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Vereadora aciona MPSP contra Smart Sampa em equipamento de saúde
Amanda Paschoal quer que MPSP investigue instalação de câmeras do Smart Sampa em serviços que atendem pessoas que vivem com HIV/Aids
atualizado
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A vereadora Amanda Paschoal (Psol-SP) protocolou uma representação contra o prefeito Ricardo Nunes (MDB) junto ao Promotoria de Justiça e Direitos Humanos da Capital denunciando a instalação de câmeras do programa Smart Sampa, dotadas de tecnologia de reconhecimento facial, no interior do Serviço de Assistência Especializada (SAE) Fidelis Ribeiro, unidade da rede municipal de saúde.
O serviço é voltado atendimento de pessoas vivendo com HIV/Aids e outras infecções sexualmente transmissíveis. O equipamento do Smart Sampa, assim, acaba por vigiar pessoas que vão ao serviço de saúde para retirar medicamentos. Como revelou a coluna, o caso foi denunciado por Ghe Santos, conselheiro estadual de Políticas para a População LGBT+.
“O tratamento de pessoas vivendo com HIV exige ambiente de absoluto acolhimento, segurança institucional e confidencialidade. É amplamente reconhecido que o receio de exposição indevida da condição sorológica constitui fator relevante de abandono terapêutico, o que torna ainda mais grave a introdução de mecanismos de vigilância nesses espaços”, escreveu a vereadora na representação ao Ministério Público.
Amanda aponta que a implementação de sistemas de reconhecimento facial em unidades de saúde para pessoas vivendo com HIV/Aids implica o tratamento de dados pessoais sensíveis, especialmente informações relacionadas à saúde, que têm proteção jurídica reforçada no país. Uma lei de 2022 diz que “é vedada a divulgação, pelos agentes públicos ou privados, de informações que permitam a identificação da condição de pessoa que vive com HIV (…)” no âmbito de “serviços de saúde”.
No entender de Amanda, falhas institucionais na proteção de informações sensíveis relacionadas à condição sorológica podem gerar danos irreparáveis, intensificando estigmas, discriminação social, violência simbólica e afastamento de pessoas do tratamento em saúde, com impactos diretos e negativos sobre a saúde pública.
“A manutenção do sistema Smart Sampa em unidades que atendem pessoas vivendo com HIV/Aids, apesar de alertas reiterados de órgãos técnicos, conselhos de controle social e profissionais da saúde, evidencia conduta institucional negligente e reiterada, incompatível com o dever constitucional de proteção reforçada à intimidade, à saúde e à dignidade humana. Trata-se da adoção consciente de uma política pública que ignora riscos amplamente conhecidos e expõe usuários do Sistema Único de Saúde a situações de constrangimento, medo e afastamento do cuidado, circunstância que agrava a responsabilidade do Poder Público e torna necessária a atuação do Ministério Público para cessar e prevenir novas violações”, aponta a vereadora.
Paschoal argumenta que o caso revela, de forma inequívoca, a incidência de discriminação institucional e racismo estrutural, uma vez tratar-se de controle incompatível com a finalidade do serviço prestado fragilizando o sigilo em saúde e produzindo efeitos concretos de medo, afastamento do cuidado e exclusão institucional em um público composto principalmente por pessoas negras, pobres, periféricas e integrantes da comunidade LGBTQIA+.
A representação pede que o MPSP determine a instauração de Inquérito Civil para apurar a legalidade, constitucionalidade material e os impactos da política pública de implantação do Samart Sampa em unidades de saúde para pessoas vivendo com HIV/Aids e outras ISTs, apure a responsabilidade político administrativa de Nunes e a ocorrência de racismo institucional, violência institucional e criminalização da condição de saúde.
Amanda ainda quer que o MPSP determine a suspensão do uso de tecnologias de reconhecimento facial em unidades de saúde, a abstenção de utilização de equipamentos de saúde como espaços de vigilância, repressão ou controle social e a adequação das políticas municipais às diretrizes do SUS e dos direitos humanos.
Em nota à coluna, a prefeitura defendeu a iniciativa, alegando “uso político de um tema tão importante como o atendimento às pessoas que vivem com HIV”. “As câmeras do Programa Smart Sampa têm finalidade exclusiva de segurança, não interferem no acesso aos serviços de saúde — o que se reflete em oito anos consecutivos de queda nas novas infecções por HIV, com redução total de 55% — e são instaladas apenas em áreas de acesso comum, nunca em ambientes de atendimento”, disse a gestão Ricardo Nunes.
A prefeitura, que não havia sido notificada até a última quarta-feira (15), afirmou também que o Smart Sampa apresenta índice de assertividade de 99,5%. “O sistema opera com rigor técnico, sem incidência maior por cor ou raça, garantindo precisão com respeito aos direitos individuais”, destacou.
