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Vendedores relatam aumento de furtos no Ibirapuera e criticam Urbia
Concessionária diz que tem solicitado a presença ostensiva de PM e GCM no parque. Segurança patrimonial é responsabilidade da Urbia
atualizado
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Vendedores que trabalham no Parque do Ibirapuera relatam um aumento expressivo no número de furtos em seus quiosques nos últimos meses e dizem sentirem-se desprotegidos desde que a segurança patrimonial passou a ser responsabilidade da concessionária Urbia. Um único comerciante foi furtado oito vezes em seis meses.
Apesar de o parque contar com 270 câmeras de segurança, que poderiam ajudar a localizar os ladrões, a prefeitura, o estado e a Urbia optaram por não incorporar as câmeras ao Smart Sampa, vitrine da gestão Ricardo Nunes (MDB), e ao Muralha Paulista, da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos). Apenas dez câmeras, localizadas nos portões, fazem parte dos sistemas públicos, visando identificar condenados pela Justiça.
Recentemente a Urbia promoveu a substituição dos pontos de vendas do parque. Os vendedores que antes tinham seus próprios carrinhos agora pagam R$ 500 por mês à concessionária para utilizar um quiosque que leva a marca de uma parceira da Urbia. Cada comerciante decide os dias e horários de trabalho, deixando o quiosque trancado com os produtos dentro no restante do tempo. A concessionária fica com 10% de tudo que é comercializado.
“Quando era nosso, a gente cobria com lona e não tinha assalto. Não era furtado. Foi assim por muito tempo. Agora a Urbia trocou por esses quiosques e a gente está sendo furtado quase todos os dias. Teve furto semana passada, teve furto essa semana. Chegou em uma situação que a gente não aguenta mais. Não tem mais a quem recorrer. A gente tem levado para a Urbia direto, mas a Urbia não leva a sério. Se levasse a sério teria colocado vigilância, teria ido ao prefeito, qualquer lugar, porque eles têm condições“, diz Antonia Cleide, presidente da Cooperativa dos Vendedores Autônomos do Ibirapuera e que trabalha no parque há 25 anos.
Antes da concessão, formalizada em 2020, a segurança do parque era realizada principalmente pela Guarda Civil Municipal (GCM), que tinha duas bases dentro do Ibirapuera. Uma foi transformada em uma área VIP do Nubank. Outra, em um espaço de ativações comerciais, que já foi a Casa Centauro e agora está parcialmente fechada, à espera de um patrocinador.
Agora, a presença da GCM é quase tão rara quanto da PM, ainda que a responsabilidade pela segurança pública no local siga sendo do poder público. Pela concessão, porém, cabe à Urbia realizar a segurança patrimonial, o que, em tese, envolve garantir a inviolabilidade dos quiosques que ela aluga aos ambulantes organizados em duas cooperativas.
Antes raros, os furtos começaram a ser frequentes há dois anos e, de seis meses para cá, passaram a ser constante, de acordo com os vendedores, que evitam se expor individualmente – temem que podem perder o contrato, que é renovado anualmente pela Urbia.
Vendedores convivem com medo e prejuízos
De acordo com Antonia, que fala em nome dos demais cooperados, os furtos acontecem principalmente à noite, quando o número de frequentadores do parque é menor. Cabos de aço, cadeados e correntes de ferro são estourados pelos bandidos, que buscam principalmente produtos pequenos, que podem ser transportados com descrição.
“Eles abrem o quiosque, jogam as coisas fora, e pegam doce, gel, produtos que a gente compra para colocar no quiosque. Levam caixa, maquininha, Quebra vitrine para docinho, que não é barato, custa R$ 500. Se a pessoa deixar troco, é levado. Levam barra de cereal, gel que é consumido pelos corredores, chiclete. O resto eles jogam tudo pelo chão, largam tudo quebrado, é vandalizado“, conta Antonia.
O contrato de concessão exigiu da Urbia o “cadastro, regularização e integração” dos ambulantes que já trabalhavam no local. A regularizou os comerciantes, mas exige que eles vendam produtos a preço tabelados, vários deles fornecidos pela Urbia, como é o caso das bebidas (a concessionária tem contrato de exclusividade com a Ambev) e dos cocos (a Urbia cobra uma taxa para distribuí-los aos comerciantes).
A líder da cooperativa diz que os comerciantes já cansaram de pedir ajuda para a concessionária. “A gente tem levado pra Urbia e quer saber quem vai pagar pelo nosso prejuízo. Eles falam: ‘faz boletim [de ocorrência] e traz. A gente faz, mas é em vão. Como a segurança é responsabilidade da Urbia, ela é que deveria cobrir nosso prejuízo“.
Agora, os vendedores pedem para ser recebidos pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB), o que até agora não aconteceu. Na semana passada, a vereadora Luna Zaratini e o deputado estadual Eduardo Suplicy, ambos do PT, enviaram ofício à prefeitura pedindo uma audiência sobre a segurança no parque, mas ainda não tiveram resposta.
Ao pedir o encontro com Nunes com urgência, Antonia relatou que “a falta de policiamento ostensivo e presente dentro do Parque Ibirapuera tem estimulado meliantes, gangues e todo tipo de assaltantes e furtadores a atuarem dentro do parque, causando terror e insegurança para usuários e trabalhadores”. Segundo ela, os relatos de assaltos e furtos a frequentadores também cresceu de forma significativa nos últimos meses. A Urbia diz que, em 2025, foi registrada uma redução de 38% nos atos ilícitos no Parque em comparação com 2024.
O que dizem os envolvidos
Prefeitura de São Paulo: “A Secretaria Municipal de Segurança Urbana (SMSU) informa que a Guarda Civil Metropolitana mantém ações coordenadas com a concessionária para garantir a segurança dos visitantes, ambulantes e comerciantes. O patrulhamento é reforçado nos horários de maior movimento, com rondas motorizadas no perímetro do parque. O entorno conta, também, com câmeras inteligentes do programa Smart Sampa”.
Urbia: “A concessionária mantém diálogo permanente com os órgãos de segurança pública e solicita, de forma recorrente, a presença ostensiva dessas forças no entorno e no interior do parque. Em relação aos furtos de pontos comerciais citados, o Ibirapuera conta com 120 pontos de venda e a concessionária está substituindo carrinhos antigos por modelos mais reforçados e orientando vendedores autônomos quanto ao uso adequado de travas de segurança e dispositivos de alarme.
Sempre que há registro de ocorrência envolvendo tais equipamentos a concessionária realiza apuração interna para avaliação de eventuais danos e procedimentos cabíveis. A Urbia reforça ainda a importância do registro de Boletim de Ocorrência, fundamental para o planejamento de ações de segurança pública por parte das autoridades competentes”.
Secretaria de Segurança Pública: “As polícias civil e militar atuam de forma integrada para apoiar as ações de segurança que envolvem o parque Ibirapuera, que é concedido à iniciativa privada. Sempre que acionada pela segurança do parque ou pelo telefone 190, equipes da PM se deslocam prontamente para o atendimento de ocorrências.
Diariamente, a Polícia Militar também realiza operações para reforçar o policiamento preventivo e ostensivo no entorno da área e na região, mobilizando equipes do 12º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano, por meio de rádio patrulhamento. Além disso, aos finais de semana, equipes são mantidas em pontos fixos, mapeados como estratégicos pelo setor de Inteligência”.








