Claudia Meireles

Sinais silenciosos de ansiedade e depressão: os alertas que ignoramos

Mudanças discretas no sono, culpa excessiva e pensamentos repetitivos podem ser alertas que a saúde mental precisa de atenção profissional

atualizado

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Imagem de uma mulher olhando pela janela do quarto - Psiquiatra explica o que é e como tratar depressão funcional - Metrópoles
1 de 1 Imagem de uma mulher olhando pela janela do quarto - Psiquiatra explica o que é e como tratar depressão funcional - Metrópoles - Foto: Justin Paget/Getty Images

A imagem clássica da depressão associada à prostração em um quarto escuro ou da ansiedade manifestada apenas em ataques de pânico está sendo ressignificada. Na prática clínica, a realidade é muito mais sutil e, por isso, perigosa. Muitos indivíduos mantêm rotinas produtivas, mas carregam um sofrimento invisível que se manifesta em padrões de pensamento e pequenas alterações comportamentais que passam despercebidas até pelo círculo social mais íntimo.

Identificar esses “sinais de baixa intensidade” é fundamental para uma intervenção precoce. Como explica a psicóloga Cibele Santos, o corpo e a mente dão avisos muito antes de um colapso total ocorrer. O desafio é aprender a ouvir esses alertas em um mundo que nos pressiona a estar constantemente bem.

Foto de uma mulher deitada na cama, de costas para a câmera. Conceito de depressão, transtornos mentais. Metrópoles
Alertas que indicam a necessidade de ajuda profissional

O “modo automático”

Um dos indicadores mais sofisticados de que a saúde mental está sob pressão é a perda da fluidez na vida. De acordo com Cibele Santos, a pessoa para de “viver” e passa a “operar”. Esse estado de sobrevivência se manifesta em detalhes do cotidiano que, isoladamente, parecem banais, mas em conjunto formam um quadro de alerta.

“Os primeiros sinais geralmente aparecem na perda da espontaneidade. A pessoa começa a operar no ‘automático’. Outros sinais incluem alterações discretas no sono e apetite: não necessariamente insônia, mas um sono que não restaura, ou comer sem sentir o sabor”, detalha a psicóloga.

Além disso, a especialista aponta para a procrastinação emocional. Diferente da preguiça, essa inércia surge do medo e do peso excessivo que tarefas simples ganham na mente do indivíduo. A irritabilidade também muda de escala: pequenas interrupções ou frustrações que antes eram manejáveis passam a gerar reações desproporcionais de raiva ou desânimo.

Mulher cansada sentada em sofá - Metrópoles
Desânimo

Quando o pensamento se torna uma prisão

A autocrítica é uma ferramenta útil para o crescimento, mas na ansiedade e na depressão, ela se transforma em ruminação — um ciclo repetitivo de pensamentos depreciativos que não levam a lugar algum. Cibele destaca que é necessário observar a qualidade da “voz interna”.

“A atenção profissional é necessária quando o pensamento deixa de ser uma busca por solução e passa a ser um ciclo de punição que gera paralisia. Se a ‘voz interna’ é predominantemente depreciativa e consome energia vital, impedindo o foco no trabalho ou no lazer, é hora de intervir”, alerta.

Esse desgaste cognitivo é intensificado pelo que a psicóloga chama de “falta de presença”. Para quem sofre, o presente é um território vazio:

  • Depressão: costuma estar ligada ao excesso de passado (remorso, saudade dolorosa, busca por um sentido perdido).
  • Ansiedade: é o excesso de futuro, a antecipação constante de catástrofes e o medo do que ainda não aconteceu.
Foto colorida com fundo azul escuro e luz laranja, de mulher deitada na cama com olhos abertos, sintomas de insônia. - Metrópoles.
Ansiedade pode causar insônia

O peso da culpa e a insuficiência

Outro sinal silencioso, porém devastador, é a culpa constante. Ao contrário da culpa funcional, que nos motiva a corrigir um erro real, a culpa nos quadros de transtorno mental é difusa e generalizada. Segundo Cibele, o indivíduo sente que é um fardo para os outros simplesmente por existir ou por não conseguir entregar a produtividade que a sociedade exige.

Essa sensação está intimamente ligada ao padrão de “nunca ser suficiente”, que alimenta fenômenos como a Síndrome do Impostor e o Burnout.

“Esse padrão cria um abismo entre quem a pessoa é e quem ela acha que deveria ser. A longo prazo, isso destrói a autoestima e gera um estado de alerta constante, pois a pessoa sente que precisa ‘provar’ seu valor o tempo todo”, explica a psicóloga.

O divisor de águas: momento difícil vs. transtorno

É natural sentir tristeza diante de perdas ou ansiedade antes de grandes eventos. No entanto, saber diferenciar a reação natural do transtorno clínico é vital para não negligenciar o problema. Cibele Santos sugere o uso do binômio intensidade x funcionalidade.

Em um momento difícil, como um luto ou demissão, a dor é intensa, mas o indivíduo ainda consegue experimentar breves momentos de esperança ou prazer. Já no transtorno, o sofrimento é persistente — geralmente ultrapassando o período de duas semanas — e começa a corroer áreas básicas da vida. “O sentimento não ‘vai embora’ mesmo quando as coisas externas melhoram”, pontua a especialista. Quando o isolamento social se torna a regra e o descuido com a higiene pessoal ou o trabalho surge, a ajuda profissional deixa de ser uma opção e passa a ser uma urgência.

Estratégias de enfrentamento e a “escada” da recuperação

Ao perceber esses sinais, o primeiro passo é buscar a regulação neurobiológica básica. A psicóloga recomenda a “higiene de rotina”, focada em sono e alimentação, e uma pausa digital para reduzir o bombardeio de estímulos e comparações sociais. Outra ferramenta poderosa é a escrita terapêutica, que ajuda a reduzir a ruminação da mente e colocá-la no papel.

Contudo, o silêncio é o maior aliado do transtorno. Cibele reforça que compartilhar a dor com alguém de confiança é o início da quebra do ciclo, mas ressalta que a terapia é o ambiente seguro para a recuperação da autonomia.

“A ajuda profissional é indispensável quando há perda de autonomia. Se você não consegue mais controlar suas reações ou se há desesperança profunda, busque apoio. Não precisamos esperar o ‘fundo do poço’ para buscar a escada”, finaliza Cibele Santos.
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Guia prático: como lidar com os sinais no dia a dia

Dicas baseadas nas orientações da psicóloga Cibele Santos para quem começou a notar os “alertas silenciosos”.

  • Regulação neurobiológica (higiene de rotina): antes de grandes mudanças, foque no básico. Tente dormir e acordar em horários consistentes e não pule refeições. O cérebro precisa de estabilidade biológica para processar emoções.
  • Escrita terapêutica (externalização): quando a mente entrar em looping de ruminação, escreva. Colocar o caos no papel ajuda a dar contorno ao sofrimento e diminui o peso do pensamento repetitivo.
  • Pausa digital estratégica: se a sensação de nunca ser suficiente estiver alta, afaste-se das redes sociais. O excesso de estímulos e a comparação com vidas filtradas alimentam a ansiedade e a Síndrome do Impostor.
  • A regra dos pequenos passos: se a procrastinação por medo travar o seu dia, divida as tarefas em partes minúsculas. O objetivo não é terminar tudo, mas quebrar a paralisia do “modo automático”.
Um casal maduro está sentado em seu quarto. A mulher conforta o homem visivelmente chateado. Metrópoles
Acolhimento é essencial

Como ajudar alguém: o poder da escuta ativa

Muitas vezes, percebemos os sinais em amigos ou familiares antes deles mesmos. Veja como agir sem ser invasivo.

  • Valide, não minimize: evite frases como “isso é fase” ou “você tem tudo para ser feliz”. Em vez disso, diga: “Eu percebi que você parece mais cansado ultimamente, quer conversar sobre como está se sentindo?”
  • Crie um ambiente de segurança: como diz Cibele, “o segredo alimenta o sintoma”. Deixe claro que a pessoa não será julgada se confessar que está se sentindo um “peso” ou inadequada.
  • Ajude na busca por auxílio: às vezes, quem está em sofrimento não tem energia para procurar um médico ou psicólogo. Ofereça-se para ajudar a pesquisar profissionais ou até para acompanhar a pessoa na primeira consulta.
  • Respeite o tempo, mas monitore o isolamento: se o isolamento social se tornar a regra, insista suavemente na presença. Às vezes, apenas estar por perto, mesmo em silêncio, já ajuda a quebrar o ciclo da solidão profunda.

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