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SP: Subsídio a escolas de samba é 27 vezes maior que apoio a blocos
Subsídio a escolas de samba foi reajustado em 10% este ano. Repasse a blocos caiu de R$ 4 milhões a R$ 2,5 milhões desde 2023.
atualizado
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A prefeitura de São Paulo vai pagar um subsídio recorde de R$ 68,2 milhões às escolas de samba que vão desfilar este ano na cidade. O valor é mais de 27 vezes superior aos R$ 2,5 milhões reservados para ajudar a colocar na rua mais 600 desfiles de blocos. A verba chega a somente 100 deles. A gestão Ricardo Nunes (MDB) diz que a cidade tem o “maior carnaval do país”.
No caso das escolas de samba, o subsídio tem sido reajustado anualmente. De 2025 para 2026 o aumento foi de mais de 10%, passando de R$ 61,5 milhões a R$ 68,2 milhões.
Para o carnaval de rua, o valor caiu de R$ 4 milhões em 2023 para R$ 2,5 milhões em 2024 e está há dois anos sem reajuste, apesar de o valor recebido pelo patrocínio ser sempre reajustado pela inflação. O número de desfiles de blocos no período subiu de 475 em 2023 para 630 em 2026.
No total, a prefeitura já tem o compromisso de gastar pelo menos R$ 111 milhões com o carnaval 2026, entre subsídios (dinheiro que vai sai dos cofres municipais e chega às escolas de samba e blocos) e despesas com infraestrutura, ainda que parte deste dinheiro seja tratado como “patrocínio”. No ano passado, os gastos superaram R$ 140 milhões.
Os chamados subsídios às escolas de samba são pagos pela Secretaria de Cultura, que firmou termos de fomento de R$ 57 milhões com a Liga Independente da Escolas de Samba (Liga SP) e de R$ 10 milhões com a UESP, que cuida dos desfiles das divisões menores, nos bairros.
Confira quanto cada escola recebe de subsídio da prefeitura de São Paulo:
- R$ 2,766 milhões no Grupo Especial (primeira divisão)
- R$ 1,714 milhões no Grupo de Acesso I (segunda divisão)
- R$ 457 mil no Grupo de Acesso II (terceira divisão)
- R$ 169 mil no Especial de Bairros (quarta divisão)
- R$ 112 mil no Acesso de Bairros (quinta divisão)
- R$ 37 mil no Grupo de Acesso de Bairros II (sexta divisão)
- R$ 160 mil no Blocos Especiais (primeira divisão de blocos)
- R$ 60 mil no Acesso de Blocos (segunda divisão de blocos)
Repasses a blocos de rua não têm reajuste
Os valores contrastam com o subsídio da prefeitura aos blocos de rua, para os quais a prefeitura tem reservado R$ 2,5 milhões, disponibilizados através de edital. Cem blocos são selecionados para receberem, cada um, R$ 25 mil. O valor não é suficiente nem para alugar um trio elétrico do porte necessário para blocos que levam às ruas dezenas de milhares de pessoas.
Ao buscarem patrocínio privado, muitos deles também não estão conseguindo o financiamento necessário, já que o contrato da prefeitura com a Ambev limita as possibilidades de ativações de patrocinadores dos blocos.
Tradicional na cidade, desfilando em São Paulo desde 2013, o Sargento Pimenta já anunciou que não sai este ano na cidade. “Fazer Carnaval não é fácil e, sozinhos, não conseguimos. Precisamos de marcas que nos apoiem nessa missão. São muitos investimentos em palco, fantasias, músicos e toda uma equipe técnica envolvida. Infelizmente, este ano não foi possível obter este suporte”, disse o grupo.
Este ano, a prefeitura arrecadou R$ 29,2 milhões com a venda de um pacote de 10 cotas de patrocínio ao carnaval de São Paulo, como sempre comprada pela Ambev, a única interessada. Como mostrou a coluna, nove cotas estão sendo utilizadas, sendo quatro pela própria cervejaria. Cinco foram repassadas a outras empresas. Pela primeira vez o carnaval de São Paulo terá o patrocínio de uma bet, mas a prefeitura não ganhou nada a mais com isso.
As despesas com o carnaval de rua, uma responsabilidade da São Paulo Turismo (SPTuris, a empresa pública de turismo e eventos da cidade), porém, vão além do arrecadado com o patrocínio da Ambev. Relatório obtido pela coluna mostra que, em 2025, a empresa municipal gastou R$ 42,1 milhões com infraestrutura para o carnaval de rua.
Infraestrutura no sambódromo
Já a infraestrutura do sambódromo, que também era responsabilidade da SPTuris até o ano passado, agora cabe à Liga SP, que recebeu patrocínio de R$ 20 milhões da prefeitura, via Secretaria de Turismo.
Com esse dinheiro, a liga deve bancar a infraestrutura dos desfiles do Grupo Especial e de duas divisões de acesso. Só o sistema de som do Sambódromo custa mais de R$ 3 milhões. A locação de geradores de energia, mais R$ 920 mil.
Na conta do que é pago pela prefeitura também estão os cachês dos jurados (R$ 776 mil, sendo R$ 17,2 mil para cada um dos 45 contratados) e os direitos autorais para os compositores de cada um dos 32 sambas enredos que serão apresentados na avenida — a verba é de R$ 24 mil por escola, independente se do grupo especial ou das divisões de acesso.
Há ainda um apoio invisível: a SPTuris, que por contrato recebe o Sambódromo de volta da concessionária durante o período de carnaval, sede o equipamento gratuitamente à Liga SP, que arrecada com patrocínio e bilheteria.
Nos bairros, a SPTuris, com verba da secretaria de turismo, paga R$ 5,3 milhões à Uesp pelos “custos referentes à equipamentos, produtos, serviços, pessoal técnico e operacional, enfim todas as necessidades técnicas das agremiações em suas respectivas apresentações”. Questionada, a prefeitura não explicou a quem caberá, este ano, pagar pela infraestrutura das passarelas nos bairros, como a montagem de arquibancadas provisórias.
Em nota, disse que “um segundo contrato está em fase final de elaboração com a SPTuris, tendo como escopo o Espaço da Cidade e o aporte destinado à União das Escolas de Samba Paulistanas (UESP)”.
