Demétrio Vecchioli

Prefeitura de SP banca salário de R$ 76 mil a irmã de donos de agência

Coordenadora dos CITs ganha o dobro do salário do prefeito Ricardo Nunes e mais que todos os 26 atendentes somados

atualizado

metropoles.com

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Centro de Informações Turísticas São Paulo
1 de 1 Centro de Informações Turísticas São Paulo - Foto: Divulgação

A prefeitura de São Paulo bancou, em janeiro, um salário de R$ 76 mil a Bárbara Regina Correia de Moraes para ser coordenadora dos Centros de Informações Turísticas (CIT) da cidade. A remuneração acontece por intermédio da Agência Quarter, que a coluna vem mostrando pertencer a Marcelo e Victor Correia de Moraes, irmãos dela, ainda que esteja em nome de uma mulher que vivia de aluguel em um cortiço.

O valor é o dobro do salário de R$ 38 mil do prefeito Ricardo Nunes (MDB). O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), por exemplo, ganha cerca de R$ 36 mil. Mesmo com os polêmicos penduricalhos, só dois auditores fiscais do município ganharam mais do que isso em dezembro.

Além do salário de Bárbara – que sozinha ganha mais do que todos os técnicos em turismo somados que atendem turistas nos CITs  –, a coluna encontrou diversas inconformidades nas prestações de contas do contrato de R$ 36 milhões entre a Secretaria Municipal de Turismo e a Quarter.

No papel, a empresa pertence a uma ex-sócia do secretário adjunto de Turismo, Rodolfo Marinho, que é indicado político do vereador Gilberto Nascimento Jr (PL). O próprio Nascimento tem salário de R$ 26 mil – ou seja, Bárbara ganha o triplo de um vereador.

Em nota à coluna, a Quarter disse que o pagamento de R$ 70 mil a Bárbara trata-se de um bônus “condicionado ao cumprimento de metas e desempenho do exercício anterior” – ela trabalhou durante 11 dias para o projeto durante o ano interior. O bônus, pago com dinheiro público, não é previsto no contrato com a SMTur. Bárbara não respondeu pedidos de comentários.

Irregularidades em contrato

Desde o final de 2023, a secretaria de Turismo paga, por exemplo, pelo aluguel de uma televisão de 85 polegadas e de um “mapa tátil” em cada um dos oito Centros de Informações Turísticas. O mapa só existe no CIT da Paulista e as televisões vistas pela coluna têm, na verdade, 40 polegadas.

À coluna a Quarter alegou que “determinados espaços não comportavam” uma TV 85 polegadas e que, para produzir o mapa, depende de envio do material por parte da secretaria. Ainda assim, o contrato nunca foi redimensionado e, todo ano, a prefeitura paga R$ 200 à Quarter pelo aluguel de itens inexistentes.

A Secretaria de Turismo nunca questionou a ausência dos equipamentos e renovou o contrato em janeiro mantendo as cláusulas nunca cumpridas. A secretaria também paga, todo mês, R$ 785 por cada ponto de internet, um valor muito acima do mercado.

Pelo contrato, a Quarter deve oferecer, entre outros, um gerente, um coordenador-geral, cinco supervisores técnicos e 26 técnicos de turismo. Diferente dos contratos sem transparência que agência tem com a SPTuris como intermediária, neste ela precisa apresentar o holerite dos contratados, que precisam ser registrados com carteira de trabalho.

Esses documentos mostram que a prefeitura paga à Quarter R$ 9 mil por cada técnico em turismo, mas a agência paga menos de um terço disso (R$ 2,8 mil) aos trabalhadores, com carteira assinada. A mesma conta – um terço do pago à prefeitura à Quarter chegando no bolso do trabalhador – vale para todos os cargos mais baixos.

Enquanto isso, Bárbara, a irmã dos donos, foi contratada em 17 de dezembro (em substituição à própria mãe). Já em janeiro, foi premiada com um bônus de R$ 57 mil sobre seu salário fixo de R$ 19 mil, fazendo que seus rendimentos como gerente dos CITs chegassem a R$ 76.800. A prefeitura paga R$ 29 mil pelo cargo.

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Orçamento do plano de trabalho da Quarter
Folha de ponto de Bárbara Moraes em janeiro de 2026. Chama atenção horários padronizados
Holerite de Bárbara Moraes, pago com dinheiro da Prefeitura de São Paulo
Holerite de Ingrid Sanches, pago com dinheiro da Prefeitura de São Paulo
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Holerite de Ingrid Sanches, pago com dinheiro da Prefeitura de São Paulo

Orçamento do plano de trabalho da Quarter
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Orçamento do plano de trabalho da Quarter

Folha de ponto de Bárbara Moraes em janeiro de 2026. Chama atenção horários padronizados
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Folha de ponto de Bárbara Moraes em janeiro de 2026. Chama atenção horários padronizados

Holerite de Bárbara Moraes, pago com dinheiro da Prefeitura de São Paulo
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Holerite de Bárbara Moraes, pago com dinheiro da Prefeitura de São Paulo

Na folha de ponto (acima), uma coincidência: em todos os dias trabalhados, Bárbara entrou exatamente às 9h, saiu para almoçar exatamente às 12h, voltou exatamente às 13h e finalizou o dia exatamente às 18h, o que pode ser um indício de que a folha foi manipulada.

Além dela, a prefeitura paga acima do que ganha o prefeito a Ingrid Sanches de Almeida, que recebeu uma bonificação de R$ 30 mil em janeiro, fazendo seu salário ser de R$ 42 mil – vide documento acima.

Até o fim de 2024, Ingrid era quem liberava pagamentos à Quarter pela Secretaria de Turismo, já que trabalhava como coordenadora de Administração e Finanças, com salário de R$ 12,7 mil. Pediu para ser exonerada exatamente para trabalhar na Quarter, com salário base mais baixo, de 12,2 mil. A coluna apurou que ela é, na prática, a contadora da agência, paga pela prefeitura.

A Quarter foi contratada para realizar o serviço a partir de um pregão, em 2023. O contrato foi renovado no início de 2025 e novamente em janeiro deste ano. Nesse processo, a SMTur precisava cotar o serviço com três empresas, para verificar se renovar com a Quarter era a melhor opção.

As três empresas escolhidas pela SMTur para a pesquisa de mercado foram a VM produções, de Victor Correia de Moraes (irmão de Bárbara e de Marcelo Moraes, diretor operacional da Quarter), a Oleiro (de Claudete Santos, que na prática é a coordenadora dos CITs) e com a LGL Promoções (organizadora do Sports Summit e que, para prestar contas de repasse da prefeitura, cota com a Quarter como fornecedora), que envia sempre orçamentos muito acima do mercado – por exemplo, cobrando R$ 1,3 mil mensais por um ponto de internet. A LGL é fornecedora de lanches e buffets para eventos da prefeitura.

A coluna já mostrou que procedimento idêntico da SPTuris, com as mesmas empresas, explica renovações de R$ 210 milhões em contratos com a Quarter.

O que diz a Quarter:

Ao mencionar valores contratuais, é indispensável esclarecer que se tratam de contratações sob o regime CLT, cujo custo total não se restringe ao salário base do profissional. O valor global contratado compreende a integralidade dos encargos trabalhistas e previdenciários obrigatórios — tais como INSS patronal, FGTS, férias acrescidas de 1/3, 13º salário, provisões rescisórias, DSR e demais adicionais legais — além dos tributos incidentes.

Incluem-se ainda custos indiretos inerentes à operação, como seguros, despesas administrativas, gestão contratual, recrutamento e seleção, treinamento, coordenação operacional, sistemas de controle, compliance e demais recursos indispensáveis à execução regular e contínua dos serviços.

O valor global representa o custo total da operação, não podendo ser confundido com remuneração líquida ou salário nominal do colaborador. Diferenças apontadas em comparações simplificadas não configuram margem líquida, mas refletem a composição integral de custos obrigatórios e estruturais, conforme previsto em edital e na legislação vigente.

Referente ao mapa tátil, se trata de uma produção de conteúdo especifica e aguardamos o envio do material por parte da secretária.

As Centrais de Informação Turística (CITs) não possuem um padrão de metragem e cenografia uma vez que estão instaladas em diversos espaços, com características arquitetônicas próprias e limitações estruturais específicas.

Verificou-se, após análise técnica in loco, que determinados espaços não comportavam esse equipamento, seja por restrição de metragem ou layout.

Diante da inviabilidade física e com o objetivo de assegurar o cumprimento contratual e a adequada prestação do serviço, os equipamentos foram dimensionados conforme as condições reais de cada espaço disponibilizado pelo poder concedente, mantendo a funcionalidade e a qualidade do atendimento ao público.

No que se refere ao valor de R$ 70 mil mencionado, esclarece-se que não corresponde a salário fixo da colaboradora. O montante diz respeito a pagamento de caráter excepcional, que inclui bônus previsto na política interna de remuneração variável da empresa, programado para o mês de fevereiro e condicionado ao cumprimento de metas e desempenho do exercício anterior. A remuneração fixa pode ser aferida pela média dos demais períodos constantes nos registros oficiais.

A Quarter reafirma que atua em estrita conformidade com as normas trabalhistas, fiscais e contratuais aplicáveis, mantendo todos os recolhimentos e obrigações devidamente adimplidos e passíveis de verificação pelos órgãos competentes.

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