Demétrio Vecchioli

Prefeitura despeja clube de várzea, e Samba do Cruz pode ser o próximo

Prefeitura precisa entregar terreno “livre e desimpedido” no Campo de Marte e diz que o processo vem sendo conduzido com transparência

atualizado

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Diego Viñas/VarzeaPédia
Mulheres acompanham demolição de estrutura de campo de várzea
1 de 1 Mulheres acompanham demolição de estrutura de campo de várzea - Foto: Diego Viñas/VarzeaPédia

A prefeitura de São Paulo cumpriu reintegração de posse na última quinta-feira (12/03) e pôs abaixo a sede do Aliança da Casa Verde, um dos seis campos de futebol de várzea localizados na área do futuro Parque Campo de Marte, na zona norte da cidade. O Cruz da Esperança, sede do popular Samba do Cruz, teme ser o próximo, depois de a prefeitura realizar pedido semelhante na Justiça.

O movimento da gestão Ricardo Nunes (MDB) acontece para que o terreno de 385 mil metros quadrados seja entregue “livre e desimpedido” à concessionária que venceu edital de concessão finalizado no início do ano passado. Denominada “Concessionária Campo de Marte”, a empresa é formada pelos mesmos donos da Allegra Pacaembu, que administra o estádio municipal.

A área onde vai ficar o Parque Campo de Marte é ocupada desde a década de 1970 pelo futebol de várzea, que tem ali seu principal reduto vivo. São seis campos, de seis clubes distintos, cinco dos quais têm suas sedes também no local. A concessão promete preservar o direito de cinco deles, com a construção de novos campos, onde as equipes poderão continuar jogando. O Aliança não foi beneficiado.

No ano passado, sob o argumento de que a concessionária cobrava o terreno livre e desimpedido, a Secretaria do Verde e Meio Ambiente (SVMA) da prefeitura paulistana notificou a associação dos clubes do Campo de Marte para que os times desocupassem os centros de convivência anexos aos campos de várzea, que a pasta passou a tratar como “ocupações irregulares”.

Diante da negativa e risco de judicialização, negociou-se uma solução que atenderia a (quase todos): os clubes desocupariam suas sedes, o terreno seria entregue pela prefeitura à concessionária e esta, em até duas semanas, autorizaria a volta deles. As equipes de várzea permaneceriam no mesmo local de sempre até a empresa entregar os novos campos, dali a no máximo 18 meses, como prevê o edital de concessão. Quatro dos cinco clubes da associação toparam: Pitangueira, Baruel, Sade e Paulista.

Como o Cruz da Esperança não se envolveu no acordo, a prefeitura aguarda autorização judicial para ocupar a área do clube, onde todo fim de semana acontece o Samba do Cruz. Também tenta na Justiça a reintegração de posse de área ocupada irregularmente pelos fundos do barracão da escola de samba Império de Casa Verde.

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Placa do Aliança, clube de várzea demolido em São Paulo
Soraia Marques vê demolição da própria casa e da sede do Aliança, clube de várzea que ela administrava no Campo de Marte
Soraia Marques vê demolição da própria casa e da sede do Aliança, clube de várzea que ela administrava no Campo de Marte
Soraia Marques vê demolição da própria casa e da sede do Aliança, clube de várzea que ela administrava no Campo de Marte
Soraia Marques vê demolição da própria casa e da sede do Aliança, clube de várzea que ela administrava no Campo de Marte
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Soraia Marques vê demolição da própria casa e da sede do Aliança, clube de várzea que ela administrava no Campo de Marte

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Placa do Aliança, clube de várzea demolido em São Paulo
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Placa do Aliança, clube de várzea demolido em São Paulo

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Soraia Marques vê demolição da própria casa e da sede do Aliança, clube de várzea que ela administrava no Campo de Marte

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Campo do Aliança é o primeiro a ser destruído

Responsável pelo campo mais próximo à Avenida Olavo Fontoura – e mais distante da entrada do complexo, pela Braz Leme – o Aliança foi o último clube a chegar ao local, em 2002, enquanto os vizinhos estão ali desde as décadas de 1970. Diferente dos demais, o Aliança não tinha qualquer tipo de contrato com a antiga dona do espaço, a Aeronáutica, e nunca entrou na associação com os vizinhos.

“Foi um acordo feito por gente que já morreu. Essa era uma área de mata em que jogavam muito entulho. Então a Aeronáutica deixava a gente permanecer aqui e a gente deixava a área sem entulho, cuidava do espaço”, conta Soraia Marques Trindade, que chegou ao Aliança meses depois da fundação do clube.

Foi convidada a cuidar do Aliança depois de passar por situação idêntica. Soraia era a responsável pelo Bola Preta, um clube de várzea da outra margem do Rio Tietê, quando a gestão Marta Suplicy (PT) desapropriou o campo para construir a Cohab Gato Preto. Desabrigada, Soraia atravessou a ponte da Casa Verde e foi transformar o Aliança em um espaço mais plural do que os campos vizinhos.

A historiadora Aira Bonfim cita uma disputa com “muitas camadas” entre os clubes locais e o Aliança, único administrado por uma mulher. “Isso passa pela característica deste publico dela, que tem a ver com a história de vida dela. A Soraia é uma mulher que morou na rua, saiu desse lugar e acredita nisso. Muitas das pessoas que trabalhavam ali com ela também eram pessoas onde ela depositava segunda chance de confiança e por vezes até outras equipes olham suspeita sobre esse público, com preconceito com relação a esse público. Não é só uma camada de gênero, tem vários outros atributos”, ela analisa.

Com o Aliança fora da associação, o clube de Soraia não teve representação quando a Secretaria de Governo da prefeitura fechou acordo com os clubes locais para que eles seguissem no Campo de Marte após a transformação em parque. A gestão municipal – que recebeu o terreno da Aeronáutica em 2022, depois de uma negociação com o governo federal – passou a considerar que o Aliança ocupava o campo de forma irregular.

Há duas semanas, avisou Soraia de que cumpriria na quinta-feira a reintegração de posse. A mulher, que vivia ali com uma neta e um cachorro, viu a casa onde criou três filhos ser demolida por um trator. Também foram derrubadas a sede do Aliança e o bar onde ela vendia salgados e bebidas para os frequentadores.

Considerou voltar a viver na rua, já que os R$ 400 de auxílio oferecidos pela prefeitura não seriam suficientes para alugar uma nova casa. Uma filha, porém, conseguiu bancar o aluguel de uma nova casa, e uma vaquinha virtual já arrecadou R$ 10 mil para ajudá-la.

À coluna, a prefeitura disse que a Secretaria Municipal de Habitação está prestando assistência social, com a previsão de pagamento inclusive de auxílio-aluguel. “Todo o processo vem sendo conduzido com transparência, diálogo e participação das partes envolvidas”, afirmou.

Samba do Cruz teme ser o próximo

Dos cinco clubes da associação, quatro toparam o acordo tríplice com prefeitura e concessionária. O Cruz da Esperança não concordou ao perceber que o modelo vai matar suas fontes de receita: o bar à beira do campo e o Samba do Cruz, um dos mais populares da cidade, que acontece na sede. Entre 15 mil e 20 mil pessoas passam por lá por final de semana.

“O contrato é mais ou menos assim: a gente teria que sair e depois de 15 dias a gente voltaria ao campo. Só que durante esses 15 dias na verdade você não ia sair, podia ficar lá. Como vou acreditar em um contrato assim? Era fictício. Na reunião que tivemos com a prefeitura, porém, fiquei sabendo que a gente vai ter o campo, mas não vai ser nosso, vai ser da concessionária. Meu time não tem uma rede de associados. A gente vive do bar e do samba. Se não tiver samba eu não tenho time, não tenho como manter o time”, diz Tio Toninho, presidente do Cruz.

De acordo com ele, o samba – evento que mais atrai público para a região onde ficará o parque – não foi considerado na formulação do edital de concessão e é incompatível com o parque, inclusive pelo horário: o edital exige o fechamento à noite, enquanto que o samba invade a madrugada.

Sem assinar o acordo para sair por 15 dias e voltar, o Cruz não sabe o que será do seu samba. Acompanhou a demolição do Aliança e já se protege para não ter o mesmo fim. Na quinta-feira mesmo, abriu um abaixo-assinado virtual, que já conta com mais de 15 mil assinaturas.

O movimento defende que o Grêmio Esportivo Recreativo Cruz da Esperança seja considerado Patrimônio Cultural Imaterial da cidade de São Paulo, com a abertura de procedimento administrativo para avaliação de seu registro cultural, e a garantia de permanência do Cruz da Esperança em seu território histórico, assegurando a continuidade de suas atividades culturais e o respeito à sua decisão de manter gestão autônoma e atuação independente.

O abaixo-assinado também quer a abertura de canal institucional de diálogo entre o Poder Público, a concessionária responsável pelo projeto do Parque Campo de Marte e a diretoria do Cruz da Esperança e a adoção de medidas que assegurem a proteção da memória cultural associada ao Cruz da Esperança, ao atual samba do Cruz e às demais manifestações culturais do território, reconhecendo sua relevância para a história e identidade cultural da cidade.

Em nota, a prefeitura confirmou que firmou um acordo entre a Concessionária responsável pela implantação do Parque Municipal Campo de Marte e a associação de clubes, que garante a gestão compartilhada dos novos campos de futebol de várzea a serem implantados no local.

“Há também uma exigência legal para a implantação de parques em áreas classificadas como Zona Especial de Proteção Ambiental (ZEPAM). Segue em andamento o processo de reintegração de posse das áreas ocupadas pelo galpão da escola de samba e pelo campo do Clube Cruz da Esperança da Casa Verde, que atualmente aguarda decisão judicial”, explicou a gestão Nunes.

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