
Claudia MeirelesColunas

O beabá do vinho: enóloga Lara Magalhães elabora guia para iniciantes. Veja vídeo
Da diferença entre espumante e champanhe às uvas clássicas e harmonizações, especialista apresenta um guia prático do universo do vinho
atualizado
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Para quem está começando a explorar o universo do vinho, a quantidade de termos, regiões e uvas pode parecer intimidante. Foi justamente para tornar esse mundo mais acessível que a empresária Lara Magalhães criou a Wine C, projeto que reúne cursos, degustações e venda de rótulos para consumidores interessados em aprender mais sobre a bebida.

A relação de Lara com o vinho começou há cerca de 13 anos, quando passou a frequentar feiras internacionais do setor em diferentes países. Esses eventos costumam reunir produtores, importadores e especialistas que buscam novos rótulos para seus mercados.
Foi nesse ambiente que ela decidiu aprofundar os estudos sobre o tema. Ao longo do tempo, participou de cursos em alguns dos principais polos ligados ao setor.
“Durante essas viagens comecei a fazer cursos. Fiz curso na França, Espanha e também em Miami, nos Estados Unidos. Mesmo não sendo uma região produtora, a escola de Miami tem cursos muito bons”, explica.

Após cerca de quatro anos nesse circuito internacional, Lara decidiu transformar o interesse em negócio e fundou a Wine C. O projeto, no entanto, começou de forma diferente do que se poderia imaginar.
“Ela não começou como uma empresa de venda de vinho. Começou como uma empresa de eventos e cursos de vinho focados em mulheres”, afirma Lara.
A proposta nasceu de uma percepção feita por ela ao participar de degustações e encontros do setor. Muitas vezes, os espaços eram dominados por grupos masculinos, o que acabava afastando parte do público feminino.
“Eu percebia que existiam muitas confrarias de homens e praticamente nada voltado para mulheres. Muitas vezes elas ficavam sem graça de estar em uma mesa em que os homens falavam sobre os vinhos e elas não sabiam comentar nada”, lembra.
Hoje, além de cursos e degustações, a Wine C também trabalha com a venda de rótulos para clientes de todo o país.

Espumante, prosecco e champanhe: qual a diferença?
Entre as dúvidas mais comuns de quem começa a se interessar por vinhos está a diferença entre espumante, prosecco e champanhe — bebidas frequentemente associadas a celebrações e eventos.
Segundo Lara, apesar das diferenças, todas pertencem à mesma categoria.
“Primeiramente, espumante, prosecco e champanhe são vinhos. São vinhos com borbulhas, que no mundo do vinho chamamos de perlage”, explica.
O que muda entre eles é principalmente a origem e o método de produção. O espumante, por exemplo, costuma ser elaborado pelo método charmat, no qual a segunda fermentação ocorre em tanques de aço inox.
“O método charmat é quando o vinho fica maturando em grandes tanques de inox. Alguns passam por fermentação na garrafa, mas a maioria dos espumantes é produzida nesses tanques”, esclarece Lara.
O prosecco é um tipo específico de espumante italiano. Para receber esse nome, ele precisa ser produzido com a uva Glera e ter origem na região do Vêneto [na Itália]. “É isso que diferencia um prosecco de outros espumantes”, detalha.
Já o champanhe segue regras ainda mais rigorosas. Para ser considerado autêntico, precisa ser produzido na região de Champagne, na França, e passar pela segunda fermentação dentro da própria garrafa.
“Muita gente pergunta por que o champanhe é tão caro. Isso acontece porque a fermentação ocorre dentro da garrafa e existe um processo manual muito cuidadoso”, sustenta.
Segundo a especialista, as garrafas precisam ser giradas diariamente durante meses para garantir a correta evolução do vinho.

O papel do terroir nos vinhos
Ao falar sobre vinhos brancos, Lara destaca um conceito central na enologia: o terroir (terruá). O termo francês é usado para definir o conjunto de fatores naturais que influenciam a produção de um vinho.
“Às vezes as pessoas acham que terroir é coisa de ‘enólogo chato’, mas não é. O terroir é muito importante porque ele representa a identidade do lugar”, garante.
Clima, solo, relevo e até mesmo a intervenção humana influenciam diretamente nas características da bebida.
Entre as uvas brancas citadas pela especialista estão Trebbiano, Sauvignon Blanc e Chardonnay.
A Trebbiano, tradicional na Itália, costuma originar vinhos leves e refrescantes, ideais para dias quentes e pratos à base de peixe ou frutos do mar.
Já a Sauvignon Blanc é conhecida pela acidez marcante e pela mineralidade, características que ajudam a equilibrar pratos mais ácidos.
“Muita gente se surpreende quando eu sugiro vinho branco com feijoada, mas funciona muito bem. A acidez do vinho limpa o paladar da gordura da carne de porco”, argumenta.
A Chardonnay, por sua vez, é considerada uma das uvas brancas mais elegantes e populares do mundo.
Tintos de diferentes estilos
Entre os vinhos tintos, Lara destaca três estilos clássicos de diferentes países: Bordeaux, Malbec argentino e Tempranillo espanhol.
Os vinhos da região de Bordeaux, na França, costumam ser elaborados a partir de blends, geralmente combinando Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot: “São vinhos elegantes, marcantes e com bastante estrutura”, afirma a enóloga.
Na Argentina, especialmente na região de Mendoza, a uva Malbec se tornou um dos grandes símbolos da produção local.
“Apesar de ser uma uva francesa, ela se adaptou muito bem ao terroir argentino e ganhou mais potência e presença”, pontua.
Já na Espanha, a Tempranillo dá origem a vinhos estruturados e cheios de personalidade, bastante apreciados por quem prefere rótulos mais intensos.


Harmonização e ocasiões especiais
Conforme a especialista, muitos desses vinhos combinam bem com pratos tradicionais da culinária brasileira, como churrasco e feijoada.
Tintos argentinos e espanhóis costumam harmonizar melhor com carnes mais gordurosas, enquanto os Bordeaux acompanham bem carnes mais magras e massas.
Entre os rótulos mais sofisticados, Lara destaca o Barolo, vinho italiano produzido a partir da uva Nebbiolo. “O Barolo é um dos rótulos mais emblemáticos da Itália. É um vinho muito elegante, mas também com muita presença”, ressalta.
A recomendação é reservá-lo para ocasiões especiais ou momentos em que a intenção é impressionar convidados. Para Lara, o mais importante é que as pessoas se sintam à vontade para explorar o universo do vinho sem medo.
“A ideia é apresentar o beabá do mundo dos vinhos para quem está começando e tem curiosidade”, diz. Ela acrescenta: “O vinho é um universo enorme e sempre tem algo novo para descobrir.”
Segundo ela, o aprendizado sobre vinhos pode evoluir gradualmente, à medida que o consumidor experimenta novos rótulos e estilos. Por isso, a proposta é continuar aprofundando o tema em novos conteúdos.
“Em outro episódio daremos continuidade. Podemos falar sobre uvas de forma mais profunda, sobre aromas, cores, sabores e também sobre harmonizações mais adequadas”, adianta.
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