Willer Tomaz recebeu R$ 67 milhões de empresa que lucra com bets
Repasse de lucros confirma que advogado é dono da Riopag, que ganhou do governo Castro o monopólio em intermediação de pagamentos a bets

A Empresa Brasileira de Sistemas de Computação (Embrasis) distribuiu R$ 67,79 milhões em lucros em 2024 a um de seus sócios, o advogado Willer Tomaz, que teve nela sua principal fonte de renda. Isso confirma Willer como dono da RioPag, que tinha o monopólio para a intermediação de pagamentos entre apostadores e bets no Rio de Janeiro e pertence, indiretamente, à Embrasis.
Esse monopólio, garantido pela gestão Cláudio Castro (PL), só foi rompido este mês, depois de a RioPag sumir com R$ 20 milhões pertencentes à Loteria do Estado do Rio (Loterj), como revelou a coluna em julho.
O advogado perdeu R$ 163 milhões em apostas em 2025 apenas em uma casa de apostas, a Blaze, conforme o Metrópoles publicou nesta terça-feira (30/9). Isso é mais do que toda a renda bruta dele declarada à Receita Federal em 2025, R$ 120,1 milhões, conforme noticiou o ICL.
Em nota à coluna, Willer disse que não comentará informações obtidas a partir de documentos protegidos por sigilo fiscal e bancário e criticou a divulgação das informações. Veja o comunicado dele no final da reportagem.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesDono da RioPag
Quando a relação societária entre Tomaz e a RioPag foi revelada pela coluna, em julho, Willer afirmou à reportagem que era acionista de um fundo que investia indiretamente na RioPag através de outra empresa. Também disse que recebia dividendos irrisórios por esse investimento.
Na verdade, Willer recebeu R$ 67,790 milhões da Embrasis em 2024 a título de “lucros e dividendos”, como noticiou primeiro o ICL e o Metrópoles confirmou. O advogado não respondeu sobre a contradição com o que afirmava antes.
A Embrasis é uma sociedade anônima que controla outra SA, a Capital Pretium, por sua vez única dona da RioPag. Essa cadeia de relações demonstra, na prática, que Willer se beneficiava financeira como dono, ou um dos donos, da RioPag – ele dizia atuar só como advogado dela.
A empresa ganhou o monopólio para intermediar saques e depósitos de apostadores em uma concorrência na qual a melhor oferta foi eliminada por conter dois dígitos depois da vírgula, não três, como previa o edital.
Assim, o Rio preferiu abrir mão de receber 26,00% da arrecadação da Idea Maker para receber 20,000% da RioPag, como revelou a Folha em 2024. Castro era defendido por Eugênio Aragão, sócio de Willer em um escritório de advocacia. Além disso, Willer atuou em diversas causas ao lado de Hazenclever Cançado, então presidente da Loterj.
Depois de uma mudança no edital de credenciamento de casas de apostas, a Loterj passou a alegar que as bets licenciadas no estado poderiam atuar no país todo. Até o Supremo Tribunal Federal (STF) decidir no sentido contrário, no início de 2025, as bets do Rio movimentaram bilhões em apostas, beneficiando principalmente a RioPag, que chegou a faturar mais de R$ 30 milhões por mês.
Dinheiro de apostas virava aposta
Como mostrou a coluna, Willer Tomaz movimentou R$ 10 bilhões em apostas em 2025 na Blaze, com a conta chegando a mais de R$ 13 bilhões até junho de 2026. No período, ele perdeu R$ 144 milhões segundo a casa de apostas informou no processo no qual o advogado tenta ser ressarcido nesse valor alegando ser ludopata.
Transações nesse volume só eram possível porque a Blaze e Willer combinavam formas de burlar a legislação federal. Diálogos entre o advogado e um concierge da casa de apostas, juntados aos autos por Willer, mostram a Blaze sugerindo o uso de criptomoedas (algo proibido na legislação federal) e ele aceitando testar.
Também mostram que Willer reclamou de ter que fazer reconhecimento facial para realizar saques e depósitos, o que também é obrigação pela regulamentação de apostas, e foi autorizado pela Blaze a movimentar dinheiro sem precisar do reconhecimento.
Chama atenção que a Embrasis, empresa da qual Willer é dono e que tem sede no escritório de advocacia dele, vende reconhecimento facial para jogos on-line. E que ele era beneficiário final de um contrato de intermediação de pagamentos entre bets e apostadores, serviço que, enquanto pessoa física, ele driblava ao apostar na Blaze, conforme consta no processo aberto contra a casa de apostas.
O que diz Willer Tomaz
“O advogado Willer Tomaz informa que não comentará informações obtidas a partir de documentos protegidos por sigilo fiscal e bancário.
A divulgação indevida de dados dessa natureza é crime. Em razão da publicação realizada hoje pelo ICL, já foi protocolada representação criminal perante o Ministério Público Federal contra os jornalistas responsáveis e para apuração da origem e do acesso aos documentos sigilosos.”




