Homens de vestido e salto estão roubando a cena nos red carpets

Enquanto as mulheres passam a investir em composições discretas e minimalistas, público masculino caminha no sentido oposto

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atualizado 22/09/2019 10:24

No início deste mês, durante a premiação Homem do Ano, da revista GQ, o cantor Sam Smith comemorou a primeira vez que usou saltos em um tapete vermelho. No entanto o britânico não tem sido o único a investir em peças tipicamente femininas para ocasiões como essa. O cabeleireiro Jonathan Van Ness, do reality show Queer Eye, compareceu à premiação técnica do Emmy, no último domingo (15/09/2019), com um vestido Christian Siriano e botas Rick Owens com pelo menos 10 cm de altura, enquanto o ator Billy Porter tem roubado a cena no London Fashion Week com suas produções sem gênero.

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Como adiantamos em abril, o movimento #MeToo tem redefinido o sex appeal feminino nas passarelas. Decotes, comprimentos curtos e roupas justas, aos poucos, dão lugar a silhuetas mais amplas, minimalismos e alfaiatarias. Contudo, ao passo que as mulheres se afastam da sexualização e da extravagância, os homens abraçam essas características como nunca antes.

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Modelagens estão cada vez mais amplas, como pudemos ver no último desfile de Victoria Beckham no London Fashion Week

 

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Detalhes fetichistas reinterpretam como sex appeal feminino de forma mais elegante

 

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Neste contexto, a alfaiataria tem ganhado muito espaço

 

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Pernas de fora na Burberry, mas com um toque de mistério alcançado pela transparência

 

A crescente disseminação da moda genderless e a singularidade da geração millennial têm dado ao menswear uma importante oxigenação de tendências e práticas. Nas ruas, rendas, animal prints, texturas e cores marcantes começam a se tornar mais comuns entre eles, indicando uma importante reinvenção no segmento para a próxima década.

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Sam Smith tem apostado nas rendas

 

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Mahershala Ali com textura animal

 

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Chadwick Boseman com sobretudo aveludado

 

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Swae Lee também já entrou na tendência da camisa de renda

 

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Darren Criss usou textura em festa da Vanity Fair

 

 

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Mais um look de Chadwick Boseman, agora com paetês

 

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Aplicação de pedras no casaco de Michael B. Jordan

 

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Jude Law tem investido em blazers de veludo

 

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Costume floral em Timothée Chalamet

 

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Outro visual de Michael B. Jordan agora com um harness da Louis Vuitton

Na última temporada de premiações, por exemplo, os tradicionais smokings ganharam vida com texturas e acessórios, ameaçando a hegemonia feminina nos red carpets. Graças a estrelas como Michael B. Jordan, Chadwick Boseman, Timothée Chalamet, Jared Leto e Young Thug arriscar deixou de ser um ato demonizado no século 21.

E, por falar em riscos, ninguém foi tão ousado quanto Billy Porter no tapete vermelho do Oscar. Apontado pela mídia especializado como o dono do melhor look do evento, o ator surgiu no Teatro Dolby em um volumoso Christian Siriano que referenciou a cultura ballroom, explorada na série Pose, protagonizada pelo artista.

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Para o tapete vermelho do Oscar, Billy Porter homenageou Hector Xtravaganza, ícone do movimento ballroom

 

Mais tarde, no Met Gala, o americano voltou a causar comoção ao adentrar as escadarias do Museu de Arte Moderna de Nova York como Deus Sol. Carregado por seis servos, Porter exibiu um visual dourado com direito a asas e muitas franjas.

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Para o Met Gala, Billy Porter elegeu a figura do Deus Sol, com direito a súditos descamisados

 

Agora, durante a Semana de Moda de Londres, Billy voltou às manchetes como uma série de produções embaladas por fluidez, tanto de gêneros quanto de tecidos. Entre casquetes, vestidos e saltos, o ganhador do Tony mostrou que um estilo marcante já não depende de visuais binários.

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Billy Porter tem chamado atenção na Semana de Moda de Londres

 

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Ator rompe todas as barreiras de gênero com suas produções

 

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Em suas recentes aparições, isso tem ficado cada vez mais latente

 

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Color blocking trabalhado com volumes

 

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Combo de saltos, vestido, plumas e uma singela casquete para finalizar

 

Outro ator que investe em peças tipicamente femininas na hora de montar seus looks é Ezra Miller. Ele, que dá vida ao super-herói Flash nos cinemas, sempre aparece nos red carpets e premières com combinações cheias de irreverência e sem gênero definido.

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Para a première de Fantastic Beasts: The Crimes Of Grindelwald, Ezra escolheu este look da Moncler

 

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Artista também é fã de maquiagem

 

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No Met Gala, Ezra Miller finalizou seu terno com um corset de pedras

 

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No fim de agosto, ele prestigiou um evento em Seul vestido dessa forma

O estilista Marc Jacobs também escolheu saltos para sua passagem pelo tapete vermelho do MTV Video Music Awards 2019. Porém não é de hoje que o designer flerta com a moda feminina. Muito antes do termo não binário aparecer, ele já desfilava pelas ruas de saia, sempre com produções impecáveis e cheias de estilo.

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Marc Jacobs usou salto cravejado de pedras no MTV Video Music Awards

 

Na premiação técnica do Emmy, no dia 15 de setembro, o tapete vermelho do evento poderia ter passado em branco se não fossem dois membros do elenco de Queer Eye. Em meio às produções chatas e sem muita informação de moda, Jonathan Van Ness e Tan France roubaram a cena com seus trajes.

O primeiro apostou em um vestido Christian Siriano, desfilado na última semana de moda de Nova York, enquanto seu colega finalizou com uma túnica bordada e botas brancas de salto.

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Jonathan Van Ness, do reality Queer Eye, investiu em um modelo Christian Siriano para o Creative Arts Emmy Awards

 

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Seu colega Tan France também elegeu uma “bota feminina” para a ocasião

 

O termo “não binário”, amplamente difundido na Geração Z, começou a ser debatido por volta de 2014, quando a identidade de gênero tornou-se uma conversa internacional. Em 2017, um estudo da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, descobriu que 27% dos jovens entre 12 e 17 anos acreditam não ser vistos como parte de um gênero específico.

De acordo com um artigo publicado na revista Pediatrics, a previsão é que esse número cresça, pois cada vez mais adolescentes estão se identificando com rótulos não tradicionais. Algumas sinagogas progressistas e comunidades judaicas, inclusive, já realizam cerimônias de bar mitzvás não binários, ao passo que algumas pessoas sinalizam “sem gênero” nas habilitações americanas.

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Sam Smith, que se identifica como não binário, foi ao prêmio Homem do Ano com salto alto

 

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Jared Leto, de vestido Chanel, na première de Esquadrão Suicida

 

“Quando analisamos a comunidade de jovens que se identificam como não binários, o que realmente vemos é uma comunidade de pessoas que estão apenas aceitando a diversidade e forçando os limites dos estereótipos binários”, disse Jeremy Wernick, professor assistente do Departamento de Psiquiatria Infantil e Adolescente da NYU Langone.

Deborah Tolman, professora de psicologia da City University de Nova York, cujo trabalho se concentra na sexualidade, acha que esse movimento fashion é, para muitos, sobre brincar com masculinidade e feminilidade. “O objetivo disso, que muitos julgam como esquisito, é estar fora da caixa, valorizando a individualidade”, afirmou ao New York Times.

 

Colaborou Danillo Costa

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