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As seleções de novos servidores exigem dos candidatos conhecimentos de disciplinas que, por muitas vezes, só conseguiriam ser adquiridos com mais de uma graduação. Por isso, os concurseiros investem pesadamente em cursos, livros e outros materiais que os capacitem para responder às questões das provas. Há também os altos gastos financeiros e de tempo, buscando técnicas elaboradas para aumentar a capacidade de concentração e memorização com dicas e sacadas de especialistas. Checklist completo, exceto por um detalhe: o investimento em sua saúde mental.

Os aspectos emocionais são deixados em segundo plano, quando não totalmente ignorados. Afinal, existe a cultura de que passar na prova deve ser um objetivo realizado a qualquer custo, de preferência se desconectando do convívio familiar e com amigos, de hobbies e lazer, e também de si mesmo. É considerado um sacrifico necessário, praticamente obrigatório. Uma prática geradora de prejuízos significativos para a saúde mental daqueles que, em breve, atenderão à população.

Mais cedo ou mais tarde, a fatura por negligenciar as emoções chega. Seja pela reprovação por causa de um “branco” na hora da avaliação, seja por um surto de ansiedade ou depressão durante os estudos, seja pelos casos de suicídio não contabilizados – por motivos óbvios – ou, ainda, pelo afastamento do trabalho para tratamento, já como servidor público.

Para este último caso, o Ministério do Planejamento fez a conta: em março de 2018, foram registradas 1.910 ocorrências de agentes públicos afastados por “transtornos mentais e comportamentais”. O custo dos afastamentos representa R$ 112 milhões por ano, o equivalente a 10% do total das despesas do Executivo federal com servidores ativos em 2017.

Primeiro lugar em ansiedade
No mais recente levantamento da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre depressão e outras desordens mentais, o Brasil ficou em primeiro lugar, com o maior percentual de pessoas diagnosticadas com ansiedade no mundo. Pelos dados apurados, cerca de 9,3% da população apresenta sintomas desse transtorno. Em números absolutos, foram contabilizadas 18,6 milhões de pessoas com o diagnóstico. O segundo colocado, o Paraguai, tem índice de 7,6%.

Os casos de depressão também colocaram o Brasil no triste pódio, em segundo lugar. Pelo menos 5,8% dos brasileiros têm sintomas da doença, índice atrás somente do observado na Ucrânia (6,3%) e maior do que o registrado em países passando por conflitos bélicos, como Israel (4,6%). Também é superior a territórios conhecidos por altas taxas de estresses, como o Japão (4,2%), e até a todas as nações africanas pesquisadas, que não ultrapassam 4,7%.

Em todo o mundo, conforme estudo da Escola de Saúde Pública de Harvard sobre as consequências econômicas dos casos de saúde mental, até 2030 haverá prejuízo de US$ 16,1 trilhões, atingindo em cheio a produção e qualidade de vida das pessoas. No Brasil, esse campo representa, atualmente, apenas 2,3% do orçamento do Sistema Único de Saúde (SUS).

Os números são um alerta, mas representam uma parcela pequena diante da realidade. Poucas pessoas que se sentem angustiadas, com medo ou preocupações constantes buscam ajuda profissional, seja por desconhecimento, seja por a considerarem desnecessária. Cuidar da saúde mental ainda é visto como um luxo ou tabu, apesar do aumento crescente de instituições e profissionais que democratizam o acesso aos tratamentos adequados.

Basta entrar em uma sala de curso preparatório ou em algum fórum e pedir que os ansiosos se manifestem. Raros serão aqueles que dirão não se sentirem incomodados em algum grau, seja durante os estudos, seja na hora das avaliações. Eles não vão entrar na estatística, mas sabem bem o que estão sentindo.

Boa parte desse estado emocional vem da falta de referência temporal, como saber quando o concurso será liberado ou quando será a data da prova e, ainda, quando terminará esse fase tão conturbada de esforço. Outra parcela vem da preocupação com o conteúdo das avaliações. Há ainda aqueles que depositam toda sua expectativa profissional e planos de vida no compromisso da posse, anulando suas necessidades emocionais do momento presente.

Equilíbrio
Investir nas próprias emoções significa investir em produtividade – seja no trabalho ou nos estudos – e em qualidade de vida. Segundo especialistas, a cada R$ 1 destinado nesse campo, há retorno de R$ 4. Práticas como a meditação, psicoterapia, coaching e outras soluções voltadas ao autoconhecimento e inteligência emocional estão ganhando espaço na vida das pessoas.

Para a psicóloga Camila Wolf, que está à frente do projeto Terapia a Distância e é especialista em transtorno de ansiedade, o primeiro passo é acolher o estado emocional em vez de negá-lo ou tentar combatê-lo. Ela também ressalta que a busca pelo equilíbrio entre as diversas áreas da vida é o caminho para se manter psicologicamente saudável e produtivo.



 


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