
Claudia MeirelesColunas

Médica revela riscos de remédio que virou tendência entre famosos
Médica alerta que o medicamento atua sobre o sintoma, mas não sobre a origem do sofrimento psíquico; entenda
atualizado
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Os beta blockers, ou betabloqueadores, deixaram de ser assunto restrito aos consultórios médicos e passaram a circular também no universo das celebridades, das redes sociais e da cultura da performance. Citados por artistas e figuras públicas como um possível recurso para enfrentar situações de pressão, esses medicamentos vêm sendo associados ao controle da chamada ansiedade de performance, especialmente por ajudarem a reduzir sintomas físicos, como taquicardia, tremores e suor excessivo.
O interesse crescente, no entanto, acende um alerta importante entre especialistas: embora possam amenizar reações corporais desconfortáveis, os betabloqueadores não tratam a ansiedade em si. Segundo a psiquiatra Karina Diniz Oliveira, professora do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, o medicamento atua sobre o sintoma, mas não sobre a origem do sofrimento psíquico.
“Um dos sintomas mais comuns e desagradáveis da ansiedade é a sensação de ‘coração disparado’. O betabloqueador age justamente nesse mecanismo, diminuindo a frequência cardíaca e reduzindo a sensação de ‘batedeira’. Isso não significa que a ansiedade foi tratada”, explica.

O que os beta blockers realmente fazem
Esses medicamentos atuam nos chamados receptores beta-adrenérgicos, ligados à resposta do organismo ao estresse.
Em momentos de ansiedade, o corpo entra em estado de alerta: o coração acelera, a respiração muda, o suor aumenta e pode surgir a sensação de perda de controle. Os betabloqueadores conseguem “frear” parte dessa resposta física, o que faz com que muitas pessoas interpretem esse efeito como uma melhora da ansiedade.
Na prática, porém, o que acontece é uma espécie de “silenciamento” do corpo, e não necessariamente da causa emocional que está por trás do quadro.
Karina faz uma comparação didática: usar apenas o betabloqueador em um quadro ansioso pode ser como tomar antitérmico em uma pneumonia sem tratar a infecção.
“A pessoa pode até sentir um alívio momentâneo, só que o problema continua ali. E, sem tratamento adequado, pode até se agravar”, afirma.

Quando o uso pode fazer sentido
Isso não significa que os betabloqueadores nunca tenham lugar em um contexto de ansiedade. Em alguns casos, eles podem ser prescritos como auxiliares, especialmente quando os sintomas físicos são muito intensos e comprometem o funcionamento da pessoa em situações pontuais.
Ainda assim, a especialista reforça que esse tipo de medicamento não deve ser visto como solução principal, muito menos como “atalho emocional” para lidar com nervosismo, exposição ou cobrança excessiva.
“Os estudos mostram que o uso isolado de betabloqueadores não melhora a taxa de cura de transtornos de ansiedade. Eles podem ajudar em um sintoma, porém, não substituem avaliação, diagnóstico e tratamento adequados”, diz.

Os riscos da banalização
A popularização do tema nas redes sociais também preocupa. Para a psiquiatra, quando celebridades ou influenciadores falam sobre o uso de forma casual, existe o risco de criar a ideia de que se trata de uma “pílula mágica” para parecer calmo, o que está longe da realidade.
Isso porque, além de não resolver o quadro emocional, o medicamento não é inofensivo. Betabloqueadores podem ser contraindicados para pessoas com asma, pressão baixa e outras condições clínicas, além de causarem efeitos colaterais, como queda importante da frequência cardíaca, sensação de fraqueza e até dificuldade para respirar.
“O sintoma é um alerta do corpo de que algo não vai bem. Quando a pessoa apenas mascara esse sinal, ela pode atrasar a busca por ajuda e piorar o próprio quadro”, afirma Karina.
Num momento em que o desempenho, o autocontrole e a imagem de estabilidade parecem cada vez mais exigidos, o apelo de medicamentos como o propranolol revela também uma dificuldade contemporânea de lidar com limites, vulnerabilidade e desconforto. E, nesse cenário, a principal orientação continua sendo a mais importante: antes de tentar calar o sintoma, é preciso entender o que ele está querendo dizer.
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