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Demétrio Vecchioli

Offshore ligada a Flávio era gerida por presidente de entidade de bets

Flávio Bolsonaro alega que foi convidado por Willer Tomaz. Cota do advogado no avião era administrada por presidente de associação de bets

15/10/2026 16:24, atualizado 15/10/2026 17:13
Reprodução/ Tv Globo
Candidato Flavio Bolsonaro durante debate no JN eleicoes 2026 metropoles 2

A empresa de Willer Tomaz cuja conta bancária tinha Flávio Bolsonaro (PL) como “usuário master” era administrada, à época, pelo presidente de uma entidade que representa o interesses das bets. Como já mostrou a coluna, a maior fonte de renda do advogado amigo do senador vinha de uma empresa do setor, na qual ele negava ser sócio – agora sabe-se que ele era o único dono.

Na semana passada, o UOL revelou que emails obtidos pela Polícia Federal em uma das fases da operação Sem Desconto indicam que Flávio dividia uma conta no banco Santander com Tomaz. Nesta quarta-feira (14/10), o jornal O Globo deu mais detalhes: o presidenciável estava cadastrado como “usuário master” da conta bancária dessa empresa, a Alcazar Holdings.

Trata-se de uma offshore registrada na Ilha da Madeira, em Portugal, que tem Tomaz como único dono e é proprietária de uma cota do jatinho Legacy 650 de matrícula PP-NLR. Outra dessas cotas pertencia a Daniel Vorcaro, que depois a ofereceu como contraparte pelo pagamento pelos serviços do escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes.

Documentos obtidos pela coluna mostram que, desde a constituição da offhsore por Willer em abril de 2023 até junho desde ano, a offshore Alcazar Holdings era administrada pelo advogado Mateo Scudeler, que ao mesmo tempo era presidente da Associação Nacional dos Operadores Estaduais de Jogos e Loterias (Opera Legal).

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A entidade defende os interesses das casas de apostas com licenças estaduais e tem entre os associados a Pixbet (que teve um dos sócios preso na semana passada por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e sonegação fiscal e que já foi sócia de Daniel Vorcaro), a Vai de Bet e a MarjoSports. Scudeler e Tomaz negam qualquer tipo de irregularidade – leia as notas na íntegra no final da reportagem.

Interesses das casas de apostas

A Opera Legal foi fundada em agosto de 2024 e ganhou visibilidade em novembro daquele ano, quando pediu para ser acimus curiae (amiga da corte) em uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) que discutia no Supremo se as bets que comprassem a licença vendida pelo estado do Rio de Janeiro poderiam atuar no país todo sem precisar adquirir a licença federal.

Então relator da ADI, o ministro Edson Fachin se declarou impedido depois que um ex-assessor assinou uma petição da Opera Legal. Um novo sorteio foi realizado e a ADI caiu com o ministro André Mendonça, que atendeu ao pedido da União e proibiu a Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) de explorar atividades de loterias e jogos eletrônicos fora do estado.

Como já contou a coluna, Willer Tomaz atuava pessoalmente para convencer casas de apostas a optarem pela licença fluminense, demonstrando confiança de que elas poderiam atuar nacionalmente sem precisar comprar a licença federal. No Rio, a licença beneficiava principalmente a RioPag, intermediária de pagamento que tinha o monopólio do serviço cobrando taxas de até 2,5% sobre cada Pix de um apostador para uma casa de apostas e vice-versa. Tal monopólio foi garantido durante a gestão Cláudio Castro (PL), do mesmo grupo político de Flávio Bolsonaro.

Em julho, Willer admitiu à coluna que era dono indireto da RioPag, insistindo sempre que detinha uma porcentagem pequena das cotas de um fundo que investia em uma empresa que, por sua vez, era dona da empresa. Documentos conhecidos agora mostram que na verdade ele era o único dono da RioPag, de forma indireta – Willer é dono da Brasilis, dona da Capital Pretium, por sua vez dona da RioPag. Só em 2024 a Brasilis rendeu R$ 64 milhões para ele.

A Alcazar, dona da cota do jatinho em que Flávio Bolsonaro voou, também tem uma filial no Brasil, a Alcaraz Brasil Ltda. Até junho, a empresa tinha como administradora e representante legal Lídia Maria Figueiredo Mazelli. Em entrevista ao ICL no mês passado, ela disse que trabalha como doméstica em Brasília – depois, voltou atrás e entrou na Justiça contra os jornalistas que publicaram a informação.

Lídia também administra ou administrava formalmente a Capital Pretium e diversas outras empresas ligadas a Willer Tomaz, como a WT Administração de Imóveis e Bens, que concentra o patrimônio do advogado. Agora quem administra a offshore portuguesa é Flávia Oliveira Correa Tomaz, esposa de Willer.

O que dizem os envolvidos:

Willer Tomaz:

“O advogado Willer Tomaz e o senador Flávio Bolsonaro nunca compartilharam conta bancária. Como mostra o próprio e-mail citado, o Banco Santander vinculou o advogado, por equívoco, como usuário da conta do parlamentar, e a mensagem foi enviada justamente para corrigir o problema detectado. O parlamentar, por sua vez, jamais teve cadastro, acesso ou movimentou valores ligados a Willer ou a suas empresas, incluindo a Alcazar.

Não há e nem houve sociedade entre os dois em qualquer negócio. A relação é exclusivamente de amizade, nada além disso. Um erro cadastral do banco, já corrigido, vem sendo reproduzido de forma irresponsável como se fosse indício de crime. Insistir nessa versão, em plena campanha eleitoral, revela claramente o propósito de interferir no pleito. Os responsáveis por essas acusações falsas responderão na Justiça. Quanto à Riopag, Willer Tomaz não é administrador ou gestor da empresa. Ele somente atua como advogado.”

Mateo Scudeler:

“Sou advogado e, no exercício da profissão, exerço funções de representação e administração contratada de diversas pessoas jurídicas. Uma delas é a Alcazar, da qual não sou e nunca fui sócio. Essas funções têm natureza privada e são exercidas conforme as deliberações de quem detém o capital social. Também integrei, por mandato já encerrado, a diretoria de uma associação privada e setorial, atividade lícita e sem relação com as demais.

Fui procurado pelo colunista, que me apresentou recortes de documentos e de conversas de terceiros, sem o devido contexto. Não fui remetente nem destinatário de quaisquer das comunicações mencionadas. Flávio Bolsonaro nunca figurou como ‘usuário master’ (sic) de conta bancária de empresa sob minha responsabilidade. Desconheço investigação envolvendo a empresa ou qualquer imputação de irregularidade relacionada à minha atuação profissional.

Considero temerária a tentativa de associar atividades e clientes distintos apenas em razão do profissional que atuou em cada um deles. Sou pessoa privada, não exerço função pública e confio nas instituições e na Justiça. Reafirmo meu respeito ao jornalismo responsável, essencial à democracia.“