Conceição Freitas

Se fosse um monge, Lucio Costa seria um monge insolente e cômico

Lucio Costa fez das suas, dizia o que tinha de dizer, desconcertava, se impunha. Uma série de acontecimentos provam essa personalidade

atualizado

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1 de 1 cronica-conceicao - Foto: Reprodução Biblioteca Nacional

Numa de suas últimas entrevistas, Lucio Costa declarou ao final de mais uma resposta sobre seus pensamentos e atos de arquitetura: “Sou muito pessoal”.

Essa individualidade incisiva do arquiteto faz dele um personagem ainda mais rico do que rico já é. Lucio era muito singular no que pensava, escrevia, fazia ou deixava de fazer, tinha uma coragem atrevida consigo mesmo.

Não escapava dele mesmo nem parecia disposto a abdicar dessa fidelidade interior. Quando, em meados dos anos 1930, apaixonado por duas Julietas ao mesmo tempo, fugiu de dilemas emocionais deixou claras as razões da fuga em cartas que escreveu à família no convés do navio a caminho da Europa, olhando para a espuma do mar: “E fugia a terra, fugiam os entes queridos – fugiam Lieta e Leleta – fugia tudo”.

Talvez não fosse uma escolha, mas uma imposição quase atávica, essa de ser leal a si mesmo.

Essa fidelidade se expressava, sem alarde, em longos períodos de reclusão. Mas, ao contrário do que se pode imaginar, Lucio não era um tipo de monge de onde brotavam incessantes e contidas sabedorias ditas quase em forma de oração. Se fosse monge, seria um monge ora insolente, ora cômico.

Ele fazia das suas, dizia o que tinha de dizer, desconcertava, se impunha. Uma vez, lá nos anos 1930/1931, quando assumiu por um curto período a direção da Escola Nacional de Belas Artes
– num tempo anterior ao surgimento das faculdades de arquitetura –, houve um concurso interno entre os alunos. Venceu um projeto convencional de Wladimir Alves de Souza. Em segundo lugar, o projeto moderno de Affonso Eduardo Reidy, que mais tarde viria a ser um dos mais consagrados arquitetos do seu tempo.

Inconformado com o resultado, Lucio fixou na porta da escola um aviso: “A diretoria respeita o concurso, mas considera o 2º lugar, de Affonso Eduardo Reidy, como o que expressa o espírito mais desejável”. E determinou que essa declaração constasse oficialmente da documentação referente àquele concurso.

Não fazia nem um mês que Lucio tinha deixado a direção da ENBA, no meio da guerra santa entre tradicionalistas e modernos, quando perdeu sua carteira de couro de jacaré na Biblioteca
Nacional.

Depois de muito procurar e já descrente de que poderia recuperar os documentos pessoais e o dinheiro, recebeu um recado: a carteira havia sido encontrada por um funcionário da casa. Ao que Lucio comentou, já com a carteira novamente no bolso: “Vocês perguntam? Onde está a honestidade? Eu, por mim, respondo: Na Biblioteca Nacional”. Essa história foi contada no jornal O Globo de 7 de novembro de 1931. E não era uma história fortuita, ingênua, divertida. Era mais um recado irônico de Lucio aos detratores que o destituíram do cargo de diretor da ENBA.

Assim, com pequenos e deliciosos acontecimentos, mais do que os grandes, amplamente descritos em teses, ensaios e tais, vou juntando peças miúdas e reveladoras do personagem que estou biografando.

Como se estivesse construindo uma casa e tivesse de procurar os tijolos, um a um, e a cada descoberta fosse percebendo que não tenho a menor ideia de como ficará a casa pronta, porque o material de construção que vou encontrando vai alterando a ideia inicial, se ideia inicial havia.

Investigar a vida de qualquer pessoa que tenha passado muito tempo sobre a Terra é uma aventura biográfica, investigar a vida de Lucio Costa é uma aventura surpreendente, inspiradora, divertida, um modo de me abrasileirar ainda mais.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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