Prefeitura corta infraestrutura do Carnaval de Rua sem reduzir custos
Custo do Carnaval de Rua supera R$ 65 milhões. Prefeitura de São Paulo não detalha todos os gastos
atualizado
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A prefeitura de São Paulo reduziu a infraestrutura disponível para o Carnaval de Rua deste ano, na comparação com o ano passado, sem cortar despesas. Como já mostrou a coluna, só em banheiros químicos a redução é na ordem de 37% no papel – no pré-Carnaval, a diminuição era visivelmente bem maior. Mas o custo ultrapassa R$ 65 milhões.
Os números trazidos aqui são expressivamente distintos daqueles divulgados pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB) em entrevista coletiva há 10 dias. Na ocasião, a gestão informou que 100% da “estrutura do carnaval de rua” seria paga com recursos privados: os R$ 29,2 milhões arrecadados com patrocinadores. No ano passado o repasse da Secretaria de Turismo à empresa municipal São Paulo Turismo (SPTuris) para a “infraestrutura” foi de R$ 42,1 milhões.
A coluna descobriu, porém, que o que mudou foi o desmembramento dos itens que tradicionalmente faziam parte do contrato de “infraestrutura”. Este ano, ao invés de um, foram feitos três repasses à SPTuris. Que somam também R$ 42 milhões.
Prefeitura alega “100% de investimento privado”
Entre os R$ 42,1 milhões gastos no ano passado pela SPTuris estavam incluídos, além de banheiros químicos, gradis, tapumes e outros gastos relacionados diretamente à infraestrutura dos desfiles, também agentes de apoio ao trânsito, itens de sinalização de trânsito e guias turísticos.
Esses itens foram excluídos do contrato de R$ 29,2 milhões deste ano e contratados à parte pela prefeitura de São Paulo, também junto à SPTuris, que os terceiriza. Só com o contrato que paga sinalização e horas extras a agentes de trânsito serão gastos R$ 3,9 milhões, valor que a própria Companhia de Engenharia de Trânsito (CET) diz ser insuficiente para o trabalho. Já o custo de guias bilingues passou de R$ 1 milhão para R$ 8,7 milhões.
“Conforme determinação do Sr. prefeito, a SPTuris não fornecerá a totalidade do material operacional necessário para a Operação Carnaval 2026. Diante desse cenário, a CET está utilizando seus contratos vigentes como alternativa para suprir parte do material operacional. Contudo, há insumos, inclusive materiais operacionais, que não constam nos contratos atuais da CET e que são imprescindíveis para a adequada execução da Operação Carnaval 2026″, escreveu, em e-mail, o presidente da CET, Milton Roberto Persol, ao pedir R$ 3,9 milhões à SPTuris.
Na semana retrasada, Nunes foi questionado sobre os custos extras do carnaval de rua, especificamente sobre a CET, e disse serem gastos cotidianos. “Tem um jogo de futebol, tem lá a CET cuidando. Vai ter um show, vai ter a CET. Isso é atividade do cotidiano, seja lá qual evento for. O valor que a prefeitura gasta com a CET não saberia te dizer, mas é algo do cotidiano de qualquer atividade. Do restante todo o custo é da Ambev”, afirmou o prefeito.
Guias turísticos explicam custo mantido
A economia com itens de infraestrutura, como banheiros e agentes de trânsito, foi compensada com um aumento expressivo no número de serviço de guias turísticos bilíngues.
Em 2025, 150 diárias custaram R$ 1,45 milhões à SPTuris – cada guia turístico recebeu R$ 1,2 mil por oito horas de trabalho. Em 2026, esse serviço foi contratado em outro acordo com a SPTuris, ao custo de R$ 8,7 milhões – o valor é maior quando considerados os guias que trabalharão, por exemplo, no Sambódromo.
Isso significa que a prefeitura, via SPTuris, está gastando mais com guias turísticos do que com banheiros químicos no carnaval de rua.
Segundo a prefeitura, foram contratados para este ano 2.875 guias de turismo bilíngues para o Carnaval, sendo 2.249 trabalhando diretamente nos circuitos de blocos. “Os guias oferecem informações sobre os horários dos desfiles, localização de banheiros, acesso ao transporte público, entre outros temas relacionados”, explicou a gestão Nunes, que contratou 19 vezes o número de guias proposto no estudo técnico preliminar da Secretaria de Governo, realizado há 20 dias.
Gastos com carnaval de rua superam 65 milhões
Todas as secretarias envolvidas com o carnaval de rua têm gastos que não fazem parte do pacote de R$ 42 milhões contratado junto à SPTuris. O maior desses contratos é da Secretaria de Saúde, que vai pagar R$ 15,3 milhões à Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (APDM) por serviços que incluem mais de 750 diárias de ambulância, 1.920 de bombeiros civis e 80 de postos médicos fixos.
Já a Secretaria das Subprefeituras contrata anualmente cerca de 800 acionamentos da fiscalização de comércio ambulante, o famoso rapa, que envolve uma van e uma equipe de 11 pessoas terceirizadas. Pelo contrato vigente, cada diária custa R$ 6,1 mil. Isso geraria um custo de R$ 5 milhões com fiscalização, sem contar os caminhões necessários para recolher o material apreendido.
Em resposta a requerimento do vereador Nabil Bonduki (PT), que questionou os gastos com o carnaval de 2024, a prefeitura de São Paulo citou um investimento de R$ 519 mil com o protocolo Não Se Cale naquele ano – a promessa é de um atendimento maior em 2026.
Já a Secretaria de Cultura lançou um edital para distribuir R$ 2,5 milhões entre 100 blocos de rua, 25 mil para cada um. Blocos tradicionais do centro da cidade têm questionado o valor, que não foi corrigido pela inflação nos últimos dois anos e é insuficiente para colocar na rua desfiles que demandam trio elétrico.
O levantamento da coluna não considerou – por não ter encontrado informações precisas – os custos com limpeza urbana, Guarda Civil Municipal (GCM) e toda a infraestrutura de segurança pública, incluindo o Smart Sampa. Questionada via assessoria de imprensa, a prefeitura não forneceu os números.
Também ficam fora da conta os gastos relativos ao carnaval de escolas de samba. Como a coluna já mostrou, a prefeitura vai pagar um subsídio recorde de R$ 68,2 milhões às escolas que vão desfilar este ano na cidade. A gestão Ricardo Nunes também firmou acordo de R$ 20 milhões de patrocínio aos desfiles no sambódromo, entre SPTuris e Liga SP, e repassou R$ 5,1 milhões, via SPTuris, à União das Escolas de Samba Paulistanas (UESP), que realiza os desfiles nos bairros.
Procurada, a prefeitura não detalhou os valores gastos com o carnaval em rua. A secretaria de comunicação enviou a seguinte nota:
“A Prefeitura de São Paulo refuta veementemente a tentativa do portal Metrópoles de inferir uma tese que não se confirma. Assim como detalhado na coletiva do Carnaval 2026, o custo da infraestrutura (gradil, banheiros, tapumes e etc) para os desfiles de blocos no Carnaval de Rua deste ano, totalmente custeada pelo patrocinador oficial, é menor do que em 2025. É, portanto, correta a afirmação do prefeito Ricardo Nunes, uma vez que ele destacava exclusivamente a redução de custos com a infraestrutura. Para além desse investimento custeado pelo patrocinador oficial, a Prefeitura reforça serviços rotineiros e essenciais de diferentes secretarias para a realização da festa.”

