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Nunes entrega diretoria a embaixadora de empresa com contratos com secretaria
Érika Coimbra é embaixadora da Recoma, empresa de pisos esportivos. Prefeitura diz que ela foi escolhida por ser medalhista olímpica
atualizado
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O prefeito Ricardo Nunes (MDB) nomeou a ex-jogadora de vôlei Érika Coimbra como diretora do Centro Olímpico, cargo que na prática dá a ela o comando sobre toda a estrutura de esporte de alto rendimento da prefeitura de São Paulo. Até assumir o posto, Érika atuava como “embaixadora” da Recoma, construtora de infraestrutura esportiva que é maior fornecedora da Secretaria de Esporte (SEME).
Questionada pela reportagem, a secretaria explicou que escolheu Érika para o cargo porque ela é “ex-atleta e medalhista olímpica”, sem apresentar outras qualificações. Procurada, a nova diretora do Centro Olímpico não respondeu. Ela foi bronze em Sydney-2000 e se aposentou em 2019.
A Recoma tem um histórico recente de vencer a maior parte dos editais de obras em equipamentos esportivos públicos em São Paulo e, uma vez contratada, conseguir seguidos aditivos contratuais que fazem com que o preço da obra cresça substancialmente.
É o caso da principal obra em execução pela SEME, a reforma do Centro Esportivo Thomaz Mazzoni, na Vila Maria, na zona Norte. A Recoma venceu a concorrência com uma proposta de R$ 39 milhões, em outubro de 2022. Três anos depois, o contrato já está em R$ 58 milhões, sob a justificativa genérica de “fatos supervenientes, não previstos ou não localizados quando das vistorias iniciais”.
Pela mesma razão, o governo do Estado encerrou o contrato de reforma da Vila Olímpica Mario Covas, no Butantã, na zona Oeste. A obra foi licitada em agosto de 2022 por R$ 40,3 milhões e a rescisão aconteceu depois de a Recoma pedir o quarto termo aditivo, o que elevaria o custo para R$ 50 milhões, como revelou o Metrópoles. A gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) impediu a Recoma de participar de novas licitações – a decisão, porém, foi revertida na Justiça. No passado, o SESI também chegou a adotar medida semelhante.
Quando realizou a reforma do complexo esportivo do Ibirapuera, do estado, a Recoma foi contratada em 2010 por R$ 26,7 milhões, mas acabou recebendo R$ 39,4 milhões após diversos aditivos. A empresa foi condenada pela Justiça a devolver R$ 6,9 milhões por falhas na obra.
Nos últimos anos, a empresa de pisos esportivos tem investido pesado em ações de relacionamento com potenciais contratantes, utilizando ídolos olímpicos como “embaixadores”, entre eles Maurren Maggi, Arthur Zanetti, Rafael Silva e Érika Coimbra. Zanetti (que sempre viveu e treinou em São Caetano do Sul) e Maurren (que é de São Carlos) foram os principais rostos de um evento de apoio de “esportistas” à candidatura de Ricardo Nunes no segundo turno das eleições municipais passadas – a Recoma nega ter intermediado a participação.
Também era a Recoma por trás, em 2023, da campanha relâmpago da prefeitura de São Paulo para sediar os Jogos Pan-Americanos de 2027. Se vencesse, a cidade teria que fazer pesados investimentos na construção de infraestrutura esportiva.
Érika atuava como embaixadora da Recoma
Érika foi anunciada como embaixadora da Recoma em julho de 2024, quando a empresa patrocinou a “Casa Brasil”, do COB, nos Jogos Olímpicos de Paris. Desde então, participou de todos os principais eventos nos quais a Recoma estava presente com grandes estandes, como a COB Expo e o CBC Expo. Também foi apresentada como “embaixadora” da empresa na inauguração da nova sede da Recoma, em novembro. Em 22 de janeiro, publicou vídeo no Instagram, gravado no Centro Olímpico, vestida com camiseta da Recoma.
De acordo com a SEME, Erika informou que “nunca houve vínculo contratual entre ela e a empresa Recoma, tendo atuado apenas como freelancer em eventos esporádicos, sem qualquer relação contratual formal com a empresa”. A Recoma também bateu tecla que o vínculo com sua embaixadora era como freelancer.
“A Secretaria Municipal de Esportes e Lazer informa que todas as contratações realizadas pela Administração Municipal seguem rigorosamente a legislação vigente, por meio de processos públicos, transparentes e impessoais, submetidos à fiscalização dos órgãos de controle competentes, não havendo ingerência individual de dirigentes nesses processos”, disse a prefeitura.
A Recoma afirmou que: “Erika Coimbra foi contratada pontualmente para ser embaixadora da marca em feiras e congressos, assim como vários outros esportistas já fizeram”.
O cargo de diretor do Centro Olímpico já foi ocupado por outros medalhistas olímpicos, como Magic Paula, do basquete, Henrique Guimarães e Rogério Sampaio, do judô. O último ocupante do cargo antes da chegada de Érika foi Mário Maeda, ex-judoca formado em Administração de Empresas, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e Gestão Pública e Mestrado em Engenharia.
Em nota, a Recoma destacou que “atua em um nicho altamente especializado de infraestrutura esportiva” e que “a recorrência da empresa em licitações públicas decorre de qualificação técnica, certificações específicas e histórico de entregas em um mercado restrito e tecnicamente exigente”.
Segundo a Recoma, o aditivo no contrato do Complexo Esportivo Thomaz Mazzoni foi uma determinação do prefeito Ricardo Nunes, que, ao visitar a obra, notou que as piscinas estavam interditadas. “Com este novo pedido, as estruturas do Feijão e Feijãozinho precisaram ser reconstruídas – obra nova que foi incluída no processo por meio de um aditivo”. Isso não consta na documentação pública.
“A empresa reforça que controvérsias administrativas são inerentes à complexidade de grandes obras públicas e devem ser analisadas com rigor técnico e jurídico. A empresa atua sob fiscalização permanente do poder público e dos órgãos de controle e permanece à disposição para prestar todos os esclarecimentos necessários”, disse a empresa.
O que diz a Recoma:
Com quase 50 anos de história, a Recoma atua em um nicho altamente especializado de infraestrutura esportiva. A recorrência da empresa em licitações públicas decorre de qualificação técnica, certificações específicas e histórico de entregas em um mercado restrito e tecnicamente exigente. Vencer editais nesse setor é consequência direta de competitividade de preços e atendimento aos requisitos definidos pelos próprios entes públicos.
A empresa não está impedida de participar de novas licitações em São Paulo. A Justiça derrubou essa punição, e a decisão está suspensa. Atualmente, a Recoma não possui qualquer impedimento para participar de processos licitatórios, em São Paulo ou em qualquer outro lugar.
Outro ponto que precisa ser esclarecido: a empresa não tem poder para isoladamente promover aditivos contratuais. Os três casos citados na reportagem foram determinações dos clientes, e a contratada é obrigada a atender para cumprir o que está previsto em contrato.
No Complexo Esportivo do Ibirapuera, o aditivo foi determinado pelo então governador Alberto Goldman, que decidiu incluir a execução de uma nova pista de atletismo, serviço que não estava orçado no contrato original. A pista, na época, que foi executada executada por outra empresa, estava em péssimo estado, e por esta razão foi solicitado o novo serviço.
No Complexo Esportivo Thomaz Mazzoni: o aditivo foi uma determinação do prefeito Ricardo Nunes, que, ao visitar a obra, notou que as piscinas estavam interditadas. Com este novo pedido, as estruturas do Feijão e Feijãozinho precisaram ser reconstruídas – obra nova que foi incluída no processo por meio de um aditivo.
Complexo Esportivo Mário Covas: Neste caso, a obra foi executada em mais 80% do contrato e o aditivo foi determinado pela própria administração para atender a diversos itens. No caso do SESI, citado no texto, a Recoma já foi contratada para prestar serviços depois deste episódio. A entidade quitou integralmente os débitos discutidos e contratou a Recoma para outras obras.
Com relação às ações de relacionamento com atletas, também levantada pela reportagem, a Recoma esclarece que, no evento de apoio de esportistas à candidatura de Ricardo Nunes, mais de 50 atletas de várias modalidades estavam presentes, além da Maurren Maggi e o Arthur Zanetti, e que foram ao local por serem atletas olímpicos de destaque. Não foi um evento organizado ou apoiado pela Recoma.
No caso de Erika Coimbra, ela foi contratada pontualmente para ser embaixadora da marca em feiras e congressos, assim como vários outros esportistas já fizeram. Ela não é e nunca foi funcionária da Recoma.
A empresa reforça que controvérsias administrativas são inerentes à complexidade de grandes obras públicas e devem ser analisadas com rigor técnico e jurídico. A empresa atua sob fiscalização permanente do poder público e dos órgãos de controle e permanece à disposição para prestar todos os esclarecimentos necessários.
