e submissão psicológica das frequentadoras”, diz a decisão, que tramita em segredo de Justiça.

Ainda segundo a decisão, os depoimentos colhidos nos autos apontaram para a existência de uma “dinâmica reiterada” de recrutamento de mulheres e adolescentes mediante promessas de trabalho e a imposição de comportamentos previamente orientados e exploração sexual estruturada em ambiente controlado.

Fora do controle

A Casas Bahia se tornou uma das maiores varejistas do país sob o comando da família Klein. No início dos anos 2000, a varejista alcançou a marca de 300 lojas em todo o país. Em 2009, o Grupo Pão de Açúcar (GPA) comprou o controle do Ponto Frio e, meses depois, fechou um acordo de associação com a Casas Bahia. O negócio deu origem à Via Varejo.

A família Klein continuou como acionista relevante da companhia até 2013, quando vendeu parte de suas ações e reduziu a participação na companhia.

Em 2019, o GPA decidiu vender toda a sua participação na Via Varejo por meio de um leilão na B3. As ações foram pulverizadas entre investidores no mercado, e a companhia passou a ser uma “corporation”, ou seja, uma companhia aberta sem um acionista controlador definido.

Os Klein ainda mantêm presença na empresa. Raphael Klein, neto de Samuel e filho de Michael Klein, faz parte atualmente do Conselho de Administração e também participa dos comitês de Finanças e de Pessoas e Governança.

Recuperação judicial e demissões

Após confirmar o fechamento de lojas, o grupo Casas Bahia protocolou pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo. Conforme solicitação feita na noite do último domingo (16/8), foi registrado prejuízo de R$ 10 bilhões no 2º trimestre, 18 vezes maior ante mesmo período do ano passado.

No total, a empresa tenta renegociar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas e garantir a continuidade das operações.

O plano de reestruturação da Casas Bahia prevê o fechamento de 298 lojas (cerca de 28,7% da rede) e a demissão de 1,9 mil a 3 mil funcionários. O processo intensificou-se na semana passada, entre 13 e 14 de agosto de 2026.

Os cortes de funcionários e o fechamento dos pontos de venda foram divulgados pela imprensa. O Metrópoles entrou em contato com a assessoria de comunicação da empresa, que não se manifestou sobre o caso.