Claudia Meireles

Cão Orelha: caso expõe crueldade e alerta para violência entre jovens

Morte do cão Orelha em SC mobiliza o país e levanta debate sobre empatia, papel dos pais, educação emocional e os limites da violência

atualizado

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Reprodução/Redes sociais
Cão Orelha foi espancado por quatro adolescentes
1 de 1 Cão Orelha foi espancado por quatro adolescentes - Foto: Reprodução/Redes sociais

A morte do cão Orelha, cachorro comunitário espancado na Praia Brava, em Florianópolis (SC), no início de janeiro, comoveu o Brasil e reacendeu um alerta que vai além da indignação momentânea. O caso, que envolve quatro adolescentes suspeitos e levou o animal à eutanásia devido à gravidade dos ferimentos, expõe um fenômeno cada vez mais presente no debate público: o crescimento da violência contra animais e o que ele revela sobre a sociedade — especialmente entre jovens.

Orelha tinha cerca de 10 anos, era conhecido como dócil, vivia solto pelo bairro e era cuidado espontaneamente por moradores e comerciantes da região.

Encontrado agonizando em uma área de mata dias após a agressão, o cachorro apresentava lesões graves na cabeça, sangramentos e sinais neurológicos severos. Apesar dos esforços veterinários, a equipe optou pela eutanásia para evitar mais sofrimento. A repercussão do crime gerou protestos, abaixo-assinados, manifestações de artistas e autoridades e impulsionou projetos de lei mais rígidos contra maus-tratos a animais.

CÃO ORELHA foi vítima de maus-tratos
Os suspeitos pela morte do cão Orelha estão sujeitos as sanções do ECA

Mais denúncias demonstram mais casos ou mais consciência?

O aumento de registros de maus-tratos nos últimos anos levanta uma dúvida recorrente: há mais violência ou mais denúncias? Para especialistas, os dois fatores caminham juntos. De um lado, a sociedade está mais informada, conhece melhor os canais de denúncia e demonstra menor tolerância à crueldade. De outro, o contexto de tensão emocional, intolerância social e banalização da violência contribui para comportamentos cada vez mais agressivos.

Para a psicóloga clínica Candice Galvão, o dado mais relevante é simbólico: a sociedade passou a não aceitar mais esse tipo de violência como algo “normal” ou isolado. O caso do cão Orelha é prova disso.

“O aumento das denúncias mostra que estamos menos dispostos a naturalizar a crueldade, especialmente quando ela atinge quem não tem como se defender”, afirma.

O que leva alguém a agredir um animal?

Do ponto de vista psicológico, a violência contra animais não surge de forma aleatória nem pode ser explicada por um único fator. Segundo Candice Galvão, há elementos recorrentes associados a esse comportamento, como dificuldade de empatia, baixa regulação emocional, impulsividade, histórico de violência vivida ou testemunhada e a necessidade de exercer controle ou poder.

“Animais acabam se tornando alvos fáceis porque são vulneráveis e não revidam. Para alguns agressores, a violência funciona como uma forma de descarregar raiva, frustração ou sentimentos que não conseguem elaborar de outra maneira”, explica a psicóloga.

Um sinal de alerta para outras violências

Estudos apontam que maus-tratos a animais podem funcionar como um importante sinal de alerta para outras formas de violência interpessoal, incluindo agressões domésticas e abusos. Isso não significa que todo agressor de animais vá, necessariamente, cometer outros crimes, porém, indica uma ruptura com limites éticos básicos.

“O comportamento violento contra animais merece atenção precoce. Quando ignorado, tende a se repetir e a escalar”, diz Candice. O caso Orelha, segundo ela, se encaixa nesse contexto mais amplo de atos extremos cometidos por jovens, muitas vezes alimentados por violência digital, sensação de impunidade e ausência de supervisão emocional adequada.

Nas redes sociais, Orelha é homenageada por internautas
Nas redes sociais, Orelha é homenageado por internautas

Por que o caso mobilizou tanta gente?

A comoção nacional em torno da morte de Orelha também tem explicação psicológica. Animais simbolizam inocência, dependência e vulnerabilidade absoluta. Eles despertam empatia imediata justamente por não terem voz nem meios de se defender.

“A mobilização coletiva revela uma necessidade social de proteger quem não pode se proteger sozinho. É uma reação à violência percebida como injustificável”, analisa a psicóloga. Nesse sentido, a indignação também reflete uma sociedade cada vez menos tolerante à crueldade gratuita.

Mulher chorando - Metrópoles
Educação emocional deve ocorrer desde a infância

Educação emocional e responsabilidade

Embora a punição legal seja fundamental, especialistas defendem que ela não é suficiente para prevenir novos casos. Para Candice Galvão, é necessário combinar responsabilização jurídica com acompanhamento psicológico e estratégias educativas.

Família e escola têm papel central nesse processo, ajudando a formar empatia, respeito aos limites, reconhecimento das emoções e responsabilidade afetiva.

“A educação emocional desde cedo ensina que frustração não se resolve com violência, seja contra pessoas ou animais”, afirma.

Para a psicóloga, proteger os animais é também uma forma de proteger a sociedade.

“A violência contra animais não surge do nada. Ela revela falhas profundas na forma como lidamos com emoções, empatia e frustração. Toda violência ignorada hoje tende a se repetir amanhã em outras formas.”

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