Demétrio Vecchioli

Herdeiros querem abrir com 18 anos de atraso hotel deixado por Maroni

Enquanto herdeiros dizem confiar que terão documentação, prefeitura afirma que indeferiu pedido de regularização

atualizado

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Oscar Maroni_Hotel
1 de 1 Oscar Maroni_Hotel - Foto: Arte Metrópoles

Oscar Maroni nunca engoliu o fato de ter sido impedido, mais de 18 anos atrás, de colocar para funcionar o suntuoso hotel cinco estrelas construído ao custo de dezenas de milhares de cabeças de boi e nomeado em homenagem própria.

O empresário da “noite” – para muitos, o cafetão mais famoso do Brasil – morreu culpando a degradação do seu Oscar’s Hotel pela degradação também do seu quadro de saúde. Tinha certeza que o prédio erguido a cerca de 600m da cabeceira da pista do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, e lacrado logo após a morte de quase 200 pessoas ali do lado em 2007, foi usado como bode expiatório para desviar atenção das responsabilidades o gravíssimo acidente.

 

“Cai o avião da TAM, morrem 199 pessoas. Quem vai preso? O dono do puteiro”, dizia e escrevia. A frase está na contracapa da autobiografia de Maroni, exposta em uma espécie de redoma na entrada da boate Bahamas, um “balneário” onde mulheres e homens pagam para entrar, mas os valores cobrados deles são muito mais altos e lhes dão o direito de permanecerem por 1h em quarto de hotel na companhia de quem desejarem (ou contratarem).

Agora, sem o ressentimento do pai – que chegou a rejeitar acionar o seguro da obra quando pastilhas começaram a se desprender da fachada, porque desejava expor publicamente a degradação causada pela interdição –, os filhos trabalham nos bastidores para conseguir derrubar os vetos legais ao empreendimento e vendê-los a alguma rede hoteleira disposta a reembolsar pelo menos os R$ 250 milhões, em valores atuais, investidos.

Exceto pela ausência de televisão nos quartos, pela dificuldade de localizar as chaves de todas as suítes trancadas há 18 anos, e algumas adequações, o hotel está pronto para ser inaugurado, exatamente como estava em meados de 2007, quando o então prefeito Gilberto Kassab (hoje no PSD) cassou o alvará de aprovação e construção do hotel. Nos últimos meses, funcionários realizaram pequenos consertos para a obtenção de laudos.

Com 13 andares e no funil de chegada de aviões a Congonhas, o edifício prejudicaria os pousos à medida que impediria o prolongamento da pista, pelo que justificou Kassab à época. A decisão foi assinada uma semana depois de um avião da TAM cair em Congonhas e causar 199 mortes, em acidente sem relação direta com o Oscar’s Hotel.

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Atual situação do Oscar's Hotel
Ricco Sant'Anna com maquete
Escadaria do Oscar's Hotel
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Escadaria do Oscar's Hotel

Atual situação do Oscar's Hotel
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Atual situação do Oscar's Hotel

Ricco Sant'Anna com maquete
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Ricco Sant'Anna com maquete

A prefeitura também alegava que Maroni havia licenciado um edifício residencial, mas anunciava aos sete ventos que inauguraria ali um hotel. Depois de meses de decisões judiciais de lado a lado, que também causaram o fechamento do Bahamas e a prisão de Maroni – acusado de favorecimento e exploração da prostituição depois de dizer, em entrevista que seu empreendimento era uma “casa de prostituição de luxo –, a boate acabou reabrindo.

O hotel, porém, nunca recebeu um hóspede. Em 2009, a Justiça determinou a demolição do prédio, o que também nunca aconteceu.

Dezoito anos à espera de um cliente

Desde então, o Oscar’s Hotel, cuja construção teria custado R$ 70 milhões – R$ 253 milhões atuais – está fechado. O único morador de um prédio de 220 suítes é uma pessoa em situação de rua que recebeu autorização da família para instalar sua barraca na área externa do terreno, contíguo ao Bahamas, em troca de impedir invasões.

Já vivendo recluso, Maroni tentou sensibilizar Ricardo Nunes (MDB) assim que o prefeito assumiu o cargo, em 2021. Em uma carta, apresentou documentos, apontou supostas falhas no processo, reclamou ter sido perseguido por Kassab, e relacionou seus problemas de saúde ao hotel.

“Os danos morais sofridos por motivos torpes me desencadearam sérios problemas de saúde, pela desestabilização emocional que tenho, ao ver da janela de meu apartamento, ali próximo, dia após dia, ao longo de todos estes anos, meu bem maior ir a ruína”, escreveu a Nunes, compartilhando com o prefeito uma foto de seus pés inchados – ele tinha diabetes.

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Oscar Maroni
Empresário Oscar Maronii morre aos 74 anos
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Quando Maroni passou a viver incomunicável em uma casa de repousos, curatelado pelos filhos, que também passaram a administrar seu patrimônio, o empresário Rivaldo Sant’Anna foi contratado para tentar destravar a situação. Ricco é conhecido por ter se tornado proprietário do Caveirão, um edifício condenado no centro de São Paulo – ao comprar o prédio, ele também passou a ser responsável por pagar à prefeitura mais de R$ 6 milhões pela demolição.

No caso do Oscar’s Hotel, a aposta da família é no suposto bom relacionamento de Ricco com a gestão Ricardo Nunes, que em 2023, em resposta à carta de Maroni, descartou reabrir o processo de concessão de alvará da obra. Alegou haver irregularidade insanável, já que a edificação supera o coeficiente máximo de aproveitamento admitido. Em abril do ano passado, de acordo com a prefeitura, a Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL)  indeferiu pedido de regularização para o endereço a partir de um Certificado de Regularização, tem a mesma finalidade do “Habite-se”.

Os quatro herdeiros de Maroni — três filhos homens e uma filha mulher, que não participa da administração — não falam publicamente sobre a pretensão de abrir o hotel. Eles tratam como trunfo uma declaração de 2017 do Serviço Regional de Proteção de Voo de São Paulo aprovando a implantação do Oscar’s Hotel como um objeto projetado no espaço aéreo. O documento venceu em 2022, mas é usado pela família para demonstrar que não é por ameaçar a segurança de vôo que o hotel segue fechado.

Com a certeza de que eventualmente conseguirá o habite-se para a obra, a família já apresenta o prédio para interessados em instalar ali um hotel. A estrutura é de primeira linha: são 220 quartos com mármore nos banheiros e madeira nobre por toda parte. No térreo e em três subsolos ficam um centro de convenções de 1.400 m² e 14 câmaras frigoríficas distribuídas entre restaurantes, bares e cozinhas para catering.

“O que tem de mármore nesse hotel é algo incomensurável hoje em valores”, diz Ricco em um dos vídeos publicados recentemente no Instagram dele exibindo o hotel para eventuais interessados. A família considera que as reformas necessárias, principalmente na fachada vandalizada, custariam cerca de R$ 10 milhões.

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